A ESCOLHA DO CHAPÉU
A porta abriu-se de súbito. E apareceu um bruxo comprido, com barba e cabelos acinzentados. Sua barba infinitamente longa dava-lhe um aspecto imperante. Usava vestes muito compridas num tom cinza escurecido, e um casacão da mesma cor.
Para completar havia um chapéu exageradamente pontudo e ainda apoiava-se em um cajado de madeira.
O bruxo avaliou-os rapidamente. Sua postura era severa, apesar do olhar doce e amigável.
— Alunos do primeiro ano, o Professor Aurélio Wentworth! — informou Hagrid.
— Obrigado, Hagrid. Acho que posso encarregar-me deles agora. — o bruxo deu um leve sorriso, cuidando sempre para não desviar-se de sua postura rígida.
Ele escancarou a porta. O salão era gigantesco, exatamente como todos haviam imaginado. As paredes de pedra estavam iluminadas com archotes flamejantes, o teto era alto demais para se ver, e um a um subiram a imponente escada de mármore em frente que levava aos andares superiores.
Eles acompanharam ao Professor Aurélio pelo piso de lajotas de pedra. Alvo ouviu o murmúrio de centenas de vozes que vinham de uma porta á direita, o restante da escola já devia estar reunido.
Mas o Professor Aurélio levou os alunos da primeira série a uma sala vazia ao lado do saguão. Eles se agruparam lá dentro, um pouco mais apertados do que o normal, olhando, nervosos, para os lados.
— Sejam Bem vindos à Hogwarts! — disse o Professor Aurélio, deixando um pequeno sorriso de satisfação escapar.
Alvo retribuiu o sorriso instantaneamente.
— O banquete de abertura do ano letivo começará daqui a pouco. Entretanto, antes de iniciarmos nosso estonteante banquete, vocês serão selecionados por casas. A seleção é uma cerimônia muito importante e divertida, uma vez que durante sua permanência em Hogwarts suas casas serão sua família. O que não os impede de estender essa família a colegas de outras casas, logicamente. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão o tempo livre na sala comunal. As quatro casas chamam-se Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina. Cada casa tem sua história honrosa e cada uma produziu bruxas e bruxos extraordinários. Bem, em vista dos últimos fatos históricos envolvendo algumas das casas em questão, sinto-me na obrigação de dizer-lhes que não é a casa que faz um aluno, muito menos diferencia bruxos de bons ou ruins. Mas sim os atos dos mesmos, independentemente de sua casa, condição social, racial ou sangue.
Gostaria de deixar isso claro. Afinal, ao longo desses maravilhosos anos que passaremos juntos, vocês descobrirão que diferenças não existem, de fato, pois somos todos indivíduos com os mesmos anseios, duvidas e necessidades. – ele fez uma pequena pausa para observar mais atentamente a reação de alguns alunos que pareciam não concordar muito com suas palavras. – Agora vem a parte mais instigante de toda essa história: Enquanto estiverem em Hogwarts os seus acertos renderão pontos para sua casa, enquanto os erros a farão perder. No fim do ano, a casa com o maior número de pontos receberá a Taça da Casa, uma grande honra. Espero que cada um de vocês seja motivo de orgulho para a casa a qual vier a pertencer. E que a competição siga de forma saudável, se me compreendem. – sorriu novamente, mas seu sorriso tinha aroma de advertência.
Alvo sentiu uma pequena preocupação surgir em seu âmago, algo estava errado. Mas o que poderia ser?
— A Cerimônia de Seleção vai se realizar dentro de alguns minutos na presença de toda a escola. Se me permitem uma sugestão, seria muito agradável se se arrumassem o melhor possível enquanto esperam.
Ele lançou um olhar sugestivo a um garoto com as roupas tortas e para Rosa que estava suja de chocolate.
Alvo tratou de passar a mão pelos cabelos e dar algumas batidinhas. Talvez pudesse tapear aquele desastre habitual. Mas se sua mãe não conseguia, o que o fazia pensar que ele conseguiria?
— Voltarei quando estivermos prontos para receber vocês — disse o Professor Aurélio. — Por favor, aguardem em silêncio.
E se retirou da sala. Alvo respirou fundo.
— Como deve ser essa tal seleção? — Crispo indagou, curioso.
— Algo fácil, provavelmente. — deduziu Rosa.
Alvo sentia sua preocupação crescer à medida que os segundos passavam, pouco a pouco foi transformando-se em desespero. Mas qual era a fonte de todo esse desespero?
