Rony levou o cálice à boca...
CAPÍTULO 38 - Aquele depois de "Rony levou o cálice à boca..."
Rony tomou o primeiro gole da poção, sentindo o gosto adocicado e delicioso na sua boca. Saboreou-o e engoliu. Baixou o cálice, suspirando.
-Nossa... É uma delícia! – exclamou, olhando para Úrsula, que o fitava com um enorme sorriso, que passou despercebido por seus olhos.
-Claro que é – falou a garota, quase dando pulos de alegria. – Beba mais.
Rony retribuiu o sorriso e não pensou duas vezes: sorveu outros dois grandes goles do líquido rosado, saboreando-o. Suspirou com satisfação.
-Nossa. Depois você precisa me falar o nome dessa fruta... Deliciosa!
-Depois eu lhe conto – falou Úrsula. – Ainda deve ter suco no cálice... Pode beber a vontade, Rony. Veja como isso faz bem! Você está até com uma aparência melhor.
Rony virou o cálice inteiro na boca, terminando com a poção em grandes goles. Limpou a boca com a palma da mão e passou o cálice vazio para a garota.
-Delicioso – elogiou. – Deve ser uma delícia se estiver gelado... Pena que este estava morno.
Úrsula saiu de cima da mesa, ainda com o sorriso brilhando. Rony bebera toda a Poção do Amor. Finalmente, o amor entre eles nasceria – e com força total!
-Acho que nós dois já estamos em boas condições – falou Rony. – Podemos ir agora?
-Claro. Afinal, o que esse suco não faz? Nem lembro mais quais eram as minhas preocupações. Ele realmente é um excelente calmante.
Úrsula se levantou com o auxílio do garoto. Quando Rony ia levando a mão à maçaneta, sentiu uma reviravolta em seu estômago. Parou subitamente. No mesmo instante, um calor começou a subir pela garganta. No peito, Rony sentiu o coração bater com força, disparado.
-Ai... – disse, levando a mão ao peito e fazendo uma careta de dor. – Úrsula...
A garota aproximou-se de Rony e amparou-o, com alegria – a poção começava a surtir efeito.
-O que houve, Rony? – perguntou ela.
-Uma dor... no peito... Meu estômago está... Estou nauseado...
-Sente-se aqui – falou Úrsula, puxando uma das cadeiras da sala e ajeitando-a para que Rony sentasse. Ela o ajudou a sentar-se, já que o corpo do menino começava a cambalear.
-Será que foi por causa do suco? – indagou Rony, se contorcendo na cadeira.
-Acho que não – mentiu Úrsula, afagando os cabelos do garoto, que não esboçou reação.
Rony tinha uma mão sobre o peito e a outra sobre a região do estômago. Soltava murmúrios de dor, e o rosto se contorcia em expressões de sofrimento.
Isso é necessário, Rony. Necessário, querido. Necessário para que você me ame de verdade.
Os espasmos de Rony cessaram subitamente, e ele levantou o rosto para Úrsula. Estava pálido. O fundo branco dos olhos estava vermelho. As pálpebras de Rony estavam caídas. E, também subitamente, naquele rosto doente, ele sorriu para a garota. Não o sorriso normal de Rony Weasley, que ela vinha observando desde que chegara em Hogwarts. Era um sorriso diferente, sedutor. Os olhos vermelhos de Rony não saíam da direção dos de Úrsula. E eram, assim como o sorriso, sedutores, envolventes, como se a desejassem ardentemente.
Úrsula sentiu um ardor queimar-lhe a face. Rony parecia despi-la com os olhos... Aquele olhar fazia com que a garota se derretesse de paixão.
Rony foi se aproximando da garota, ainda com os olhos pregados nos dela. O sorriso envolvente se torceu ainda mais. Gingando o corpo, sem aparentar que estava passando mal até pouco tempo atrás, Rony a tomou nos braços subitamente, abraçando-a pela cintura. Úrsula quase desmaiou, ao se ver tão próxima do rosto de Rony.
Ele estendeu uma das mãos e acariciou o rosto dela lentamente. E falou, numa voz doce, apaixonada:
-Úrsula... Nossa... É incrível. Estou completamente apaixonado por você.
-Mesmo? – perguntou ela, passando os braços em torno do pescoço dele.
-Sim... De repente, percebi que preciso de você. Percebi o quanto a amo.
Úrsula sentia-se nas nuvens. Esperava ouvir aquelas palavras saindo daquela boca tão desejada fazia muito tempo. E seus sonhos e delírios estavam ali, se materializando, finalmente pulando do inconsciente para a realidade.
-Nossa... – continuou Rony, ainda com aquela voz diferente. – Só de olhar pra você meu coração dispara, fico até sem ar...
-Eu também, Rony. Sinto tanta coisa ao ficar perto de você – sussurrou Úrsula, afagando os cabelos dele, sentindo a maciez. Fechou os olhos por um momento, só sentindo como era tocar em seu amado.
-Agora que descobri esse sentimento, nunca mais quero me separar de você – falou Rony.
Úrsula abriu os olhos, e eles encontraram os penetrantes olhos de Rony, que começavam a perder a tonalidade vermelha, mas que, ainda assim, eram carregados de desejo.
-Claro, meu amor... – sussurrou ela, acariciando a face de Rony, uma face que, para ela, parecia ter sido esculpida com perfeição por um artista. – Nunca iremos nos separar, querido... Nunca.
Rony, com aquele olhar que derretia Úrsula, aproximou seu rosto ainda mais do dela e a beijou.
* * *
O crepúsculo se aproximava, tingindo o céu de várias tonalidades.
Observando o final da tarde, nos terrenos do castelo, estavam Christian, James e Padma Patil. Estavam próximos ao lago, e viam o céu colorido sendo refletido na água. Estavam todos em silêncio. As mortes de Parvati, na noite anterior, e a de Jennifer, naquela manhã, eram recentes demais para terem deixado apenas cicatrizes. A ferida ainda estava aberta dentro do peito.
O tédio era crescente. Cada um estava absorto nos próprios pensamentos. Desanimado, Christian apanhou uma das pedrinhas espalhadas entre a grama e a jogou dentro do lago, ouvindo o som que ela fazia ao se chocar contra a superfície da água.
-Que dia horrível – falou, suspirando profundamente.
-Nem me fale – murmurou Padma, pequeninas lágrimas rolando pelo rosto. – Poderia dizer que são dias horríveis. Ontem perdi minha irmã, quase morri junto com ela... Penso que, talvez, se eu tivesse morrido junto, podia ter sido melhor.
-Jennifer... – disse Christian, fitando o lago. – Jennifer e Laurie nos deixaram, James. Agora temos que ser fortes e nos unir. Nossa turma foi reduzida a nós dois... James?
O garoto continuou calado, olhando para o chão, com uma expressão séria. Christian precisou cutuca-lo para que ele atendesse seu chamado.
-Ah... Falou comigo, Chris? – perguntou James, desnorteado.
-Falei. Mas, pelo que percebi, você estava muito distraído. Está pensando no que?
James o olhou, misterioso.
-Eu... Só estou me sentindo mal por causa do que aconteceu com a Jennifer. Só isso... Vou dar uma volta para aliviar a tensão. Por acaso, algum de vocês sabe onde está o Potter?
Christian franziu a testa e olhou de relance para Padma, que parecia tão admirada quanto ele. Enquanto isso, James se levantava, limpando as vestes e retirando toda a poeira e flocos de neve que ainda permaneciam no solo.
-Alguém sabe onde está o Potter? – repetiu o garoto.
-Posso saber o que você quer com ele? – indagou Christian, ainda com a testa franzida. – Sim, porque não vejo nenhuma conexão entre Potter e o que aconteceu com Jennifer, tampouco com a sua caminhada para aliviar a tensão...
-Preciso perguntar umas coisas para ele... – James olhou meio irritado para Christian. – Como vai a investigação... Temos que saber, não é? Ou o próximo pode ser qualquer um! – finalizou.
Christian e Padma continuaram o observando.
-Até mais – falou James, afastando-se rapidamente. – Já que não podem, ou não querem, ajudar, eu me viro.
Padma e Christian mantiveram o silêncio de antes. Padma se perguntava o que o namorado pretendia dizer a Harry, se o que ele dissera era mesmo verdade.
