Capítulo III



Assim que a madrugada chegou, Malfoy se certificou de que não havia nenhuma movimentação no hotel. Vendo tudo calmo, eles arrumaram as coisas e desceram para a recepção. Hermione pegou o livro de registros e procurou pelo quarto de n° 16.

- Aqui! Uma semana em nome de Anthony Hilberg – falou Hermione.

- Perfeito. Um nome desses não deve ser tão comum! Agora vamos, antes que alguém nos veja e venha amolar.

- Só um instante – pediu a moça.

Ela agitou a varinha para o livro e apagou os nomes que haviam usado para o registro do hotel.

Os dois aparataram discretamente em seguida. Precisavam acessar os arquivos do Ministério da Magia para tentar encontrar os ladrões. No Ministério seria fácil descobrir se aquele nome era de um bruxo ou de um aborto.

Chegaram à cabine telefônica, discaram o número do Departamento de Registro Mágico e desceram. Ainda era noite, mas o departamento que precisavam ir era um dos poucos que sempre fazia plantão.

Do átrio eles se dirigiram para o 3° andar, onde encontraram uma bruxa gordinha que se parecia muito com a mulher do retrato na porta do Salão Comunal da Grifinória.

- Oi, Mildred! – saudou Hermione, cujo humor melhorou 100% quando se viu longe do hotel e de seu recepcionista asqueroso.

- Boa noite, menina! O que faz por aqui? Não me diga que veio registrar alguém?

- Não, Mildred! Está louca?

- Ah, nunca se sabe! E depois que o Arthur me contou do seu noivado com o filho dele, bem, podia ser, né?

Draco soltou um suspiro irritado. Aquela “conversa de comadres” lhe aborrecia profundamente.

- Mildred, eu preciso de um favor. Tenho que checar este nome aqui – disse Hermione entregando um pedaço de pergaminho para a bruxa.

Com o pergaminho em mãos, ela sumiu atrás de uma fileira de arquivos, fazendo barulho quando as gavetas se abriam, espalhando os registros pela sala de uma maneira não muito organizada. Depois de uns 15 minutos de procura, ela voltou com o pedaço de papel e informou:

- Sinto muito, querida! Esse nome que você me deu não é bruxo nem nunca foi!

Sem perder tempo, Hermione emendou:

- Posso abusar da sua ajuda, Mildred? Eu preciso muito encontrar essa pessoa...

- Já sei, já sei! Vou fazer o pedido pra você!

A bruxa voltou mais uma vez para o fundo dos arquivos, murmurando alguma coisa e se jogou numa cadeira velha para escrever num pedaço de pergaminho.

- O que ela vai fazer? – perguntou Draco que nunca tinha ido até aquele setor do Ministério antes.

O rapaz sempre preferiu ficar nos setores mais influentes e nunca se interessou pelos departamentos “inferiores”.

- Ela vai me dar um pedido para investigar o nome do sujeito junto ao Departamento de Relação com os Trouxas.

- Mas esse é o novo departamento que o pai do Weasley coordena. Por que você simplesmente não pediu um favor ao seu sogrinho?

- Porque o Sr Weasley é muito correto – respondeu frisando bem essa palavra, ignorando momentaneamente que o hobby do Sr Weasley era justamente “quebrar algumas das regras” de mau uso dos artefatos trouxas. – E prefere que tudo seja feito de acordo com as normas.

- Aqui está – interrompeu-os Mildred. – O requerimento!

Hermione deu um beijo estalado na bochecha rosada da bruxa gordinha e agradeceu.

- Você é ótima, Mildred!

Eles voltaram para o átrio, dispostos a procurarem Arthur Weasley o mais rápido possível, quando Draco se deu conta de que não havia amanhecido.

- Vamos para o Departamento de Aurores. Quem sabe conseguimos descansar um pouco enquanto esperamos seu sogrinho aparecer – falou bocejando.