— Arg, aquele escorpião idiota! — Rosa reclamou entre dentes.
— Por acaso está falando do Malfoy? — Crispo perguntou, correndo os olhos pela sala na busca do garoto.
Alvo virou-se prontamente para sua prima, curioso.
— Ele não para de olhar para cá! — a menina revoltou-se.
Alvo olhou para direção que sua prima olhava, e lá estava ele, Escórpio. O loiro olhava-os, enquanto cochichava com um menino ruivo e gordo.
Foi naquele instante, observando o garoto Malfoy que Alvo pode compreender a fonte de seu desespero. Sonserina.
O garoto não podia ir para Sonserina de jeito algum, aquele era seu pior temor.
Mostrou-se confiante durante toda a viajem de trem, mas aquilo fora nada mais que o efeito da boa noticia de seu pai. Mas se aquilo fosse só para acalmá-lo? As possibilidades de ir para a Sonserina eram reais e assustadoras.
Lembrou-se das palavras do Professor Aurélio, mas não conseguia encontrar conforto naquele papo de igualdade. Ainda sentia asco pelo passado inacreditavelmente duvidoso daquela casa.
Não poderia apagar facilmente as histórias que seu pai lhe contara de sua mente.
O medo estava ali e as terríveis possibilidades também. Agora, como lhe dar com eles?
Enquanto deixava seus anseios afogá-lo, aconteceu uma coisa que o fez pular bem uns trinta centímetros no ar, várias pessoas atrás dele gritaram.
A menina das bochechas vermelhas revirou os olhos, irritada e entediada com o comportamento de seus colegas.
Os fantasmas que pareciam discutir algo sobre o desastroso comportamento de Pirraça em inicio de anos letivos, pararam sua discussão para cumprimentar os alunos novos. Foram bastante educados, mas infelizmente não podia se dizer o mesmo dos novos alunos. Um ou três eram razoáveis.
A menina das bochechas vermelhas sorriu para eles e fez algo como que uma reverencia.
Quando os fantasmas começaram a dispersar, sumindo gradativamente, o Professor Aurélio estava de volta.
— Vamos crianças! — o bruxo estava radiante, seus olhos brilhavam — A Cerimônia de Seleção vai começar! — disse sem poder conter muito sua animação.
Um murmúrio nervoso arrastou-se pela sala.
— Vamos! Façam uma fila! — ordenou, retomando sua postura severa.
A fila formou-se, Alvo não conseguiu notar o critério que fora usado para a formação. E para ser sincero, ele não estava muito preocupado com isso. Suas preocupações eram outras.
Todos saíram da sala, tornaram a atravessar o saguão e as portas duplas que levavam ao Grande Salão.
O ambiente era esplêndido, não se comparava em nada com o lugar que montara em sua mente a partir da descrição de seus pais.
Era iluminado por milhares de velas que flutuavam no ar sobre quatro mesas compridas, onde os demais estudantes já se encontravam sentados. As mesas estavam postas com pratos e taças douradas. No outro extremo do salão havia mais uma mesa comprida em que se sentavam os professores.
O Professor Aurélio levou os alunos de primeiro ano até ali, de modo que eles pararam enfileirados diante dos outros, tendo os professores às suas costas.
Alvo estava sentindo um enjôo crescer dentro de si, talvez fosse só o medo da Sonserina.
Estava ficando incomodo demais, decidiu olhar para o alto, na tentativa de clarear as idéias. Reparou no teto aveludado e negro salpicado de estrelas.
Rosa não pode deixar essa passar:
— O céu não é de verdade, não passa de um feitiço. — observou feliz por ter mais informação que os demais.
— Deixe-me adivinhar? “Hogwarts, uma história”? — indagou Alvo, brincalhão. Ele sabia perfeitamente que Hermione dera a Rosa todos seus livros antigos e que a menina tratou de devorá-los durante as férias.
Ela deu um meio sorriso somente.
O Professor Aurélio colocou um banquinho de quatro pernas diante dos alunos do primeiro ano. Em cima do banquinho ele pôs um chapéu pontudo de bruxo. O chapéu era remendado esfiapado e sujíssimo.
Os três amigos se olharam, visivelmente confusos e curiosos.
Por alguns segundos fez-se um silêncio total. Então o chapéu se mexeu. Um rasgo junto à aba se abriu como uma boca e o chapéu começou a cantar:
Ah, você podem me achar pouco atraente,
Mas não me julguem só pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque sou o Chapéu Seletor de Hogwarts.