Cruzando os dedos por debaixo das vestes, ela torcia para que não fosse nada relacionado à foto de sua mãe ao lado de Michael Evans.
* * *
Rony, após beijar o rosto de Úrsula, descia pelo pescoço da garota. Úrsula delirava, sorria, sentindo-se como num sonho.
-Beije meus lábios, meu amor – pediu, levantando o rosto de Rony carinhosamente.
Seus olhos se encontraram novamente. Rony finalmente ia ceder, quando...
-Eu acho que você ainda não devia fazer isso, Sr. Weasley – bradou a voz tranqüila, porém imperativa, de Alvo Dumbledore, que abrira a porta.
* * *
James mal entrou no castelo e avistou Harry, caminhando apressado ao lado de Gina, carregando, junto ao corpo, uma mochila.
-Potter! Potter! – chamou James, correndo até o garoto. Harry parou e olhou para o garoto, intrigado. James parecia nervoso e afobado. – Preciso muito falar com você – completou James, ao chegar junto a Harry.
-Claro... É algo a ver com o caso dos....?
-Isso. É uma coisa que tanto pode não ter importância alguma, quanto pode ser de grande importância.
Harry olhou ao redor. O Saguão de Entrada estava quase deserto. Não havia ninguém por perto.
-Pode falar, James.
-Na verdade, faz um tempinho que eu sei disso... Mas não queria contar porque podia atingir uma pessoa que...
-Não precisa se explicar, James – interrompeu-o Harry, com um leve sorriso para acalmar o garoto. – Não importa porque você ainda não nos contou. Guarde para si os seus motivos. Agora, por favor, conte o que sabe...
-Como já disse, pode ser até uma coisa banal, mas... Tem a ver com uma foto.
-Uma foto? – perguntou Harry intrigado.
-Bom, aí vai: um dia, Padma me contou que, numa certa ocasião, vira uma foto de sua mãe ao lado de um jovem. Na foto estavam escritos os nomes Michael e Ludmylla, que é a mãe dela. Ela desconfiou, resolveu averiguar e encontrou, no fundo falso de uma gaveta, diversas cartas e declarações de amor para Ludmylla, assinadas por Michael Evans.
James despejara tudo isso rapidamente. O choque da informação abalou Harry e Gina.
-Você viu a foto? – indagou Harry, ao recuperar o fôlego.
-Nesse primeiro dia não, mas logo depois ela me mostrou. Quando ela achou o fundo falso, ela tirou a foto da gaveta da mãe, com raiva. Raiva por ela ter aquele fundo falso na gaveta com uma foto de outro homem que não o pai dela. Ela me mostrou e... Realmente, havia um casal na foto. Ao fundo, um belo jardim, todo florido, e com um riacho cortando-o. Uma bela paisagem para dois jovens apaixonados.
-Eu... Posso ver a foto? – perguntou Harry, ansiosamente.
-É difícil... Só se Padma permitisse. Afinal, está nas coisas dela e...
-Michael Evans numa foto! Numa foto! – exclamou Harry, entusiasmado, olhando para Gina.
-Pois é – continuou James. – Eu vi. Pra falar a verdade, nem acreditava nessa lenda. Christian sempre teimou que ele existia, e eu nunca acreditei. Mas depois da história de Padma, e difícil de não acreditar...
-James... Posso te pedir um favor?
-Claro Harry.
-Tente convencer Padma a me mostrar a foto. Por favor. Sei que será difícil, mas tente... Pode conter algo que nos interesse lá.
-Realmente, vai ser muito difícil conseguir convence-la... Pode até ser que ela brigue se eu insistir em pegar a foto. Mas vou tentar. Qualquer coisa, na hora do jantar eu procuro por vocês.
James piscou para os dois, atravessou as portas e foi para o jardim. Gina e Harry continuaram a caminhar até a sala onde deixaram Rony conversando com Úrsula.
-Acha que essa foto realmente pode nos ajudar? – perguntou Gina.
-Acho apenas que será interessante... Ver o rosto do desgraçado. Ver o verdadeiro rosto de Michael Evans... Só por isso. Acho que não terá muita utilidade, mas não custa nada vermos a foto...
-Pode custar o namoro do menino com a Padma...
Harry olhou para Gina.
-Acha com ela poderia brigar com ele por causa disso? Para evitar que ele nos mostre a foto.
-Se esqueceu do que ele disse? Que seria difícil convence-la? Só podemos concluir que Padma não gosta muito de mostrar a foto por aí...
-Será que algo nessa foto pode compromete-la? – perguntou Harry.
-Talvez... Padma é nossa principal suspeita, chegou a pagar para a falecida Laurie não revelar mais que a vira saindo com a faca na noite da morte de Dino Thomas, esqueceu?
-É verdade – concordou Harry. Parou de falar por um momento, revirando os arquivos de sua memória. Por fim, disse: - Essa morte do Dino foi a mais interessante, pelo interrogatório que fizemos sobre ela... E é a noite em que temos provas concretas de que vários suspeitos andaram perambulando pela escola...
-Faz um tempo que isso aconteceu... Acha que ainda pode nos ajudar...
-Algo me diz que sim – falou Harry. – Outra coisa: Dino não era puro-sangue. Lembro-me que até pôster de time de futebol, o esporte dos trouxas – acrescentou Harry, ao ver a dúvida no rosto de Gina – ele tinha... Talvez seja por isso que nenhum dos pais dele esteja na lista dos integrantes dos Jovens Anti-Trevas. Você, que saiu com ele por um tempo, se lembra se ele realmente não era puro-sangue?
-Não fiquei com o Dino por muito tempo, e, quando estávamos juntos, assuntos sobre família não eram a nossa prioridade...
-Agora, voltando a essa foto... E esse tal jardim? Onde será?
-Vai saber... – disse Gina, sacudindo os ombros.
* * *
-Professor Dumbledore! – gritou Úrsula, assustada, afastando-se de Rony.
O diretor fechou a porta atrás de si. Ao seu lado, estava o Professor Salles, que trazia um pequenino frasco na mão, e estava com uma expressão nada amigável, com suas enormes fitas douradas esvoaçando ainda mais. Ambos a olhavam com censura e um certo furor.
Rony, ao contrário de Úrsula, não esboçou nenhuma reação ante a chegada do diretor e do professor. Continuou com aquele olhar paranóico em cima de Úrsula, a examinando atentamente, o sorriso ainda torcido nos lábios.
-Agora acabou, Srta Hubbard – falou Dumbledore, numa voz que era calma e ríspida ao mesmo tempo. – Está na hora de toda a verdade surgir.
-Verdade? – perguntou Úrsula, sem compreender. O que o diretor queria dizer com aquilo?
Naquele momento, Harry e Gina chegaram, levando um susto ao encontrarem Dumbledore e o professor de Poções na sala onde haviam deixado Rony e Úrsula a sós.
-O que houve? – indagou Harry, ligeiramente assustado. A presença do diretor sempre sugeria algo importante.
-Muito bem. Chegaram as duas pessoas que faltavam para que pudéssemos começar a desmascarar Úrsula Hubbard – disse o diretor, encarando a garota apavorada.
-Fechem a porta – pediu o Professor Salles a Harry e Gina, que com as perguntas “desmascarar Úrsula Hubbard? O que ele quer dizer com isso?”, pipocando na mente, entraram e a fecharam atrás de si.
Um pequeno momento de silêncio pairou na sala. Harry e Gina foram para um canto, próximos a Rony. Harry olhou bem para o garoto e estranhou a expressão do amigo. Antes que perguntasse por que Rony estava daquele jeito, o Professor Salles respondeu:
-Ele está sob efeito de uma poção.
Úrsula tirou os olhos arregalados do diretor e os virou para o professor.
-Como você sabe?
-Não nasci ontem, Srta. Hubbard. Nunca subestime a inteligência de uma pessoa mais velha e mais culta do que você.
-Mais culta? – perguntou Úrsula, em voz alta, os olhos vidrados o fitando com um misto de fúria e loucura. – Eu sou muito mais inteligente do que você!
-Senhor – corrigiu-a Dumbledore.
