Capítulo 6



Na terça-feira de manhã, a primeira nevasca caíra, rápida, para depois parar, deixando o chão todo cinza e pontilhado de branco, como as penas de uma galinhad'angola. O vento, entretanto, não cessara nem por um momento, e o frio ainda era intenso. O pior é que, pela aparência do céu baixo, na cor caqui, o tempo ainda ia piorar.
Harry Potter deu uma olhada lá fora e decidiu que era um bom dia para ficar dentro de casa, para tentar organizar alguns dos assuntos de Charles. Isso acabou sendo um trabalho comovente. Charles era muito eficiente, cuidadoso e detalhista, e deixara ordenadamente arquivados todos os contratos e documentos que tinham relação com o trabalho na fazenda. Preparar os papéis da propriedade para a venda iria ser mais simples do que Harry imaginara.

Mas ali havia outras coisas também. Coisas pessoais.
Cartas e convites, um passaporte fora de validade, contas de hotel pagas, fotografias, o livro de endereços de Charles, o seu diário, a caneta de prata que ele ganhara ao fazer vinte e um anos, e uma conta do alfaiate.
Harry se lembrou da voz da própria mãe lendo, em voz alta, um poema de Alice Duer Miller para eles.
“O que fazer com os sapatos de uma mulher depois que ela já está morta?”
Fazendo-se de forte, rasgou várias cartas, escolheu algumas das fotografias, jogou fora pedaços muito velhos de cera para lacrar cartas. Livrou-se de pedaços de barbante, de um cadeado quebrado sem a chave e de um vidro com tinta nanquim já ressecada. Quando o relógio bateu onze horas, a cesta de papéis estava transbordando, e quando ele acabara de se levantar para recolher o lixo e descarregá-lo na cozinha ouviu o barulho da porta da frente sendo fechada. Os painéis de vidro na parte de cima tremeram, produzindo um som cavernoso e estridente que ecoou pelas paredes do saguão. Carregando a cesta de papéis, Harry saiu para ver quem chegara, e ficou frente a frente com Gina Weasley, que já vinha pelo corredor em direção a ele.

- Gina!

Ela estava de calça comprida e vestia um casaco de peles bem curto. O mesmo chapéu preto que usara na véspera estava enterrado, cobrindo as orelhas. Enquanto ele a olhava, Gina retirou o chapéu e, com a outra mão, ajeitou o cabelo ruivo, que tinha sido cortado bem baixinho. Aquele pareceu um gesto estranho, nervoso e incerto, que não combinava com a sua aparência suave. Seu rosto estava corado devido ao frio, e ela sorria. Parecia maravilhosa.

- Olá, Harry.

Foi até ao lado dele e se curvou sobre o monte de papéis amassados para beijar-lhe o rosto.
- Se você não quer me ver agora... - disse ela - pode falar, que eu vou embora.

- Mas quem é que falou que eu não queria vê-la?

- Pensei que talvez...

- Bem, não pense "que talvez"... - cortou. - Venha comigo que eu vou lhe preparar uma xícara de café. Eu mesmo estou precisando de uma, pois já estou cansado de ficar aqui sozinho.
E saiu na frente caminhando até a cozinha, empurrando a porta de vaivém e mantendo-a aberta com o traseiro encostado nela, permitindo que ela entrasse antes dele, com suas longas pernas e seu aroma de ar fresco misturado com Chanel nº 5.

- Coloque a chaleira no fogo, por favor - disse. - Vou lá fora me livrar deste lixo.

Atravessando a cozinha, saiu pela porta dos fundos e deu de cara com o frio cortante. Conseguiu retirar todos os papéis da cesta e colocá-los na lata de lixo por etapas, sem que muita coisa voasse. Apertou a tampa da lata com força, para fechá-la com segurança, e voltou, grato pelo calor da cozinha. Gina, parecendo deslocada, estava na pia, enchendo a chaleira com água da torneira.

- Meu Deus! - disse Harry. - Está frio demais!

- Eu sei... E já estamos na primavera. Vim andando de Rossie Hill até aqui e pensei que fosse morrer congelada. - Carregou a chaleira até o fogão Agá, levantou a pesada tampa e colocou o recipiente sobre o fogo. Ficou parada ali, de costas para as chamas e aproveitando o calor. Através da cozinha, ficaram olhando um para o outro. Então, de repente, falaram ao mesmo tempo.