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
Que o Chapéu Seletor não consiga ver,
Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
Em que casa de Hogwarts deverão ficar
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
Casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue-frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinória dos demais,
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
Onde seus moradores são justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor,
Ou será a velha e sábia Corvinal
A casa dos que têm a mente sempre alerta,
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais,
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali estejam seus verdadeiros amigos,
Homens de astúcia que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não devem temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!
O salão inteiro prorrompeu em aplausos quando o chapéu acabou de cantar. Ele fez uma reverência para cada uma das quatro mesas e em seguida ficou muito quieto outra vez.
— Fascinante! — novamente a menina das bochechas.
— Diga-me uma coisa que ela não comente! — pediu Crispo, já entediado com a menina.
Alvo riu, mas seu sorriso foi todo amarelo. Havia uma dor na boca do estomago que estava começando a latejar, e isso significava reviravolta. Como Alvo detestava reviravoltas em seu estomago!
Sonserina! Sonserina! Sonserina! Sonserina! Se eu for pra Sonserina?
Pensava o garoto.
— Quando eu chamar seus nomes, vocês porão o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. Amélia Bonny!
Uma garota franzina e bastante branquinha saiu da fila cuidadosamente, pôs o chapéu, que lhe afundou direto até os olhos, e se sentou. Uma pausa momentânea...
— LUFA-LUFA! — anunciou o chapéu.
A mesa à direita deu vivas e bateu palmas quando Amélia foi se sentar à mesa da Lufa-Lufa.
— Arsênio Jacobs!
— CORVINAL!
Desta vez foi a segunda mesa à esquerda que aplaudiu.
— Alvo Severo Potter! — O Professor Aurélio anunciou. Fez-se silencio total no salão, todos pararam para ver o filho de Harry Potter. Algumas pessoas até mesmo levantaram um pouco para ver melhor. Até os professores ajeitaram-se nas cadeiras para observar o menino, que andava receoso até o banco. Ele pôs o chapéu, sentindo-se completamente enjoado.
— Hmmm! — exclamou o chapéu prendendo ainda mais a atenção de todos. Alvo tremeu no banco. — Já vi algo parecido antes... realmente interessante... complicado, obviamente! Complicado! — pensava em voz alta, o chapéu.
Alvo espremeu os olhos o máximo possível.
Sonserina! Sonserina! Sonserina! Sonserina! Se eu for pra Sonserina?
Pensou novamente.
— Será realmente brilhante! — respondeu o chapéu.
Alvo espremeu os olhos o máximo possível e lembrando das palavras de seu pai, começou a sussurrar, o mais baixo possível:
— Não! Por favor, senhor chapéu. Sonserina não, Sonserina não!
A diretora McGonagall ajeitou seus óculos pra certificar-se de que não vira errado.
— Sonserina não, hein? Realmente está disposto a perder tal oportunidade? — indagou o chapéu, em tom desafiador.
“Por favor!” Dessa vez o garoto somente pensou. Não estava mais em condições de falar, a essa altura seu estomago estava dançando com o fígado.
— Bem, se você tem certeza, ficará melhor na GRIFINÓRIA!
Alvo sentiu um peso sair das suas costas, seu estomago parou a dança e ele finalmente conseguiu respirar com certa facilidade. Ele tirou o chapéu e se encaminhou trêmulo para a mesa de Grifinória. Estava feliz como nunca, seu pai sentiria muito orgulho dele.
Aliás, ele estava certo, o chapéu realmente levava em conta suas decisões.
Havia muitos gritos de felicidade por todos os lados, principalmente vindos da mesa da Grifinória. Havia toda uma expectativa em volta de Alvo por ele ser tão fisicamente semelhante a Harry.
Ele sentou-se ao lado de Tiago que batia palmas todo orgulhoso.
— É isso aí maninho, honrando as cuecas de um verdadeiro Potter! — seu irmão mais velho brincou, bagunçando ainda mais seu cabelo desastroso.
Ele sorriu para o irmão. Os outros começaram a cumprimentá-lo, mas o menino não sabia ao certo o que dizer, sorria para todos, na tentativa de não parecer um completo retardado anti-social.
Mais três pessoas foram selecionadas para suas respectivas casas depois de Alvo.
— Crispo Aloysius Morgan!
O garoto deu um pequeno gritinho amedrontado, torcendo a cara de pavor. Ele caminhou o mais cuidadosamente que pode até o banco e pôs o chapéu tremendo muito.