-POUCO ME IMPORTA! – vociferou Úrsula, sobressaltando a todos da sala, menos a quem aquele brado se dirigia, a Dumbledore. Ela olhou novamente para o professor de Poções, que, neste instante, estava boquiaberto pelo fato de a garota ter gritado com um dos maiores bruxos de todos os tempos, sem temor algum. – A única coisa importante aqui é que eu fui mais inteligente do que você, Professor Salles! Muito mais! Sabe por que? Porque, mesmo você se recusando a me ajudar, eu fui atrás da receita da poção na sua sala. Isso mesmo!
-Que tipo de poção foi essa? – perguntou Harry, preocupado e confuso pelo comportamento estranho de Úrsula, que diferia muito do jeito dócil da jovem.
-Uma poção reversível, Harry – respondeu o professor. – Logo seu amigo...
-REVERSÍVEL? – gritou Úrsula. – SERÁ QUE O SENHOR NÃO OUVIU DIREITO? EU PREPAREI A POÇÃO DO AMOR! ELA É UMA POÇÃO PROIBIDA. IRREVERSÍVEL! NADA TIRARÁ O EFEITO DELA. RONY TOMOU A POÇÃO DO AMOR!
Harry e Gina ficaram boquiabertos. Úrsula estava transformada.
-A Poção do Amor realmente é irreversível – falou Salles para Úrsula. – Acontece que...
-ENTÃO! ELA É IRREVERSÍVEL! – interrompeu a garota, voltando a vociferar. – Não existe forma alguma de tirar o efeito dela de dentro do Rony. Nenhum de vocês poderá liberta-lo. Agora ele está preso a mim pela vida inteira. A poção criou correntes, sim, vocês não as podem ver, mas são correntes fortes que aprisionaram o coração dele, que, a partir de agora, só bate para mim – Úrsula falava sem parar, passando os olhos por todos os rostos. – Por entre as veias dele, corre a poção. Ela está dentro dele. Ele é meu por toda a vida!
Pegando todos de surpresa, Gina não se conteve e foi até a garota. Úrsula, com os olhos marejados de lágrimas e o corpo trêmulo, olhou para ela.
-Úrsula... Você gosta do Rony?
-Muito, Gina. Muito – respondeu ela, subitamente baixando o tom. – Infelizmente eu tive que recorrer a isso para conquista-lo. Eu o amo muito. Muito.
Gina engoliu em seco. Os olhos de Úrsula possuíam um brilho vidrado que causava medo na garota. -Mas agora, não precisarei fazer mais nada! – continuou Úrsula. – Tudo acabou. Agora ele me ama também, e ficaremos juntos para sempre.
-Eu acho que não, Srta Hubbard – disse a voz do Professor Salles, tranqüilamente.
Úrsula voltou-se para ele, os olhos voltando a esbugalhar-se, a expressão voltando para a fúria enlouquecida de antes.
-Você não deu a Poção do Amor para o Rony – terminou o professor, no mesmo tom calmo.
-DEI SIM! – gritou a garota. – Rony tomou tudo, até a última gota. Tudo! E tomou com gosto, se quer saber! Olhe para o cálice! – ela apontou para o objeto que ainda estava sobre a mesa. – Vazio! Completamente vazio!
-Você não devia ter subestimado a minha inteligência, Úrsula – disse o professor Salles, com um discreto sorriso nos lábios. Já estava cheio da ignorância da garota. – Eu imaginei que você iria atrás da poção por conta própria. Antes de você ir até a minha sala, fui antes, durante aquele meio tempo. Você não estranhou de achar o livro bem em cima da mesa?
Úrsula o encarava em silêncio. Seu sorriso ia diminuindo a cada palavra do professor.
-Eu deixei o livro lá, e alterei a receita da Poção do Amor.
O sorriso de Úrsula desapareceu totalmente. O do professor Salles aumentou, com triunfo.
-Você não preparou a Poção do Amor, Úrsula. Você preparou uma fraca e estúpida Poção do Desejo, uma versão alterada, que tem a duração de apenas alguns minutos. Será que você ainda não percebeu que ele não tira os olhos de você?
Úrsula encarou Rony, que, realmente, ainda a olhava com a mesma cara de bobo.
-Ele está assim porque está apaixonado por mim – replicou ela, voltando-se novamente para o professor. – Completamente apaixonado.
-Não, Úrsula. Ele não está apaixonado por você. Já lhe disse. A receita que você preparou estava errada. O que ele está sentindo por você é apenas um desejo repentino, que logo desaparecerá. Desejo de corpo, não de coração. Ainda não é amor. A Poção do Desejo tem uma receita muito parecida com a Poção do Amor, exceto por um ingrediente. Retirei um dos ingredientes da receita verdadeira da Poção do Amor naquele livro. Ficou faltando uma colher de licor de cereja.
-Licor? – perguntou Úrsula, desnorteada.
-Sim, licor de cereja. Eu tinha na minha sala, se quer saber. Ele é essencial para que a poção seja concluída. Sem ele, a poção vira a do Desejo, bem fraca, aliás, pois a verdadeira necessita de mais algumas gotas de chocolate líquido e, aí sim, Rony poderia ser aprisionado pelo desejo também.
Úrsula esmurrou a carteira mais próxima. Deu um grito que pareceu vir do fundo da alma. Depois, com novas lágrimas nos olhos, encarou o professor com uma fúria crescente.
-VOCÊ ESTRAGOU TUDO!
-Eu não estraguei quase nada, Úrsula – respondeu o Professor Salles, que embora continuasse falando tranqüilamente, não escondia o sorriso de triunfo ao perceber o pavor da garota.
-Como quase nada? – indagou Úrsula. – Meu plano foi todo por água abaixo por causa de você! RONY, FINALMENTE, IA SER MEU!
Ela apoiou uma das mãos na carteira, baixou o rosto e começou a chorar compulsivamente.
Harry e Gina, ainda boquiabertos, se entreolhavam. Era inacreditável. Ali estava uma Úrsula completamente diferente do que eles conheciam. Uma Úrsula que beirava a loucura – isso se não já a tivesse alcançado. Uma Úrsula descontrolada, sem escrúpulos, que berrava coisas para o Professor Salles e para o diretor da escola como se gritasse com um elfo doméstico insignificante. E aquela Úrsula parecia perdidamente apaixonada por Rony – fato nunca percebido por qualquer um dos dois. Pelo que entenderam, Úrsula queria conquistar Rony através da magia. Mas... Desde quando Úrsula amava Rony? Desde quando a garota dócil, amiga, sempre disposta a ajudar, com seu sorriso brilhante e seus belos cachos dourados, era capaz de violar as leis do mundo mágico? Harry e Gina realmente não entendiam...
-Realmente, não estraguei quase nada, Úrsula – falou o professor Salles.
-Ele tem razão, srta – disse Dumbledore, finalmente se manifestando após um longo período de silêncio, observando o que ocorria na sala. – Porque eu sei muito bem que existe outra coisa terrível que envolve a sua pessoa.
Úrsula levantou lentamente a cabeça e olhou, com os olhos já inchados, para o diretor. Os olhos azuis cintilavam por trás dos óculos de meia-lua.
-Pois é, Srta Hubbard. Como disse o Sr Salles, nunca subestime a inteligência de ninguém.
Dumbledore suspirou e soltou a frase que Úrsula menos desejava ouvir:
-Eu sei de tudo.
Harry percebeu que Úrsula perdera toda a cor do rosto ao ouvir aquilo, tornando-se quase transparente. O tremor do corpo da garota cresceu.
-Não... Não tem como... – gaguejou ela. – Como você pode...?
-Certamente, há coisas no ser humano que você desconhece. Quando você apareceu em minha sala, dizendo que Hermione Granger havia lhe ferido, algo na sua expressão me inquietou. Eu vi a mentira em seus olhos. Sua encenação pode ser perfeita para alguns, mas não para mim. Não compare o seu conhecimento sobre a natureza humana que adquiriu em seus poucos anos com o mais de um século que eu tenho. Meus olhos cansados já viram muita coisa, Úrsula. Conheço o ser humano como ninguém, tanto bruxos como trouxas. Por mais aptidão que uma pessoa possa ter para a mentira, nunca conseguirá enganar a todos, principalmente os velhos. Conseguimos captar muita coisa.