- Você cortou o seu cabelo - disse Harry.
.
- Sinto muito por Charles - disse Gina.

Ambos pararam, esperando que o outro continuasse. Então Gina falou, parecendo confusa:
- Tive que cortá-lo para poder nadar. Estive há pouco com uma amiga em Antigua, no Caribe.

- Queria agradecer por você ter vindo ontem.

- Eu... nunca tinha estado em um funeral antes.

Seus olhos, realçados pelo delineador e o rimei, ficaram de repente brilhantes, cheios de lágrimas que não caíam. O cabelo curto, com um corte elegante, expunha o comprimento do pescoço e a linha definida do queixo determinado, que herdara do pai. Enquanto Harry a olhava, Gina começou a desabotoar o casaco de peles, e suas mãos também estavam bronzeadas, as unhas em forma de amêndoas pintadas em um tom muito claro de rosa. Ela usava ainda um anel grosso, com um monograma gravado na parte externa e uma fileira de finos braceletes de ouro em um dos pulsos delgados.

- Puxa, Gina... - disse ele, de modo inadequado. - Você cresceu!

- Claro que sim. Já estou com vinte e dois anos. Você esqueceu?

- Há quanto tempo não nos vemos?

- Uns cinco anos? É... Deve ter uns cinco anos, pelo menos.

- Como o tempo passou depressa!

- Você foi para Londres. Eu fui para Paris, e todas as vezes que eu voltava a Rossie Hill, você sempre estava fora.

- Mas Charles estava aqui.

- Sim. Charles estava aqui. - Mexeu com a tampa da chaleira, distraída. - Só que... se alguma vez ele reparou na minha aparência, certamente jamais a mencionou.

- Garanto que reparou. Apenas não era muito bom em dizer o que sentia. Enfim, para Charles você sempre foi perfeita. Mesmo quando tinha apenas quinze anos, usava rabo-de-cavalo e jeans apertado. Ele estava só esperando você crescer.

- Eu não consigo acreditar que ele está morto!

- Eu também não conseguia... - replicou Harry. - Até ontem. Mas acho que já aceitei o fato, agora. - A chaleira começou a apitar no fogo. Harry saiu do lado do fogão e foi procurar canecas, um vidro de café solúvel e uma garrafa de leite da geladeira.

- Meu pai me contou a respeito de Potter.

- Você quer dizer... Sobre a idéia de vendê-la?

- Como é que você vai ter coragem de fazer isso, Harry?

- É que não há outra escolha.

- Mas vender até mesmo esta casa? A casa tem que ser vendida também?

- O que eu faria com a casa?

- Você poderia mantê-la. Usá-la para fins de semana e férias, só para manter as raízes em Potter.

- Isso me parece uma extravagância.

- Na verdade, não é. - Ela hesitou ligeiramente e depois continuou em um só fôlego: - Quando você se casar e tiver filhos, vai poder trazê-los aqui, e eles vão poder fazer todas as coisas maravilhosas que você costumava fazer quando era pequeno. Vão correr soltos, construir casas na árvore grande, ter pôneis...

- E quem é que disse que eu estou pensando em me casar?

- Papai disse que você falou que não iria se casar até ficar velho demais para fazer qualquer outra coisa.

- O seu pai conta coisas demais para você.

- O que quer dizer com essa frase?

- Que ele sempre fez isso. Sempre foi indulgente com você, contava-lhe todos os segredos. Você era uma pirralha mimada, sabia?

- Estas são palavras de quem está querendo briga, Harry... - replicou Gina, de forma divertida.

- Não sei como você sobreviveu. Filha única, com dois pais corujas e que nem moravam juntos. Como se isso não bastasse, ainda tinha Charles, que fazia todas as suas vontades.

A chaleira ferveu, e ele foi retirá-la do fogo. Gina tomou a baixar a tampa do fogão.
- Mas em compensação, você jamais me mimou, Harry.

- Tinha mais juízo. - Colocou a água nas canecas.

- Você também jamais notou que eu existia. Estava sempre me dizendo para sair do seu pé.

- Ora, mas isso foi quando você ainda era uma menina pequena, antes de se tomar tão glamurosa. Por falar nisso, sabia que eu não consegui reconhecê-la, ontem? Só quando você tirou os óculos escuros é que eu reparei quem você era. Levei um susto!