— GRIFINÓRIA! — gritou o chapéu sem nem ao menos hesitar. Ele tremeu visivelmente com o berro do chapéu, tirou-o e saiu correndo para sua mesa em meio aos gritos comemorativos.
— Muito bem, Cris! — congratulou Alvo, quando o menino sentou-se ao seu lado.
Mais alguns outros alunos foram chamados depois de Crispo.
— Escórpio Hyperion Malfoy!
O menino que era a copia fiel do pai andou calado até o banco, sempre de cabeça baixa. Pôs o chapéu, que permaneceu calado por alguns segundos.
— SONSERINA!
Berrou o chapéu confirmando o que todos esperavam.
O menino foi para sua mesa, calado, sentou-se e ficou imóvel feito pedra observando os outros serem selecionados.
Os aplausos não foram lá essas coisas, alguns poucos alunos de cada casa aplaudiam sem muita animação, unicamente por educação.
Alvo era um deles. Tiago, porém, só observava. Nenhum aluno da Grifinória pronunciou-se.
— Felicity Faith Tingley!
Alvo abriu a boca e deixou escapar um sorriso, lembrando-se da menina esquisita.
— Ei, é a garota dos Gnôblins! — observou Crispo, cutucando o amigo.
A garota veio arrastando-se lentamente até o banco, parecia flutuar. Assim que pôs o chapéu deu um grande suspiro.
— Eu hein! — exclamou Tiago.
O chapéu gritou:
— CORVINAL!
E lá foi a menina para sua mesa. Os aplausos foram acompanhados de risos e comentários maldosos sobre a menina.
— Espere! Agora estou lembrada. O pai dela não é Gail Tingley? — Victorie questionou, falando pela primeira vez.
— O maluco que trabalha no Pasquim? Aquele que idolatra a família Lovegood?
— Então você se lembra, Tiago? Ele estava lá no último aniversário do Teddy, comentava sobre uma possível parceria com Luna e Rolf Scamander. — quis refrescar a memória do primo.
— Lembro sim, foi ele quem me ensinou a dança do Hipógrifo. — lembrou-se rindo.
— Ah, essa dança é histórica! Aliás, já está tudo planejado, Tiago! — lembrou-se Lucas, piscando marotamente para o amigo.
Victorie revirou os olhos para os dois.
Enquanto conversavam outros alunos foram sendo selecionados.
— Hadassah Satz Bohn!
A menina de bochechas extremamente vermelhas foi quase correndo, respirando como quem tenta acalmar-se até o banco e meteu o chapéu na cabeça, totalmente afobada.
— Hmmm, inteligência... coragem... oras, quantas qualidades em uma só pessoa! Mas também tem uma quota razoável de defeitos. Não ficaria nada mal na Corvinal, mas todo esse espírito aventureiro... acho melhor... GRIFINÓRIA!
Ela levantou-se contente demais, quase saiu andando com o chapéu na cabeça, mas lembrou-se de tirá-lo ao dar uns dois passos nervosos.
Os aplausos misturaram-se com risadas, mas nada tão grave quanto com a pobre Felicity.
Ela sentou-se ao lado de uma menina próxima a Crispo. Ele olhou-a decepcionado com a escolha do chapéu.
Alvo que notou a expressão do amigo, riu. Tiago parecia analisá-la.
A menina manteve-se calada, observando atentamente cada aluno e cada palavra do chapéu, parecia querer gravar na memória cada rosto, cada informação possível.
Houve mais algumas pessoas até que os pesadelos de Rosa começaram a ganhar forma:
— Irina Lavender Linton! —
Ela lançou um olhar receoso para Alvo.
— Não é a filha da Brown? — Tiago quis saber.
— É ela sim. Lembro perfeitamente de quando fomos buscar a Rosinha no acampamento. — Victorie dizia torcendo o nariz para a garota.
Rosa encolheu-se.
— Bem, melhor... LUFA-LUFA! — berrou o chapéu.
A menina de cabelos castanhos sentiu-se muito grata ao chapéu nada atraente.
— Já pode respirar. — Alvo sussurrou para ela, só de brincadeira.
— Bobo. — limitou-se a dizer, o alivio vazava de seus poros.
Cohen, Brookes, Smith, Adams, ... muitos alunos foram selecionados. Era impossível contar, e Alvo já havia desisto de prestar atenção fazia um bom tempo, decidira que seria muito mais interessante apresentar Crispo a Tiago, Victorie e Lucas.