Hermione concordou e logo eles estavam acomodados nos sofás do departamento. A jovem amarrou os cabelos e pegou uma revista para ler.
Draco enrolou a capa sobre o corpo e sentiu o sono arrebatar-lhe. A verdade é que não conseguiu descansar no hotel. Passou o tempo todo vigiando o sono de Hermione e reforçando os feitiços que mantinham a porta trancada. Mesmo com o corpo pedindo um descanso, ele não conseguia fechar os olhos. Com a cabeça apoiada no travesseiro, ele olhava para a jovem adormecida e pensava o que poderia lhe fazer se preocupar tanto com ela.

Agora, quase de manhã, ele precisava dormir um pouco.

Se não, essa sangue ruim vai se achar mais do que já é! – pensou com um mau humor típico de crianças sonolentas.

Ali no sofá, Hermione fingia ler a revista que tinha em mãos. Seus pensamentos, na verdade, estavam voltados para os acontecimentos da tarde anterior. Não, ela não remoia a incapacidade de se defender, apesar desse detalhe ainda incomodar.

Na verdade, pensava no que Draco havia feito. Seu socorro preciso e providencial. Seus braços a levantando do chão e levando para o quarto. As mãos brancas, com dedos compridos e fortes puxando a coberta para cima dela e depois estendendo-lhe um copo com água.

E o pedido de desculpas. Sincero e envergonhado.

Deve ser assim que os Malfoy se desculpam – pensou, embora algo lhe dissesse que isso não era uma característica que pudesse ser aplicada àquela família.

Lembrou do abraço apertado que lhe deu, não como um agradecimento, mas como o alívio depois do momento de desespero. Ela apenas quis ter certeza de que não estava sozinha naquele quarto de hotel.

Hermione sempre foi uma mulher muito racional. Era difícil vê-la acreditar em qualquer teoria. Precisava de provas. Sempre. E se ela pudesse tocar, sentir as provas com as próprias mãos, melhor!

Naquela tarde, ela precisou tocar em Malfoy para se certificar de que ele estava ali e não a deixaria sozinha. Não conteve o impulso e abraçou-o. Sentiu que o coração dele disparou, mas relacionou o fato ao susto que ele deve ter tomado com a atitude estranha dela.

Depois, deitada na cama, fechou os olhos para tentar dormir. Não conseguiu pegar no sono, mas por um breve momento conseguiu esquecer que estava naquele lugar repugnante. Imaginou-se em um lugar bem mais confortável, iluminado e agradável. Um lugar que fosse dela e de Draco.

Meu e de Rony - insistiu para si mesma, surpresa com o rumo que seus pensamentos tomavam.

No Departamento de Aurores, a jovem ainda questionava-se sobre essa confusão de sentimentos. Levantou os olhos da revista e olhou pela janela encantada do Ministério. Viu satisfeita que os primeiros raios de sol já coloriam o horizonte. Virou o rosto e ficou observando Malfoy ressonar no sofá. Encolhido como uma criança, ele respirava baixinho e parecia em paz.

Nada daquele ar arrogante de quando estava acordado. Nada de olhares entediados ou sorrisos sarcásticos. Nenhum sinal de ser um Malfoy. Naquele momento ele era apenas um belo rapaz loiro adormecido.

Hermione sentiu o próprio coração disparar, embora não soubesse, ou não quisesse admitir, o porquê.

Draco se mexeu no sofá e abriu os olhos, ainda sonolento. Hermione levantou apressada, derrubando a revista e ficando visivelmente envergonhada.

- O que foi, Granger? Envergonhada por dormir em serviço? – provocou Draco.

Ela ignorou o comentário e manteve-se de costas para o rapaz enquanto conjurava uma xícara de chá bem quente. Sentou-se novamente na poltrona confortável e começou a beber em silêncio.

- Já amanheceu! – comentou Draco – A que horas o sogrinho vem pro serviço?

- Daqui a meia hora ele já deve chegar – respondeu sem tirar os olhos do fundo da xícara.

Draco imitou a jovem e também conjurou uma xícara de chá. Sentou-se ao seu lado e bebeu em silêncio. Hermione depositou a xícara vazia sobre um móvel, ajeitou o cabelo e a capa e chamou por Draco.

Os dois desceram até o andar em que Arthur Weasley trabalhava e deram com o bruxo na porta do escritório.

- Hermione, que surpresa! O que faz aqui? – perguntou o Sr Weasley se adiantando e dando um beijo no rosto da moça.