-Você também nunca me enganou, garota – disse o professor de Poções. – Antes de você entrar na sala do diretor, vi Harry, Rony e Hermione entrando lá e algo me disse que aquela garota não a tinha machucado. Fui alertar o Professor Dumbledore, após seu discurso dramático, mas ele também já estava intrigado.
Harry lembrou-se da expressão enigmática do professor de Poções ao vê-los naquela noite. E o professor havia falado: “Não acredito”.
-Ainda não compreendi como você pôde tramar tudo... – continuou o diretor. – E, talvez, não exista apenas a mentira de que Hermione a feriu naquele dia. Talvez eu não saiba tudo como disse. Pelo menos, naquele dia, tenho quase certeza que Hermione não lhe feriu. Mas agora poderei confirmar, Srta Hubbard. Será somente por poucos segundos. Relutei em utilizar isso, e, por meu receio, as coisas chegaram a um ponto crítico. Agora concluí que no seu caso, um terrível caso se me permite, será necessário – Dumbledore virou-se para o Professor Salles e estendeu a mão: - Por favor.
A sala ficou em silêncio enquanto Dumbledore apanhava o frasco que Salles trazia nas mãos. O líquido era transparente – e Harry reconheceu-o na hora.
-Veritaserum – murmurou para si mesmo.
-EU NÃO VOU TOMAR ESSA PORCARIA! – berrou Úrsula, se descontrolando e empurrando uma carteira contra a parede, quase acertando Harry e Gina.
Sua mão ia entrando dentro das vestes para apanhar a varinha, mas Dumbledore a impediu. A varinha flutuou até as mãos do diretor. Ele a passou para Salles, que a colocou sobre a mesa, bem afastada de Úrsula.
Dumbledore, com um tom calmo de voz, aproximou-se lentamente de Úrsula.
-Não vai doer nada... Espero que aceite a poção assim, sem eu força-la. Será melhor.
Úrsula pareceu hesitar. Mas, na sua loucura, deu uns risinhos, e permitiu que o diretor depositasse algumas gotas na sua boca.
Dumbledore apontou a varinha para ela e disse: Enervate! Assim que o feitiço a atingiu, a face de Úrsula tornou-se vazia.
Rony despertou do efeito da poção no mesmo instante. Estava confuso. Virou-se para Harry para perguntar o que acontecia, mas Harry apenas indicou Úrsula com o dedo para o amigo. Rony ficou quieto e observou, assim como os outros:
-Úrsula – começou Dumbledore, olhando bem nos olhos da garota, que estavam vagos. – Pode me ouvir?
-Sim – respondeu Úrsula, baixinho.
-Responda para mim: Hermione realmente a cortou com a faca, naquele dia?
-Não.
Harry e Gina olhavam para Úrsula com um terrível ódio. Então, ela não fora atacada por Hermione. Mione havia pagado por algo que não cometera, por culpa de Úrsula.
-E o corte que você tinha no braço? – perguntou o diretor.
-Eu cortei meu próprio braço – murmurou Úrsula.
Harry e Gina estavam pasmos com o que ouviam. Jamais pensaram que alguém pudesse ter tamanho sangue-frio para ferir a si próprio, somente para culpar o outro.
-Por que você fez isso? – indagou Dumbledore.
-Para culpa-la – respondeu Úrsula, simplesmente.
-Me responda: por que você odeia tanto a Hermione?
-Porque ela gosta do Rony. Isso não está certo...
-Eu posso saber por que não está certo?
-Porque Rony é meu. Eu amo o Rony.
O silêncio na sala era total. Todos estavam concentrados em Úrsula, que revelava seus planos, obedecendo a Dumbledore, respondendo tudo.
Rony sentia o estômago revirar-se.
-Desde quando você o ama?
-Desde que entrei aqui na escola, há quatro anos. Eu o amo muito. Ele vai ser meu. Ele precisa ser meu.
Dumbledore conjurou cordas e amarrou Úrsula com elas. Os braços da garota estavam imobilizados. E a despertou com um estalar de dedos na frente dos olhos da jovem.
Úrsula despertou, chorando sem parar, e olhou para Rony, desesperada. Foi até ele. Com certa dificuldade, encostou o rosto no peito dele.
-Não acredite nele, querido. É tudo mentira... Eu não fiz nada disso... Nadinha...
-Me largue! – falou Rony, ríspido, empurrando Úrsula, que tinha o corpo tão molenga pelos braços imobilizados que tropeçou e caiu no chão. Os olhos encharcados de fúria de Rony a encaravam. – Você acabou de confessar tudo! Você é suja. Imprestável. Cortou a si própria e fez Hermione ficar presa em Azkaban, naquela prisão horrível. Você destruiu a vida da Mione através da sua mentira!
-Rony... entenda... – dizia Úrsula, entre soluços, a voz saindo entrecortada por eles. – Foi tudo... Por amor... Por causa... Do amor que... Sinto por você...
-Isso que você sente não se chama amor! – gritou Rony, as lágrimas agora saindo dos próprios olhos. – Isso é doença. Você é louca, Úrsula. Seu amor é nocivo, perigoso. Será que não percebe o quanto prejudicou a Hermione?
-Foi por você... Tudo por você...
-TUDO POR MIM? – vociferou Rony, os cabelos se despenteando por causa dos movimentos bruscos de seu corpo. Começou a caminhar de um lado para outro da sala, descontrolado. Parou novamente, e olhou para Úrsula, que continuava esparramada no chão. – Você é um lixo garota. Merece ficar assim, jogada no chão, feito um trapo velho. Um trapo... É isso que você é. Um trapo nojento! Agora, explique isso... Se você diz TUDO POR VOCÊ, quer dizer que existem mais coisas, não é? EXISTEM MAIS COISAS, ÚRSULA? – berrou ele.
A porta da sala se abriu, e a voz de Hermione respondeu:
-Existem muito mais coisas sobre essa garota, Rony, que todos vocês precisam saber.
O rosto de Rony iluminou-se ao ver Hermione. Sem pestanejar, o garoto correu até ela e a abraçou. Um abraço apertado, apaixonado. Uma paixão verdadeira, que poção alguma podia imitar. Harry também sorriu, feliz, ao ver que a garota estava sã e salva. De fato, Hermione parecia muito bem, embora sua roupa estivesse rasgada em muitos pontos. Seu rosto estava sujo de terra, e havia alguns cortes no rosto e nos braços. O sangue já tinha coagulado, deixando apenas as marcas do que Hermione devia ter passado após a fuga em Azkaban.
Rony a soltou e a examinou de alto a baixo. Pareceu ter tirado as mesmas conclusões que Harry, pois, após essa avaliação, comentou com a garota:
-Você parece ter passado por maus bocados.
-É – falou Mione, depois olhando para Harry. – Meu amigo... Será que você não sentiu saudade de mim? Pois eu senti tanto a sua falta.
A garota abriu os braços e Harry foi de encontro a ela. Os dois se abraçaram forte. Harry se esforçou para conter as lágrimas que se formavam em seus olhos.
-Claro que senti, Mione – falou ele, ainda abraçado à amiga. – Estava tão preocupado com você.
Os dois se separaram, mas Harry continuou olhando para Hermione, como se o contato físico não fosse suficiente para que ele acreditasse que ela estava ali.
Hermione quebrou o encanto da sua chegada, indo até Dumbledore, com o olhar atônito.
-Professor... É uma emergência. Descobri certas coisas enquanto estava em Azkaban. Coisas terríveis. Por isso precisei fugir junto com os Comensais.
-Tem algo a ver com a fuga em massa, suponho – disse Dumbledore.
-Sim. Voldemort juntou o resto dos seus servos e planeja um ataque para amanhã.
-Para você chegar tão rápido aqui, creio que eles estejam bem perto...
-Sim, estão. O ataque em Hogsmeade vai acontecer amanhã. Os Comensais já estão se preparando. Após a meia-noite, o ataque começará!
Dumbledore suspirou, virando-se em seguida para o Professor Salles.
-Por favor, avise Minerva e peça para que ela se comunique imediatamente com a guarda de Hogsmeade, principalmente com Moody. Ele saberá o que fazer. Temos tempo de sobra antes da meia-noite, por isso peça que ela avise às autoridades para que a população evacue a área sem pânico.