Eles conversavam divertidamente, rindo das idiotices de Crispo e divertindo-se com a inevitável irritação de Rosa. Tudo o mais silenciosamente possível para não serem repreendidos.
Tudo estava indo muito bem, até que um nome ecoou pelo salão, chegando aos ouvidos de Alvo com tanta força e surpresa que ele próprio acreditava ser pura ilusão.
— Yuriko Chang! —
Uma garota com longos cabelos negros, olhos muito rasgados e uma franjinha extremamente mal feita, andou soberbamente até o banquinho, sentou-se, pôs o chapéu com a maior naturalidade do mundo, e sem nem ao menos hesitar a resposta veio, para a surpresa de muitos:
— SONSERINA! —
Puderam-se ouvir os aplausos surpresos dos alunos.
A menina caminhou calmamente até sua mesa, como se isso já fosse esperado.
— Eu não sabia que a ex do papai tinha tido filhos, muito menos que havia se casado! — exclamou Tiago, surpreso.
— Oras, talvez ela não tenha se casado. Sabemos perfeitamente que isso não é necessário para se fabricar um bebê. Aliás, a menina tem somente o sobrenome materno. — Lucas concluía pensativo.
Tiago concordou com a cabeça. Victorie virou-se para observar a menina.
— Será que ela parece com a mãe? — perguntou com aquele ar curioso inconfundível.
— Nunca vi nenhuma foto dela. — refletiu Alvo.
Nesse momento todos notaram que a seleção havia sido encerrada.
O professor Aurélio enrolou o pergaminho e recolheu o Chapéu Seletor.
— Agora vem a melhor parte! — animou-se a sempre faminta Rosa.
— Não conte com isso, Minerva adora um bom discurso. — Tiago disse meio jururu.
A menina tornou a encolher-se, apertou fortemente seu estomago. Como tinha fome!
— Agüente um pouco, até parece que tia Hermione não lhe da comida! — Alvo comentou.
— Esse é o problema. — respondeu meio cabisbaixa.
Fingindo ter compreendido, ele deu um pequeno meio sorriso a prima e voltou-se para a diretora McGonagall.
Ela já estava levantada, obviamente aguardava silencio total. Até mesmo das moscas.
Não sorriu, nem ao menos pareceu fazer menção a qualquer tipo de alegria por vê-los ali. Ajeitou novamente seus óculos, e deu uma boa olhada em todos os presentes.
— Bem vindos, queridos alunos. — parecia forçar-se a dizer aquilo — Após nosso deslumbrante banquete darei alguns avisos. Aproveitem, e cuidado com a sobremesa.
Ao dizer isso tornou a sentar-se em seu lugar, com certa dificuldade.
— Não me parece uma pessoa simpática, a diretora. — Rosa observou, decepcionada.
— Não diga isso, priminha. A diretora McGonagall é uma excelente pessoa, conheço-a des dos meus onze anos. Ela só está, bem, digamos, um pouco velha e cansada. Mas não há nada que seja dificil demais para ela, isso poderia afirmar de olhos fechados. — defendeu veementemente. Por um momento, Alvo pareceu ter visto uma baba escorrendo pelo canto da boca da menina.
Não tiveram tempo para falar mais nada. Os pratos estavam cheios de comida, eram tantos tipos diferente de comida que foi difícil enxergar com certa clareza o que era o que.
Os meninos atacaram a comida com brutalidade — não tanto quando Rosa, logicamente.
Mastigavam tudo que era possível, enquanto Sir Nicholas, o Nick Quase Sem Cabeça, dizia alguma coisa a respeito de ganhar o campeonato das casas. Tagarelava sem parar, o único ser que parecia prestar alguma atenção era a jovem Hadassah.
— Mas tenho absoluta e total certeza... — começou, mas foi interrompido pela menina.
— Na verdade, só o ‘certeza’ já estava bom. Bem, quer dizer, foi um pleonasmo... — tentou explicar-se, mas os outros a olhavam com uma interrogação no rosto que a deixou incrivelmente sem graça. — Prossiga, Sir Nicholas.
Isso pareceu animar o fantasma, alguém que não o chamava de Nick Quase Sem Cabeça.
— Bem, como ia dizendo... tenho certeza que a vitória está garantida a Grifinória esse ano, isso porque temos nada mais, nada menos do que Alvo Potter, o filho de Harry Potter conosco. — dizia o fantasma, repleto de orgulho e esperanças.