- O café já está pronto?

- Já. Venha beber antes que esfrie.

Ao sentar, ficaram olhando um para o outro por cima da mesa da cozinha. Gina segurou a caneca de café com as duas mãos, como se os dedos ainda estivessem gelados. Sua expressão era provocante.
- Estávamos falando sobre você se casar.

- Eu não estava, você sim.

- Por quanto tempo vai ficar em Potter?

- Até todas as coisas ficarem acertadas. E você?

- Tenho que ir para o sul, agora. - Gina encolheu os ombros. - Minha mãe e Parker estão em Londres por alguns dias, a negócios. Telefonei para ela quando cheguei, para lhe contar sobre Charles. Ela tentou me convencer a voltar para me encontrar com eles, mas expliquei que queria ficar aqui, para o funeral.

- Você ainda não me disse quanto tempo pretende ficar aqui em Rossie Hill.

- Ainda não fiz nenhum plano, Harry.

- Então, fique por mais algum tempo.

- Você quer que eu fique?

- Sim.

Depois que isso foi dito e a situação foi acertada, o resto da tensão entre eles aliviou um pouco. Continuaram sentados, conversando, esquecidos do tempo. Só quando o relógio do saguão bateu doze vezes é que a atenção de Gina foi atraída para a hora, e ela olhou para o relógio de pulso.
- Minha nossa! Já é assim tão tarde? Tenho que ir.

- Para quê?

- O almoço. Você se lembra?... Aquela exótica e antiquada refeição... Ou você deixou de almoçar?

- Não, de modo algum.

- Volte comigo até a minha casa, agora. Pode ficar para almoçar conosco. Estamos apenas eu e meu pai.

- Não, só vou levá-la até em casa, mas não vou ficar para almoçar.

- Por que não?

- Já perdi metade da manhã fofocando com você, e ainda tenho muitas coisas para fazer.

- E que tal um jantar, hoje à noite?

Ele considerou a idéia e, então, por várias razões, abriu mão do convite, oferecendo uma alternativa.
- Pode ficar para amanhã?

- Quando você quiser... - E deu de ombros, cordata, a síntese da docilidade feminina.

- Amanhã vai ser ótimo, Gina. Que tal às oito da noite?

- Tudo bem. Um pouco mais cedo, se você quiser tomar um drinque.

- Certo, um pouco mais cedo, então. Agora, coloque o casaco e o chapéu, que eu vou levá-la até em casa.

O carro de Harry era verde-escuro, baixo, pequeno e muito veloz. Ela se sentou ao lado dele com as mãos enterradas nos bolsos do casaco, olhando em frente, para a paisagem gélida e exposta da área rural escocesa, e estava tão fisicamente consciente do homem que estava a seu lado que essa sensação quase doía.
Ele mudara em algumas coisas e, no entanto, de uma certa maneira, parecia o mesmo. Estava mais velho. Havia marcas em seu rosto que não estavam lá antes, e este agora possuía uma expressão no fundo dos olhos que a fazia sentir-se como se estivesse embarcando em um caso de amor com um completo estranho.
Mas ainda era o mesmo Harry. Inesperado, recusando qualquer compromisso, invulnerável. Para Gina só havia Harry. Tinha sido assim desde o início. Charles era apenas uma desculpa para ela freqüentar Potter, e Gina a usara para isso, sem nenhuma vergonha, porque ele sempre encorajava suas visitas e parecia invariavelmente feliz por vê-la. Foi, porém, por causa de Harry que ela acabou indo embora dali.
Charles era o simples, o caseiro, sem sofisticação, magro, com a pele clara e sardenta. Harry, porém, era o magnetismo e o charme. Charles tinha tempo e paciência para aturar uma adolescente boba e desajeitada; tempo para ensiná-la a pescar, a dar o saque no jogo de tênis; tempo para paparicá-la durante as agonias do primeiro baile, e ensaiar com ela várias danças típicas. E por todo aquele tempo, ela só tivera olhos para Harry, e rezava o tempo todo para que ele dançasse com ela.