- Estou a serviço do Departamento, Sr Weasley.

- E o Malfoy está com você? – perguntou intrigado.

- Sim, fomos designados para uma missão. Roubaram o Espelho de Ojesed e nós temos que descobrir quem foi e recuperá-lo.

Malfoy continuava um passo atrás de Hermione. Não fazia questão de cumprimentar Arthur e por isso mesmo se deixou ficar de fora da conversa. Apenas respondeu com um gesto de cabeça ao cumprimento do bruxo.

- Só quero ver a cara que o Rony vai fazer quando souber. Ele sempre achou que você sairia para missões junto com o Harry. Apesar de eu sempre explicar que o Harry está um ano atrás de você no curso. De qualquer forma, eu ouvi falar desse roubo. Agora, o que foi que veio fazer aqui nesta seção, exatamente?

- Vim falar exatamente com o senhor. Preciso da ficha policial deste homem aqui. Já fiz o requerimento com a Mildred e o formulário está aqui.

Ela entregou o papel ao bruxo, que sorriu satisfeito diante da eficácia de sua futura nora.

- Vou precisar de alguns minutinhos, Hermione. Você se importa em esperar na minha sala?

Ela fez que não e puxou Draco para acompanhá-la. A sala de Arthur Weasley era pequena, porém confortável. Havia um divã de veludo vermelho escuro próximo à janela, um cabideiro num canto da sala, uma mesa no centro com 3 cadeiras, sendo uma para Arthur e outras duas de frente à dele. Um abajur, penas, tinteiros e muitos pergaminhos entulhavam a mesa do bruxo, demonstrando que ele tinha muito trabalho a fazer. Arthur sentou-se e redigiu um bilhete, enviando-o em forma de aviãozinho encantado. Depois pegou o formulário entregue por Hermione, reescreveu algumas coisas nele e o lançou na lareira, jogando em seguida um pó azulado sobre a lenha, que crepitou vivamente.

- Aceitam um chá? Ou preferem comer alguma coisa? – perguntou Arthur.

- Obrigado! Já comemos. – respondeu Malfoy que havia se jogado no divã sem a menor cerimônia.

Não havia necessidade de ter boas maneiras com gente como os Weasley. Não eram mais pobretões, mas para os Malfoy, eles sempre seriam traidores do sangue.

Hermione lançou um olhar de censura para o companheiro e aceitou o chá que o Sr Weasley lhe oferecia. Enquanto esperavam, eles ficaram conversando sobre os acontecimentos na Toca, a primeira partida de Rony na etapa classificatória para a Copa do Mundo de Quadribol e sobre os preparativos para o casamento.

- Não tem porquê pensar nisso tão cedo, Sr Weasley – respondeu Hermione levemente corada e olhando discretamente para Draco que fechava a cara ainda mais. – Ainda quero terminar o curso de auror primeiro.

- Eu sei, Hermione. Mas é bom pensar em tudo com muita calma. Molly está radiante, pensando em como vai organizar a festa. Seria melhor se o Harry se decidisse logo também. Assim faríamos o casamento de vocês no mesmo dia, não seria uma grande idéia?

Hermione nem teve tempo de responder, e respirou aliviada por isso, porque a lareira crepitou de novo e um calhamaço de pergaminho dobrado e envelhecido saltou de lá para a mesa de Arthur.

- Ah, aqui está o que você me pediu. A ficha completa de Anthony Hilberg. Parece que o homem que vocês estão procurando não é boa coisa. Ele tem dezenas de passagens por roubo, extorsão, tráfico e até dois homicídios.

Draco aprumou-se no divã e passou a ouvir com atenção. Aquelas informações eram importantes e ele queria decorá-las para não dar motivos para a sangue-ruim implicar com ele.

- Estranho... – murmurou Arthur enquanto passava folha por folha às mãos de Hermione.

- O que é estranho? – perguntou Draco se levantando finalmente e aproximando-se por trás da jovem para observar as folhas que estavam nas mãos dela.

- Esse Hilberg teve seu nome ligado a um problema seríssimo há 6 anos. Um problema que envolveu a comercialização de artefatos de magia negra entre trouxas.