Alguns alunos, que começaram a prestar atenção assim que ouviram o nome Harry Potter, começaram a bater palminhas exageradas.
— Ah, o que eu perdi? Não estava aqui ano passado ou por caso sou filho do balconista da Dedos de Mel? — indignou-se Tiago, pelo fato da atenção ser toda voltada a Alvo, afinal, ele também era filho de Harry.
— Não quis dizer isso, senhor Potter. Na verdade, simplesmente estava sendo gentil com nosso novo brilhante aluno. — explicou-se, piorando ainda mais a situação.
— Ah, claro! Não me lembro de ter sido tão gentil assim comigo. Talvez não deva brilhar o suficiente. — zombou descaradamente.
— Tiago! — Victorie advertiu.
Lucas Jordan ria disfarçadamente.
Nick Quase Sem Cabeça fez uma cara nada amigável para o menino.
— Bem, isso não é exatamente relevante agora. Acho que o Alvo está grato pela sua gentileza, Sir Nick. — Rosa tentou acalmar os ânimos.
— Oh, está mesmo? Nossa, sinto-me honrado com isso, senhor Potter. — agradeceu radiante demais, para um fantasma.
— Não precisa se sentir honrado, não há por que. Sinceramente. — o menino tentou explicar.
— Mas que modesto! — exclamou feliz.
— Ele não está sendo modesto. — Rosa soltou.
— Mas o que...
— Sir Nick, talvez o senhor deva ir recepcionar tão calorosamente os outros alunos também. — sugeriu o menino, já um pouco estressado com o fantasma.
— Sim, sim. Certamente. — sorriu — Mas antes, deveria dizer-lhe que o senhor realmente se parece muito com seu pai.
Ao dizer isso, foi atender ao pedido do menino. Alvo ficou olhando-o completamente sem graça.
Ele sabia que parecia com Harry, isso era nítido. Só não sabia que existiriam pessoas tão loucas por causa disso.
— Esqueci de perguntar... — Crispo chamou a atenção de todos — Porque é Quase Sem Cabeça? — perguntou sem muito interesse, somente para tentar desviar a atenção de seu amigo.
— Você não vai querer saber. — disse Victorie, torcendo o nariz com nojo.
Depois que todos se empanturraram até não poder mais, as sobra desapareceram dos pratos, deixando-os completamente limpos como no inicio.
Então, surgiram as sobremesas. Tijolos de sorvete de todos os sabores que se possa imaginar, tortas de maças, tortinhas de caramelo, bombas de chocolate, roscas fritas com geléia, bolos de frutas com calda de vinho, morangos, gelatinas pudim de arroz...
E alguma coisa pulando dentro de um pote.
Rosa animou-se, estava muito curiosa em relação ao que tinha no pote. Que delicia saltitante poderia ser aquela?
Ela puxou-o para si e meteu a cara por cima para observar enquanto abria.
— Acho melhor ter cuidado. — advertiu Hadassah olhando-a como se a menina fizesse algo muito errado.
— Bobeira. — disse, ignorando o conselho da menina. Ela abriu de uma vez só e milhares de bolinhas saltitaram explodindo em sua cara.
Seu rosto ficou todo sujo de chocolate com hortelã e creme de morango.
Crispo ria da menina abertamente, Alvo não se agüentou por muito tempo e também começou a rir.
Todos a olhavam. A menina parecia que ia sair correndo a qualquer momento.
— Venha cá — mandou Victorie pegando a varinha — Tergeo!
Toda a sujeira do rosto de Rosa foi sugada pela varinha.
— Obrigada. — agradeceu timidamente. Alvo e Crispo continuavam a rir.
— Idiotas! — reclamou, irritada.
Enquanto comiam, os alunos conversavam contentes.
— Meus pais ficarão muito orgulhosos quando souberem que entrei para a Grifinória. Principalmente meu pai, tenho que avisá-lo que o chapéu não entrou em colapso. — disse Crispo orgulhoso.
— Não tinha entendido direito como funcionava esse chapéu, estava esperando um teste ou algo parecido. — Rosa falou.
— Ainda bem que ele não entrou em colapso. — Crispo insistia.
— Concordo, eu no lugar dele entraria. — brincou Alvo.
Enquanto isso, Tiago, Lino e Victorie conversavam sobre a tal surpresa dos dois amigos.
— Essas meninas ficaram perguntando de vocês dois a viajem toda, não sabia o que dizer. Estava ficando tonta já. — Victorie comentou, girando o corpo como se estivesse tonta.