Salles confirmou com a cabeça. Antes de sair, porém, olhou fixamente para Harry, e murmurou:
-Sobre o caso dos assassinatos... Tenha cuidado, Potter. Lembre-se da Poção da Ilusão que ensinei para vocês.
E saiu da sala, apressado. Harry não compreendeu porque o professor de Poções resolvera ajuda-lo bem naquele momento, tampouco o que ele queria dizer com aquilo. Ao bater da porta, Hermione começou a falar:
-Acho que os artifícios que eu usei para sair de Azkaban no meio dos Comensais vocês já sabem, não é? A Professora Minerva que me trouxe até aqui, e me disse que vocês já sabiam sobre toda a fuga. Bem, é uma longa história...
-Estamos com tempo escasso, depois você poderá nos contar os detalhes, pois quero resolver o caso de Úrsula agora – falou o diretor, decidido. – Pensei que já estava resolvido. Sob efeito da Poção da Verdade ela contou que armou para que todos pensassem que você a havia ferido. Mas pensei que os feitos dela se limitavam a este... Tem mais?
O olhar de Hermione se desviou para Úrsula. Os olhos de Mione faiscaram ao encarar a garota, que ainda estava estatelada no chão.
-Muito mais, professor. Agora é hora de desmascarar uma cobra. Aliás, tenho pena das cobras. Elas não merecem ser comparadas a Úrsula Hubbard.
Dumbledore adiantou-se até Hermione.
-Por favor, Srta Granger, creio que você é a pessoa que mais pode nos revelar sobre ela. Conte-nos tudo o que sabe.
-Sim, sei de muita coisa, pois ela mesma confessou – falou Hermione. – Mas, se me permite, professor, eu acho que estão faltando mais algumas pessoas aqui para essa reunião, ou, para eu ser mais detalhada, estão faltando duas.
-Quem? – perguntou Rony, intrometendo-se.
-Draco Malfoy e Kevin Wallace.
Gina sentiu uma pontada ante a menção do nome de Draco. Ele estava envolvido nas tramóias de Úrsula? Ela não podia acreditar...
-Tudo bem – disse o diretor. – Sr Weasley, você pode ir rapidamente atrás desses dois?
* * *
Rony correu até o Salão Principal, seguindo a intuição de que, pela proximidade do horário do jantar, Draco e Kevin poderiam estar por ali.
Deu sorte, e os encontrou, junto com Goyle.
Como Rony já esperava, Draco olhou-o de esguelha, estranhando sua presença ali. Porém, surpreendentemente, ele não lhe tratou mal. Ao contrário: perguntou, educadamente, o que Rony queria com ele.
-Na verdade, Malfoy, não sou eu quem quer falar com você, e sim o diretor.
Draco virou-se espantado para Kevin e Goyle.
-Aliás, você também, Wallace – completou Rony, ao perceber a apreensão de Kevin. – E acho melhor vocês se apressarem. Ele tem pressa em falar com vocês.
Imediatamente, Draco e Kevin se levantaram e acompanharam Rony até a sala onde o diretor e os outros os aguardavam.
-Sobre o que o diretor quer falar? – perguntou Kevin, uma gotícula de suor formando-se na testa. – É algo importante?
-Suponho que seja – falou Rony. Desejava assusta-los. Pelo jeito que Mione falara, os dois deviam estar enrolados até o pescoço nos planos maquiavélicos de Úrsula. Rony estava ansioso para saber as tramas daquela garota. Dependendo do que aqueles três haviam aprontado, Rony achava que seria capaz até de lançar uma Maldição Imperdoável em cada um.
Chegaram na sala. Rony abriu a porta lentamente, tentando manter o medo de Draco e Kevin. Conseguiu o que queria, pois quando Draco e Kevin viram, na mesma sala, Dumbledore, Úrsula – que, embora já tivesse se levantado, ainda tinha os olhos inchados – e Hermione, arregalaram os olhos de tal forma que Rony ficou surpreso ao ver que eles não tinham tido um ataque cardíaco.
Rony precisou dar um empurrãozinho para que os dois entrassem. Fechou a porta, e encostou-se na parede, cruzando os braços em seguida.
Naquele momento, a situação na sala era a seguinte: Dumbledore encostado na frente, Rony na parede lateral do lado da porta, Draco, Kevin e Úrsula no centro, Harry e Gina ao fundo e Hermione na parede oposta à de Rony, olhando ameaçadoramente para o trio de réus no meio da sala.
-Posso começar, Professor? – perguntou Mione ao diretor.
Dumbledore confirmou e Hermione começou a contar todos os podres do trio.
-Vou ser breve, pois sei que o senhor tem assuntos importantes... sobre aquilo que eu informei, a tratar. Tudo começou quando Kevin e Draco, que sempre odiaram os alunos da Grifinória, subitamente começaram a dar em cima de mim e da Gina, no mesmo dia.
Gina não se conteve e se encaminhou até o centro, parando próxima a Draco:
-Isso... Era um plano? – perguntou, a expressão torcida de incredulidade.
Draco, sem olhar para o rosto da garota, fez um movimento positivo, lentamente, com a cabeça.
-Tem muito mais coisa nisso tudo, Gina – falou Hermione. – A amizade da “nossa querida Úrsula” e você, também era um plano dela, sabia?
Os olhos inconformados de Gina passaram para Úrsula.
-O plano de ela me afastar do Rony e conquista-lo também envolvia você. Ela precisou da ajuda de Draco e Kevin para o primeiro plano. Kevin precisava dar em cima de mim para que eu me apaixonasse e nunca me aproximasse de Rony. Porém, Draco ia ter seu triunfo. Sabe como? Paquerando você e assim provocando a ira de seu maior inimigo, Harry Potter.
O corpo de Gina estremeceu, de tal forma que, por um momento, Harry achou que ela iria cair. Os olhos da garota ficaram escarlates, enquanto ela encarava Malfoy com raiva.
-Então... Era somente para irritar o Harry? – perguntou ela para o garoto, que mantinha a cabeça baixa e não respondeu.
-Tem mais, Gina – continuou Mione. – Lembra-se do dia do flagrante em Hogsmeade, no qual deram o falso alarme de que um ataque estava se iniciando? Pois é... Draco não te levou até a frente da Casa dos Gritos por acaso. Ele já estava combinado com Úrsula. Ela avisou a imprensa que os gritos vinham daquele lado. Aí todos os repórteres fotografaram vocês juntos.
-Foi tudo você – murmurou Gina, chorando. – Draco... Como pôde?
-Eles quiseram fazer isso, provavelmente, para provocar ciúmes em Harry, já que o namoro entre você e Draco era segredo. Além disso, aquela entrevista em que revelavam seu nome, Gina, na qual deram o meu nome como sendo a entrevistada, surgiu da mente sórdida de Úrsula Hubbard, pois ela queria que você ficasse com raiva de mim, e, como a repercussão seria grande e toda a sua família estaria ameaçada, ela também queria que Rony me odiasse.
Gina, chorando sem parar, afastou-se do trio, como se estivesse se afastando de animais nocivos.
-Eu tenho nojo de vocês – murmurou com voz pastosa.
-Gina... – disse a voz arrastada de Draco, que estava carregada de calma, que, Harry pensou, era totalmente estranha ao garoto. – Por favor. Perdoe-me... Não tinha a intenção de...
-Do que? De ferir meus sentimentos? Pois saiba que feriu, e muito, Malfoy. Eu gostei muito de você, sabia? Como fui tola...
-Gina, no início, foi tudo uma armação, mas depois... Eu comecei a... Sentir-me realmente atraído por você...
-Uma pessoa que compactua com tudo que essa louca planeja – Gina apontou um dedo trêmulo para Úrsula – não é capaz de amar ninguém. E... Não tem um pingo de caráter. E pensar que eu botei a reputação da minha família em jogo por causa do que sentia por você... Eu senti vontade de que tudo continuasse, sabia, Draco? Ainda bem que não continuei... Era tudo uma farsa... Ah, como fui idiota...
E derramou-se em lágrimas, os soluços barrando as cordas vocais, impedindo com que os sentimentos de Gina viessem à tona. Harry correu até ela e a abraçou carinhosamente, consolando-a. Nos seus ombros, Gina derramou todas as suas lágrimas. Amparando-a, Harry a levou de volta ao fundo da sala.