Mas é claro que ele jamais dançava. Havia sempre alguém de fora, geralmente uma amiga estranha que viera com ele de Londres. "Eu a encontrei na Universidade, em uma festa, estava acompanhando uma amiga e tal..." E, no decorrer dos anos, houve muitas delas. As namoradas de Harry eram uma piada no local, mas Gina não achava graça nenhuma. Ela as olhava de lado e detestava todas elas, criando imagens mentais de cada uma e espetando-as com alfinetes, roída pelos tormentos dos ciúmes de adolescente.
E após a separação dos pais, foi Charles quem escreveu para ela dando as notícias de tudo o que acontecera, mas sempre mantendo contato. Era, porém, uma fotografia de Harry, um pequeno instantâneo meio amassado nas pontas, que ela mesma tirara há muito tempo, que vivia no bolso secreto da sua carteira e ia com ela a toda parte.
Agora, ali, sentada ao lado dele, Gina deixou o olhar se movimentar lentamente para o lado. As mãos de Harry, pousadas sobre o volante revestido de couro, exibiam dedos longos, e as unhas tinham pontas quadradas. Havia uma cicatriz próxima do polegar, e ela se lembrava de quando ele abrira a mão, cortando-a em uma cerca de arame farpado. Seus olhos se moveram lentamente por toda a extensão do seu braço. O colarinho do casaco, revestido de pele de carneiro, estava virado para cima e envolvia todo o pescoço, tocando o cabelo grosso e escuro. E então ele sentiu o olhar dela e virou a cabeça para dar um sorriso, e os seus olhos, embaixo das sobrancelhas largas e escuras, pareciam bolas de gude verde-brilhante.

- Vamos nos entender melhor da próxima vez - disse ele. Mas Gina não respondeu. Lembrou-se do momento em que chegara ao aeroporto, em Prestwick, e do pai à sua espera. "Charles morreu”. Houve um terrível momento em que ela não acreditara nisso, como se o chão tivesse sumido sob seus pés, e ela estivesse olhando para baixo, para um imenso buraco aberto no chão.

- E Harry?... - perguntara, quase desmaiando.

- Harry está em Potter. Ou já deve ter chegado, a esta hora. Vinha hoje de manhã de Londres. O enterro vai ser na segunda-feira...

Harry em Potter. Charles, o querido, doce e paciente Charles estava morto, mas Harry estava vivo, e estava em Potter!... Após todos esses anos, ela o encontraria novamente... No caminho de volta, com seu pai dirigindo até Rossie Hill, este pensamento jamais saíra da sua cabeça. Vou vê-lo. Amanhã vou vê-lo... E depois de amanhã... E no dia seguinte... Ela ligara para a mãe em Londres, a fim de contar sobre Charles, mas quando Elaine tentara persuadi-la a deixar toda aquela tristeza para trás e ir para Londres, Gina recusara. A desculpa parecia apropriada.
"Tenho que ficar. Papai... e o enterro..." Mas o tempo todo ela sabia, e festejava o fato, de que estava ficando ali apenas por causa de Harry.

E, miraculosamente, isso funcionara. Ela soube que tudo daria certo no momento em que Harry, aparentemente sem razão, levantara o rosto subitamente, no cemitério, e olhara diretamente para ela. Foi possível notar tudo em seus olhos; primeiro a surpresa, e então a admiração. Harry não estava mais em uma posição de superioridade. Agora eram iguais. E... o que era triste, sem dúvida, mas tomava tudo muito mais simples... Não havia mais Charles a considerar. O gentil Charles, o enlouquecedor Charles, sempre ali, como um velho cão fiel, esperando para ser levado para passear.
Ela deixou a mente prática e ocupada voar livre à frente, permitindo-se o deleite de visualizar duas ou três lindas imagens do futuro. Tudo funcionou de forma tão correta, que até parecia ter sido tramado por antecipação. O casamento seria em Potter, talvez... Uma pequena e simples cerimônia rural na igreja local, com a presença de alguns poucos amigos. Depois, a lua-de-mel em?... Antigua?... Seria perfeito! Depois a volta a Londres. Ele já tinha um apartamento na cidade, e eles poderiam usá-lo, de início, para depois procurarem, com calma, uma casa maior e mais adequada. E, que idéia brilhante, ela poderia convencer o pai a lhe dar a casa principal de Potter como presente de casamento. As sugestões tão casuais que ela colocara na cabeça de Harry naquela manhã se tomariam, afinal, realidade. Ela já podia vê-los... dirigindo até a Escócia para fins de semana prolongados, passando as férias de verão ali, trazendo as crianças e oferecendo jantares e recepções...