— O que você disse a elas?
— Calma! Eu disse que vocês estavam preparando uma surpresinha.
— Ótimo priminha, está aprendendo! — Tiago bagunçou os cabelos perfeitos de Victorie, sorrindo todo feliz.
Do outro lado, Hadassah comia silenciosamente uma tortinha de caramelo.
A menina tentou falar com uma garota ao seu lado Virgine Seeley, mas foi completamente ignorada. Desistindo assim de falar com os outros, mantinha-se concentrada nos contornos de seus talheres.
— Tomara que as aulas comecem logo, quero tanto aprender Poções, e é claro, Quadribol. — disse Rosa, não tão certa quanto ao ultimo.
— Vocês terão aulas de vôo. — explicou Lucas.
— Dá no mesmo, é um passo pro jogo. — animou-se.
— E você, Alvo? — o irmão perguntou. Todos voltaram sua atenção para o garoto, vibrando de tanta expectativa.
— Não sei direito. — ele percebeu a surpresa e alarme que provocou na grande maioria — Bem, quer dizer.... ah, tenho um longo ano pela frente para pensar sobre isso.
Tentava tirar-se da reta. Fez tudo para fazer com que esquecessem essa história de Quadribol, mas estava bastante difícil.
Tiago foi sua salvação, todos desistiram — ou, pelo menos, pareciam ter desistido — disso quando o menino começou a contar uma história, auxiliado por Lucas.
Os dois contavam sobre uma pequena aventura que tiveram nas férias, na Toca, roubando alguns artefatos trouxas do avô de Tiago, Arthur Weasley, e fugindo posteriormente para um povoado trouxa, cheio de garotas.
Muitas risadas podiam ser ouvidas, todos queriam saber das aventuras dos dois.
Apesar de estarem somente no terceiro ano e serem muito novos, eram sem sombra de dúvida uns dos garotos mais populares da escola. Isso, porque eles foram os responsáveis pela primeira vitória da Grifinória em muitos anos.
Dês de que Harry Potter havia saído da escola que a casa não ganha a copa. Sonserina ganhara sempre, perdendo somente um ano para a Lufa-Lufa.
No ano anterior, quando os dois entraram para o time de Quadribol, mostraram-se muito hábeis quando juntos, praticamente invencíveis, ganhando todos os jogos.
Sem falar que o número de detenções que ambos detinham dês de seu primeiro ano em Hogwarts era assombroso. Tiago pretendia bater o recorde de seus tios Fred e Jorge.
Alvo iria agradecer-lhe eternamente pelo favor, mas sabia que o irmão não ajudaria sempre.
Decidiu que não prestaria atenção na história, que conhecia muito bem, por sinal.
O menino deu uma olhada na Mesa Principal. Hagrid estava passando a mão por sua barba, obviamente para limpar algo.
O Professor Aurélio e a Diretora Minerva conversavam muito entusiasmados. O Professor Longbottom acabara de chamar a atenção de Hagrid para amostrar-lhe algo que havia tirado do bolso.
Teve uma súbita necessidade de olhar para a mesa da Sonserina. Ele precisava ver Escórpio.
Será que ele havia se juntado ao menino gordo? Será que eles juntar-se-iam a outro brutamontes para infernizar a vida de Alvo, assim como o pai do menino fizera com o seu?
Se fosse isso a acontecer, ele precisava estar preparado. Decidiu olhar, que mal poderia haver?
Escórpio, porém, não parecia estar tramando nada, muito menos ter juntado-se a gordo algum.
Por outro lado, estava sentado, inacreditavelmente calado, encarando a mesa enquanto alguns garotos riam em seu ouvido.
Todos no salão calaram-se repentinamente. Alvo demorou alguns segundos para entender que a diretora McGonagall havia se levantado novamente.
— Agora que todos estão devidamente alimentados, devo dar-lhes alguns pequenos avisos. — fez uma curta pausa — É deliberadamente proibido que os alunos do primeiro ano passeiem pela floresta da propriedade. Ainda, é preciso dizer aos alunos antigos que, por conseguinte, é proibido o incentivo para qualquer andamento inapropriado dos mais novos.
Também é bom ressaltar que não é permitido fazer mágicas no corredor durante os intervalos das aulas, ainda mais quando estas são completamente grotescas. — ela lançava olhares esclarecedores a Tiago e Lucas, enquanto dava os avisos.
— A respeito do Quadribol, devem procurar Madame Hooch.