- Como assim? – perguntou Hermione lançando um olhar para Malfoy parado ao seu lado.

O rapaz correspondeu ao olhar da moça e ambos se voltaram para Arthur Weasley interessados.

- Ele foi preso por contrabando. Aparentemente roubava antigüidades. Mas pela ficha de registro dele no nosso departamento, essas antigüidades foram retiradas da Borgin & Burkes.

- Mas ele não é bruxo! A velhota lá de cima já verificou isso pra gente. Como pôde ter acesso à Travessa do Tranco? – indagou Draco visivelmente preocupado.

- Alguém o levou até lá – respondeu o Sr Weasley enrugando a testa enquanto lia o resto do último pergaminho.

Hermione e Draco olhavam apreensivos. Era melhor esperar o bruxo ler tudo e só então perguntar o que mais havia na documentação. Deveria ser algo muito sério, pois quando tirou os olhos do documento, Arthur Weasley estava ligeiramente pálido e sua mãe apertava o papel com mais força do que seria normal.

- Vocês não estão lidando com um simples roubo. A pessoa que fez isso sabia exatamente o que buscava. E eu engulo o meu guarda-chuva aberto se ele estivesse agindo por conta própria.

- Acha que ele roubou o espelho a mando de alguém? – perguntou Hermione já se colocando de pé.

Draco reparou que ela estava tensa. Apertava a varinha com a mão direita e os nós dos dedos já estavam brancos. Ele se aproximou da garota e tocou seu pulso. Ela estremeceu, encarou o rapaz e afrouxou a mão que apertava a varinha.

- Sim, é o que eu acho. Anthony Hilberg é primo de Francis Avery.

- Avery? Ele era um comensal, assim como meu pai. Vivia em minha casa e nunca nos mencionou um primo trouxa – falou Malfoy sem entender nada.

- Você acha mesmo que um comensal da morte ia assumir que tem um lado trouxa na família? Você mesmo se recusava a admitir que Tonks era sua prima! – retrucou Hermione.

A jovem estava realmente nervosa. Não que não se sentisse preparada para encarar uma missão de verdade. Ela já enfrentara coisas muito piores antes mesmo de concluir Hogwarts. Mas naquela época sempre se apoiava em Harry, Rony e até Gina. E naquele momento precisaria se apoiar em Malfoy. Um ex-comensal, que ainda tinha a Marca Negra tatuada na pele, embora a imagem estivesse já bastante apagada.

E se ele tiver uma “recaída”? E se colocar toda a missão a perder? – pensava a moça, encarando o companheiro.

- Você tem razão! – respondeu Malfoy indignado – Eu me recusava a admitir. Mas agora não me recuso mais. E seria bom você se lembrar que minha mãe agora mora com a tia Andrômeda!

Os olhos de Malfoy brilhavam com ódio da moça que o encarava como se o inimigo fosse ele. Achava que já tinha dado provas suficientes de que lado estava e não aceitaria que uma estúpida sangue-ruim duvidasse da sua dignidade.

O Sr Weasley interrompeu a discussão e falou:

- Vocês devem procurar o Alastor Moody agora mesmo! – sentenciou Arthur – Ele pode lhes dizer onde encontrar Hilberg.

Os dois encararam Arthur ao mesmo tempo e sem dizer uma palavra, em seguida saíram da sala para aparatar no corredor, em direção à casa de Alastor Moody.

Arthur Weasley ficou sentado em seu escritório, balançando a cabeça negativamente, enquanto reunia a papelada que Hermione fiscalizou minutos antes. Pensou na discussão dos dois aurores ali na sua frente. Eles brigavam do mesmo jeito que ela e seu filho, Rony, costumavam brigar na adolescência.

Se Arthur soubesse que as brigas de Hermione e Rony queriam dizer muito mais do que os insultos e a raiva que faiscava nos olhos de cada um, não teria gostado nem um pouco do que presenciou.

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Comentários (1)

  • Angel_Slytherin

    O Draco é tão lindo... e estou apaixonada pelo Draco da sua fic! ;) De verdade... hehehe. Parabéns! BeijosAngel_S

    2011-08-21
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