-Eles também misturaram o caso Michael Evans nos seus planos... – recomeçou Hermione. – Lembra-se do dia em que eu fui atacada sozinha, Harry e Rony? Pois é. Eu lhes disse que o assassino estava usando outra máscara. Mas é claro que estava! Pois não era um crime verdadeiro. Era uma tramóia. Draco estava por baixo da roupa falsa, sabe pra que? Para que Kevin aparecesse e me salvasse, conquistando-me!
Harry e Rony estavam horrorizados. Como eles puderam usar dos crimes que estavam acontecendo, só para satisfazer o sentimento doentio de Úrsula?
Harry se lembrou de que o falecido Charles Sheppard havia lhe falado sobre uma conversa que ouvira dos dois, no interrogatório que fizera com os suspeitos. Charles ouvira os dois conversando se tinham “pegado tudo”. Provavelmente era o disfarce que utilizariam dias depois, para atacar Hermione. Mas isso ainda não os absolvia de serem os verdadeiros assassinos.
-É terrível, não é? – perguntou Mione aos amigos, ao ver os rostos horrorizados dos dois. – Agora, sem Draco e Kevin, Úrsula utilizou-se, ou melhor, beneficiou-se de outro detalhe do caso Michael Evans.
-Que detalhe? – indagou Rony, esperando o pior.
-O dos assassinatos.
Harry engoliu em seco.
-Ela não...?
-Harry... Qual pessoa foi assassinada que não estava na lista negra feita pelo assassino? Qual das vítimas nós estranhamos por não receber marca alguma do assassino?
Por trás dos óculos, os olhos verdes de Harry quase saltaram das órbitas quando ele digeriu a informação.
-Davies... – falou, quase sem voz. – Rogério Davies?
Rony também sentiu a boca seca quando Hermione disse “sim”. Dumbledore respirou fundo, assustado. Uma aluna de Hogwarts havia matado um colega...
-Não foi por minha causa, foi? – perguntou Rony, sentindo uma agulhada dentro do coração.
-Infelizmente, foi – falou Mione, que sentia a mesma culpa que Rony. – Rogério sabia que Úrsula tinha dado a entrevista em meu nome. A ameaçou. Úrsula perdeu o controle e o derrubou.
-Não esperava que a sua maldade chegasse tão longe, Srta Hubbard – disse Dumbledore, assustado. – Se eu soubesse que você era uma ameaça tão grande, teria ajeitado as coisas rapidamente... Foi um erro meu ter demorado tanto. Se bem que, tudo o que eu tinha nas mãos era apenas uma suspeita. Hoje, pela manhã, percebi que devia ter agido logo. Pensei em pedir para que liberassem Hermione Granger, mas a fuga aconteceu antes que pudesse tomar qualquer providência. Perdão, Hermione, por demorar tanto a agir, mas nunca pensei que Úrsula pudesse matar alguém.
Dumbledore suspirou novamente, cruzando os braços:
-Desde o dia em que ela acusou Hermione estava com um pé atrás em relação a ela. Eu pedi ao professor para que preparasse a Poção da Verdade após o dia em que Hermione foi presa. Na hora propícia, a utilizaríamos e Úrsula desabafaria toda a verdade. Bom, o momento propício finalmente chegou.
“Hoje, após ter alterado a receita da poção, Salles me procurou, e avisou que Úrsula estava atrás da receita da Poção do Amor, uma poção muito proibida, pois altera os sentimentos. Estranhou, e me disse que as nossas suspeitas deviam estar corretas, pois ela parecia estar enlouquecendo. Pedi a ele que já ficasse preparado com o vidrinho de Veritaserum e aguardasse”.
“Após vocês saírem da minha sala, – Dumbledore virou os olhos azuis para Harry – , olhei para trás e vi Úrsula chegando. Achei que ela iria utilizar a poção falsa que Salles havia colocado no livro. Fui atrás dele”.
“Rapidamente o encontrei. Avisei que vi que Úrsula estava atrás de vocês fazia poucos minutos, aparentemente fazendo uma nova encenação. Talvez quisesse usar a poção em Harry ou Rony, embora acreditasse que a mira era Rony. Salles já estava com a poção, preparado. Aí viemos para cá, finalmente tirar tudo a limpo. E realmente não só confirmei minhas suspeitas, mas achei outras artimanhas dessa garota”.
O diretor suspirou.
-Meu tempo é escasso, pois tenho que ver como andam os avisos de McGonagall sobre o ataque em Hogsmeade. Agora, por fim, Úrsula Hubbard, você tem algo a declarar?
Úrsula tinha um brilho vidrado nos dois olhos, que passou por cada um dos que a observava. Por fim, parou-os em Rony.
-Você vai ficar comigo agora, não vai? – perguntou, entre risinhos e com uma voz estupidamente infantil. – Já sabe tudo o que eu fiz por você...
Rony, enfurecido, murmurou:
-Você só fez coisas que não prestam, Úrsula. Se antes eu não ficaria com você, saiba que agora é que você nunca terá o meu amor. Nunca mais quero olhar para sua cara Úrsula, eu tenho nojo de você.
Úrsula gritou:
-NÃO PODE TER NOJO DE MIM! EU PRECISO QUE VOCÊ ME AME! SERÁ QUE NÃO ENTENDE? ATÉ MATAR EU PRECISEI PARA CONQUISTAR VOCÊ. POR FAVOR, DIGA QUE ME AMA. DIGA!
-Eu te odeio, Úrsula Hubbard – falou Rony, decidido, dando uma entonação grave no “odeio”, e caminhando até Hermione, passando um braço pelos ombros dela. – Eu amo a Hermione.
Úrsula se jogou no chão novamente, se arrastando até os pés de Rony, falando sem parar: “Me perdoa, me perdoa”... Era até bizarro vê-la se arrastando sem poder movimentar o braço. Parecia uma verdadeira cobra. Rony afastou os pés, olhando constrangido para o diretor.
-Úrsula Hubbard – começou Dumbledore – você será presa pelo assassinato de Rogério Davies, e ficará um tempo em Azkaban, esperando sua audiência. Potter, pode ir chamar o Sr. Filch, por favor? Diga a ele que é para vigiar uma prisioneira. Não posso sair daqui, enquanto ele não vir vigia-la.
Harry balançou afirmativamente a cabeça e depois saiu da sala.
Estava tão chocado com tudo o que Úrsula fez, com tudo que ela conseguiu os enganar, que até se esquecera dos rumos do caso Michael Evans.
Antes que encontrasse o zelador, uma pessoa o fez lembrar do caso, ao chegar, apavorada, para falar com ele.
-Preciso lhe contar uma coisa, Potter – disse a pessoa, olhando ao redor, temendo ser vista.
-Fale logo – encorajou Harry, percebendo o nervosismo.
-Eu acho que sei quem é o assassino da escola... – falou a pessoa, a voz saindo entre a respiração acelerada. – Eu acho que sei quem é Michael Evans...
* * *
Moody estava deitado no quarto que dividia com Remo Lupin e Mundungo Fletcher. Uma das camas estava vazia, pois Lupin estava no seu turno noturno, vigiando as redondezas do alojamento.
O alojamento improvisado para abrigar a guarda de Hogsmeade não era muito grande, já que o alojamento abrigava toda a guarda. Havia quatro quartos apertados, e cada um abrigava vários bruxos.
A vigilância noturna era revezada. Após o pôr do sol, dois bruxos ficavam em frente às portas duplas do alojamento, com as varinhas em punho e olhar atento.
Apesar de ser cedo, Moody estava cansado. O dia fora estafante, e, novamente, nada ocorrera. Os bruxos que compunham a guarda já começavam a demonstrar sinais de impaciência. Alguns achavam besteira vigiar Hogsmeade, mesmo com as explicações que Moody dera sobre os interesses que Voldemort tinha no vilarejo: era bem próximo de Hogwarts, bem próximo de um grande servo dele, que poderia trazer Harry Potter até ele...
Era só esperar. Moody sabia que o ataque iria acontecer.
Da cozinha do alojamento, vinha o cheiro agradável de salsichas e pudim de carne. Moody começou a se ajeitar para se levantar, pois o jantar provavelmente estava para sair, quando bicadas insistentes na janela desviaram sua atenção.