E, finalmente, gostaria de apresentar-lhes seu novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, nosso saudoso Professor Kirke.
Um homem muito velho, com uma barba branca como algodão e olhos muito profundos levantou-se cuidadosamente e deu um pequeno aceno sorridente aos alunos.
Ele foi recebido com calorosas palmas. Todos queriam agradar-lhe na esperança de amansá-lo. Tinham um longo histórico de detestáveis professores da matéria.
Muitos não compreendiam porque ainda ensinavam essa matéria, uma vez que Voldemort já estava morto. Mas McGonagall costumava dizer que era bom prevenir, pois nunca podia se saber se algum maluco ex-comensal que ficara por aí poderia querer vingar-se ou algo parecido.
— Agora, antes de irmos nos deitar, quero ouvi-los cantando o hino da escola!
Alvo virou-se para seu irmão.
— Hino? Faz tanto tempo que não cantamos! — parecia decepcionado.
E a escola melodiou em altos bramidos:
Hogwarts, Hogwarts, Hogwarts, Hogwarts,
Nos ensine algo por favor,
Quer sejamos velhos e calvos
Quer moços de pernas raladas,
Temos às cabeças precisadas
De idéias interessantes.
Pois estão ocas e cheias de ar,
Moscas mortas e fios de cotão.
Nos ensine o que vale a pena.
Faça o melhor, faremos o resto,
Estudaremos até o cérebro se desmanchar.
Da mesa da Grifinória, a única que parecia contente em cantar o hino era, mais uma vez, Hadassah Bohn.
Todos terminaram a música em tempos diferentes, como de costume.
Tiago e Lucas que cantavam fazendo expressões e gestos como aqueles cantores apaixonados que se empolgam em uma música, continuaram a cantar quando terminou.
Assim que terminaram, demorando-se exageradamente no “desmanchaaaaaar” começaram a aplaudir desesperadamente, fingindo chorar. Todos foram no embalo, aplaudindo mais racionalmente.
— A música — disse mais alto do que o normal, a diretora — é uma mágica que transcende todas que trazemos aqui! Dizia Alvo Dumbledore.
Ao dizer isso todos olharam para o pequeno Alvo Potter, mesmo que disfarçadamente.
— Agora, todos devemos dormir. — disse parecendo muito cansada.
Os alunos novos da Grifinória seguiram a monitora Alicia Howard tentando desviar do mundo de alunos que aglomerava-se no salão, até que conseguiram sair. Subiram as escadas de mármore.
Alvo estava sentindo-se desprovido de forças fisicas e mentais, quando finalmente chegaram ao sétimo andar.
— Ah, é mesmo. — Alicia parecia lembrar-se de algo — Vocês deves tomar cuidado com o Pirraça. Por sorte ele não se encontra no momento, mas fiquem avisados que ele irá atrás dos novos para recepcioná-los, portanto fujam de problemas, não dêem trela para ele. Qualquer coisa, procurem um responsável. Mas lembrem-se: Ele só escuta o Barão Sangrento.
Continuaram andando, enquanto a monitora dava mais algumas instruções.
— Chegamos.
Bem no finalzinho do corredor havia um retrato de uma mulher muito gorda vestida de rosa.
— Senha? — pediu ela.
— Fezes de dragão! — disse e o retrato se inclinou para frente revelando um buraco redondo na parede. Todos passaram pelo buraco.
— Isso só pode ser idéia do Professor Longbottom. — Alvo ouviu Tiago comentar a Lino enquanto entravam no aposento redondo cheio de poltronas fofas.
Alicia indicou às garotas a porta do seu dormitório e, aos meninos, a porta do deles.
— Bem, vou pro meu dormitório. Vemos-nos amanhã. — Rosa disse para Alvo e Crispo e sumiu no meio da multidão.
— Tchau! — Crispo acenava para o nada.
— Vamos. — Alvo disse e saiu puxando o amigo.
O garoto afundou-se na cama, completamente exausto.
— Acho que aquele chapéu pesou demais no meu cérebro. — disse Crispo, deitado na cama ao lado.
Alvo riu.
— Amanhã de manhã melhora... — ele fez uma pausa e cobriu-se com uma fina coberta — ... ou não. — brincou. Crispo riu.
— Noite, Alvo. — Crispo disse fechando os olhos.
— Noite, Cris. — respondeu, já de olhos fechados.
O sono veio calmo e generoso. Tudo estava bem, um belo começo.
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