- Você ficou muito quieta de repente!
A voz de Harry trouxe Gina de volta à realidade como um tiro, e ela viu que já estavam chegando perto da casa. O carro virará no portão e seguia pela alameda, sob as árvores. Acima deles, os galhos despidos estalavam sob o vento cruel. Rodearam a pista circular na frente da residência e o carro parou diante da grande porta principal.

- Estava pensando na vida... - disse ela. Apenas pensando... Obrigado por me trazer em casa.

- Eu é que agradeço por você ter aparecido lá em Potter para tentar me animar.

- Está confirmado, então? Você vem jantar aqui amanhã, quarta-feira?

- Mal posso esperar.

- Quinze para as oito?

- Quinze para as oito!

Sorriram um para o outro, demonstrando o mútuo prazer que sentiam pelo que tinham acertado. Nesse momento, Harry se debruçou para abrir-lhe a porta. Gina saiu do carro e subiu depressa os degraus gelados, correndo até a entrada coberta da residência, para se abrigar. Ao chegar ali, virou-se alegremente para acenar para Harry, mas este já havia partido, e apenas a traseira do carro era visível, desaparecendo na alameda em seu caminho de volta a Potter.

Naquela noite, quando Gina estava se preparando para sair do banho, deitada na banheira, foi interrompida por um telefonema de Londres. Enrolada na toalha, resolveu sair para atender à chamada, e ouviu a voz de sua mãe do outro lado da linha.
- Virginia?

- Sim. Alô, mamãe.

- Querida, como é que você está? - Elaine parecia preocupada. - Como estão as coisas por aí?

- Está tudo bem. Tudo perfeito. Maravilhoso! - Essa resposta tão solta não era exatamente o que a mãe de Gina esperava, e isso a deixou intrigada.

- Mas... Você foi ao enterro?

- Ah, fui! Aquilo foi horrível. Detestei cada momento...

- E por que não voltou logo para Londres?... Vamos ficar aqui por mais alguns dias...

- Não posso ir ainda... - Gina hesitou. Normalmente ela se fechava dentro de uma concha quando a conversa derivava para assuntos particulares. Elaine reclamava continuamente de nunca conseguir saber o que se passava na vida de sua única filha. De repente, porém, Gina pareceu mais expansiva. A excitação do que acontecera naquela manhã e a expectativa do que poderia acontecer no dia seguinte estavam fazendo com que ela se sentisse muito bem. Sabia que se não contasse a respeito de Harry para alguém era capaz de explodir. Assim, terminou a frase com uma explosão de confiança. - O caso é que Harry está aqui e vai passar alguns dias. E vem aqui jantar conosco, amanhã à noite.

- Harry? Harry Potter?

- Sim, claro que é Harry Potter. Qual é o outro Harry que nós conhecemos?

- Você quer dizer que...? Por causa de Harry...

- Sim. Por causa de Harry. - Gina deu ênfase ao nome, rindo. - Ora, mamãe, não seja tão ingênua.

- Mas... Eu sempre pensei que fosse Charles que...

- Bem, não era! - cortou Gina, bem depressa.

- E o que Harry tem a dizer de tudo isso?

- Olhe, ele não me parece exatamente insatisfeito com o assunto.

- Ora... Não sei o que dizer... - Elaine pareceu confusa. - É a última coisa que eu esperava, mas se você está feliz...

- Ah, mamãe, eu estou! Estou feliz. Pode acreditar, jamais estive tão feliz na vida.

- Bem, depois me conte como foi... - disse a mãe, com voz tênue.

- Eu conto.

- E me avise quando é que vai voltar para Londres.

- Provavelmente vamos voltar juntos - disse Gina, já imaginando como iria ser. - Talvez voltemos no carro dele, só nós dois.

Sua mãe finalmente desligou. Gina colocou o fone no gancho, apertou a toalha mais firmemente em volta do corpo e foi pisando, com cuidado, de volta até o banheiro. Harry... Ficou balbuciando o nome dele repetidas vezes. Harry Potter... Voltou para dentro da banheira e ligou a torneira de água quente com o dedo do pé. Harry...

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