Do lado de fora, uma coruja das torres bicava o vidro. Moody correu até a janela, apanhando o olho mágico, que havia deixado num copo d´água do lado da cama, e abriu o vidro. A coruja trazia um pequeno bilhete.
Moody fechou a janela após pegar o bilhete. A coruja deu bicadas nervosas no vidro e depois levantou vôo.
O bilhete era pequeno e trazia o recado que ele tanto esperava:
Caro Moody,
Recebemos a informação de que o ataque está para ocorrer em qualquer momento do dia seguinte. Avisem a população do vilarejo, pois a área deve ser evacuada. Após a meia-noite, fiquem alerta e bem preparados. Você-Sabe-Quem já está com o grupo de Comensais inteiramente formado e pelas redondezas.
Não se esqueça: vigilância constante.
Minerva McGonagall
Moody fechou o bilhete com cuidado e saiu do quarto. Atravessou o corredor e desceu a escada de madeira que levava ao térreo. Na cozinha, Tonks enfeitiçava as travessas de salsichas e as conduzia até a mesa ao centro. Seu susto ao ver a afobação de Olho-Tonto foi tão grande que ela se esqueceu do que fazia para observar o bruxo, e a travessa que levitava naquele instante desabou com tudo. Seria um desastre, se Quim, que tomava uma caneca de cerveja amanteigada, não tivesse barrado o caminho das salsichas de encontro ao solo. Assim que a travessa – e as salsichas – pousou com cuidado na mesa, Quim também se voltou, com curiosidade, para Moody, que agitava o olho mágico.
-Preparem-se – disse, ansiosamente. – Acabei de receber um bilhete de McGonagall, avisando que Voldemort já está nas redondezas.
O cabelo de Tonks ficou multicolorido ao ouvir o aviso de Moody, e seus lábios se crisparam, decidida:
-Pode acontecer a qualquer momento?
-Pelo que as fontes de Minerva alertaram, está previsto para amanhã. Ou seja, ainda temos tempo. Mas depois da meia-noite, tudo é possível.
-Ainda bem que temos tempo – falou Quim, que praticamente se esquecera da caneca de cerveja em sua frente. – Precisamos alertar a população...
-Sim. O bilhete pede para evacuarmos a área – disse Moody. – Só que seria bom pedirmos calma à população. Se todos entrarem em pânico, a baderna se instaura, e...
-Temos umas seis horas ainda, antes da meia-noite – falou Quim, consultando o relógio da parede. – Vou agora mesmo comunicar aos habitantes. Dédalo, vem comigo?
Dédalo Diggle, que estava beliscando o pudim de carne, fez um sinal afirmativo com a cabeça e disse algo com a boca cheia de pudim, fazendo com que todos não ouvissem o que tinha a dizer.
-Também vou – disse Vicky Vimieiro, uma bruxa canadense magra e com enormes óculos de lentes grossas, que conferia o bolo de frutas. – Assim, nos dispersamos e avisamos os habitantes.
Moody abriu um largo sorriso.
-Vamos atrapalhar o ataque de Voldemort. Quando ele aparecer, com todos aqueles Comensais nojentos, não encontrará ninguém.
-Eu cuido do bolo, Vicky – zombou Emelina Vance, retirando o bolo do forno com olhos gulosos.
Quim, Diggle e Vimieiro saíram da cozinha, atravessaram a minúscula sala de estar e, já com as varinhas em punho, atravessaram as portas.
Lupin e Alexis Slatter, uma bruxa americana de pele negra e tranças afro, vigiavam a entrada, e se assustaram ao ver o grupo que saía, bem na hora do jantar, com as varinhas na mão, em posição de ataque.
-Onde pensam que vão? – perguntou Alexis, curiosa.
-Ataque... Amanhã! – avisou Moody, já ofegando. – Iremos avisar... População... Evacuar área!
-Espera um pouco... O ataque? Será amanhã? – perguntou Lupin, tão curioso quanto a bruxa.
-Sim – respondeu Quim, sem ofegar, já que não tinha uma perna de pau para se cansar tão rapidamente. – Iremos alertar a população.
Sem esperarem outras perguntas, o trio desapareceu. Lupin olhou para Alexis:
-Espero que tudo corra bem.
-Vai correr – falou a bruxa, tranqüilamente. – Se não tivéssemos sido avisados, muitos habitantes poderiam morrer, e até nós mesmos. Se, quando eles chegarem, o vilarejo estiver vazio, ninguém correrá risco de vida, nem nós! Tudo vai correr bem.
Infelizmente, tudo o que Alexis disse não foi o que aconteceu.
* * *
Enquanto Harry não voltava, acompanhado de Filch, a sala ficou em silêncio. Dumbledore olhava pensativo por uma das janelas, Úrsula estava caída no chão, chorando baixinho, parecendo uma enorme minhoca com os braços imobilizados, Draco e Kevin permaneciam com as cabeças baixas, Gina estava quieta num canto da sala, e Hermione e Rony, abraçados, estavam perto da garota.
Hermione apontou para a mochila que estava ao lado de Gina:
-É a mochila de Harry?
-Sim, aí estão todas as anotações que ele fez sobre o caso – respondeu Gina. – Mione, queria que me perdoasse por ter desconfiado de você. Por acreditar em tudo que Úrsula dizia. E por ter pensado que você tinha dado aquela entrevista.
-Esqueça, Gina. Eu já esqueci de tudo. Mas, se você prefere que eu diga, eu te perdôo.
Gina e Hermione sorriram, selando o retorno da amizade. Mione abriu a mochila, após perguntar para Gina se podia ver as novidades do caso. Mione encontrou as coisas sobre os Jovens Anti-Trevas, e Rony e Gina lhe contaram o que haviam descoberto durante o tempo que ela ficou presa.Hermione pegou um dos papéis e começou a lê-lo. Enquanto o lia, seu olhar foi tornando-se sério, amedrontado. Por fim, virou-se para Gina e perguntou:
-Tem pena e tinteiro?
-Claro – respondeu Gina, pegando-os na bolsa de Harry. – Mas... Por que você precisa?
-Digamos que eu descobri algo que passou despercebido pelos olhos de vocês – falou Mione, molhando a pena no tinteiro. – Por acaso vocês não viram nada de estranho aqui? – Mione mostrou.
-Nem precisava, suponho – disse Rony.
-Precisa sim – falou Hermione, começando as anotações. – Tão simples, e tão revelador...
Rony e Gina espicharam os pescoços para bisbilhotarem o que Hermione escrevia. Acabaram se esquecendo quando Harry e Filch apareceram.
-Argo, finalmente – disse Dumbledore. – Preciso que vigie uma assassina.
Filch olhou para Hermione, mas Dumbledore o censurou:
-Essa não. Mas sim essa garota que está no chão, Úrsula Hubbard.
-A garota que foi ferida por aquela outra ali, a fugitiva? – perguntou Filch, indelicado.
-É uma longa história, Filch. Mas tenho certeza de que cometemos um engano. A prisioneira deve ser essa, e ela é acusada de matar um dos nossos alunos.
Filch coçou a cabeça, parecendo confuso.
-Vigie-a, até que eu informe aos bruxos do Ministério e os guardas de Azkaban venham busca-la. Isso se já pudermos enviar ela a Azkaban... Depois de tudo o que ocorreu hoje... – Dumbledore olhou para Draco e Kevin, depois para Hermione, Gina, Harry e Rony. – Os outros podem sair.
Draco e Kevin pareceram aliviados com aquilo. Foram os primeiros a se prontificarem a sair. Porém, antes, Dumbledore os alertou:
-Não pensem que, depois do que aprontaram, ficarão sem castigo. Detenções os aguardam... É só esperarem.
Os dois engoliram em seco e saíram da sala, seguidos pelo diretor.
-Vamos, Mione – chamou Rony.
Hermione guardava a folha com suas anotações na mochila de Harry. Tinha uma expressão de assombro e surpresa. Rony não compreendeu, e, ao levantar os olhos para Harry, que se aproximara, chamando Gina, ele viu que o olhar de Harry era idêntico ao de Hermione.
-Não sei... Mas parece que vocês sabem de alguma coisa, mas não querem contar – disse ele, olhando de Harry para Hermione.
-Quero contar, Rony, mas, primeiro, temos que ir à um lugar mais reservado – falou Harry.
-Eu também descobri uma coisa, que não quer dizer quase nada pra mim, mas acho que para o Harry pode significar alguma coisa – disse Mione, enigmática.
-Vamos sair, então, e acabar com esse mistério – falou Gina.
O quarteto ia saindo quando um clarão iluminou toda a sala.
Foi semelhante a um brilho de relâmpago, mas este era pior. Era um clarão esverdeado. E, ao contrário de um relâmpago, ele não desapareceu em um segundo. A sala inteira estava banhada de verde. Os quatro olharam para o lado de fora, assim como Filch e Úrsula.
O enorme crânio verde-esmeralda, com uma língua em forma de serpente saindo pela boca, brilhava com força total, banhando toda a área das proximidades com seu brilho esverdeado. E estava próximo, muito próximo. Só podia vir de Hogsmeade.
Harry, Rony, Hermione e Gina foram até a janela, os rostos pintados de verde devido ao clarão, com os queixos afastados das bocas.
-Ah não – falou Hermione. – O ataque... Acho que foi adiantado.
-Provavelmente porque eles sabiam que você avisaria ao Professor Dumbledore – sugeriu Harry, ainda fitando o crânio verde-esmeralda que cintilava no céu escuro.
-Aliás, como você fugiu? – perguntou Rony, com a boca aberta, olhando para o símbolo de Voldemort.
-Os Comensais e eu fomos parar num jardim muito bonito. Havia várias flores, árvores frondosas, até um riacho... Eu saí do jardim, entrando por um buraco. Tive que escapar, pois fui vista por aquela horrorosa da Belatriz – o nome da bruxa foi suficiente para desviar os olhos de Harry da Marca Negra para Hermione. – Ele se abria num túnel que, por fim, saía numa mata. Quase fui morta, mas, graças a Deus, na última hora consegui empurra-lo. Conclusão, o feitiço foi para cima e iluminou a mata. No meu desespero, bati com tudo uma pedra na cabeça dele. Deu certo, ele desmaiou. Saí correndo, pulando e desviando dos galhos, olhando de vez em quando para trás. Nossa... A corrida foi árdua. Levei muitos tropeções, alguns galhos ricochetearam no meu rosto. Mas tudo deu certo... Por fim, essa mata dava para a estrada de Hogsmeade. Pertinho, não?
Harry sobressaltou-se. Mione estava num jardim...
(James me disse: A foto de Ludmylla Patil com Michael Evans era num belo jardim...)
... e lá havia várias flores e um riacho.
(...um jardim muito florido, e havia um riacho cortando-o.)
Um buraco que saía numa mata,
(O buraco em que tentaram me puxar na madrugada das heliopatas, e...)
e essa mata saía na estrada que ia para Hogsmeade
(...esse buraco era numa mata, próxima a estrada que ia para Hogsmeade).
-Então esse é o esconderijo secreto de Michael Evans – falou Harry para si mesmo.
-O que disse? – perguntou Gina.
A pergunta não foi respondida, pois todos foram interrompidos pela risadinha sinistra que vinha do fundo. Olharam para trás. Filch estava caído no chão, com a testa ferida, e, ao seu redor, um monte de caquinhos de vidro. Úrsula havia quebrado o cálice onde antes estivera a falsa Poção do Amor na cabeça do zelador. E agora estava ali, rindo, com os braços livres, as cordas que amarravam o pulso soltas no chão, e com a varinha nas mãos, apontando para todos.
Com o susto que todos levaram por conta da Marca Negra, Úrsula tivera tempo de apanhar a varinha com os dedos que pendiam no meio das cordas, arrebenta-las e ainda atacar Filch. A garota riu mais um pouco e apontou diretamente para Hermione. Passou um braço pelo pescoço da garota, num movimento rápido e habilidoso, segurando-a com força, e com a outra mão apontou a varinha para a cabeça dela.
-Calma Úrsula – pediu Rony.
-Estou calma, muito calma – falou a garota. – Tão calma que, se um de vocês fizer menção de me atacar ou pegar as suas varinhas, eu estouro os miolos dessa idiota.
-Úrsula, não faça nada, por favor – pediu Rony, novamente.
-Então, fiquem aí! – ordenou ela. Sob seu braço, Hermione sentia dificuldade em respirar devido ao aperto no seu pescoço. – Cordas não são capazes de me amarrar, de conterem a minha fúria... Não... Foi muito fácil me soltar, esfregando os pulsos na madeira da mesa. Cordas leves, essas... Talvez o barbudo não pensasse que eu conseguiria me soltar... Mas me soltei! Sabem por que? Porque isso não pode terminar assim! Eu presa... Hermione livre, feliz, ao lado de você, Rony! Não pode... Tenho que me acertar com a Hermione... Fiquem quietos e deixe-me resolver as coisas com ela!
Os três se entreolharam e ficaram quietos e parados. Úrsula estava à beira da loucura; se esboçassem qualquer movimento, todos tinham consciência de que ela mataria Mione ali mesmo, sem pestanejar.
-Quietos... quietos... – murmurava Úrsula, a varinha diretamente apontada para uma têmpora de Hermione.
Lentamente, ela ia andando sem olhar para trás, sem tirar os olhos de Harry, Rony e Gina. Com o braço em torno do pescoço de Hermione, ela ia puxando a garota. Ao chegar na porta, ordenou:
-Vire a maçaneta, sua imprestável.
Hermione, sem alternativa, levou a mão à maçaneta e a girou. A porta se abriu lentamente. Úrsula, com um dos pés, escancarou-a de uma vez.
-Úrsula, isso é loucura – falou Harry, apavorado. – Se você sair com Hermione, Dumbledore ou qualquer outro dos professores irá pegar você...
-Acha que eles terão tempo para me dar atenção? – perguntou Úrsula, em tom desafiador. – Com isso aí iluminando o céu? – ela indicou com a cabeça a janela, onde, do lado de fora, o crânio ia perdendo o brilho esverdeado lentamente. – Esqueça. Aliás, vocês nem imaginam o caos que está aqui fora.
Úrsula saiu da sala e começou a correr, levando Mione presa, ainda com a varinha em punho.
Harry, Rony e Gina aguardaram um momento. Foram até a porta e ficaram observando, esperando que Úrsula dobrasse o corredor.
Assim que ela dobrou, o trio saiu da sala. E, a primeira visão que tiveram, os indicou que Úrsula estava certa.
Os alunos de Hogwarts corriam de um lado para o outro nos corredores, em pânico. Alguns, horrorizados, olhavam para o lado de fora. E nenhum dos professores estava a vista.
No meio da multidão, procuraram por Úrsula e Hermione. Era difícil. Muitos alunos estavam agitados no Saguão Principal, procurando esconder-se, apavorados, com medo da Marca Negra.
-Ali! As duas! – apontou Gina, indicando as duas, que saíam pelas portas de entrada.
Sem perder tempo, os três correram até as portas, desviando-se dos alunos. Saíram apressados, dando sorte de não serem vistos por nenhum professor.
Eles analisaram os terrenos da escola, e avistaram as duas sombras que se moviam e se encaminhavam para a saída.
-Úrsula é louca! – exclamou Harry, enquanto recomeçavam a corrida. – Ela vai sair dos limites da escola... Com Mione!
-Deve estar cheio de Comensais da Morte aqui por perto – falou Rony.
-É um perigo – disse Harry, sem parar de correr. – Mas temos que enfrenta-lo para salva-la.
Logo chegaram aos portões ladeados pelos javalis e passaram por ele, seguindo as sombras coladas de Úrsula e Hermione.
-Preparem-se, pessoal – falou Harry, pegando a varinha. – Estamos fora da escola. Agora, estamos à mercê dos Comensais.
O crânio ia se dissolvendo no céu. Em Hogsmeade, no entanto, a coisa parecia estar terrível. Gritos de pavor eram ouvidos. Feixes de luz cortavam o céu.
-Vamos – disse Harry, e os três se embrenharam pela estrada escura e cheia de surpresas, sendo engolidos pela noite sem luar, debaixo do céu azul-escuro ainda pontilhado pelas luzes esverdeadas do crânio que substituíra a lua.
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