O Jardim das Ilusões



CAPÍTULO 39 - O Jardim das Ilusões


Harry, Gina e Rony caminhavam pela estrada, com as varinhas em posição de ataque. A escuridão era tenebrosa. Pequeninos flocos de neve começavam a cair do céu, rodopiando.


                Úrsula e Hermione ainda eram visíveis no campo de visão do trio. Mantinham a mesma distância; Úrsula era capaz de tudo, e não pensaria duas vezes em explodir a cabeça de Hermione.


                Harry acompanhava os trechos da estrada atentamente, tentando encontrar o local onde se entrava na mata dos heliopatas. Ali estava a chave de tudo, ele tinha certeza.


                Nenhum dos três trocava qualquer palavra. Estavam atentos, sem desgrudar os olhos de Hermione e Úrsula, exceto Harry, que variava o olhar, passando das duas garotas para os cantos da estrada que levava a Hogsmeade e, agora ele sabia, também à muitas respostas sobre o caso dos assassinatos.


                Quanto mais avançavam pela estrada, mais os ruídos do ataque em Hogsmeade tornavam-se audíveis. A Marca Negra já se dissolvera do céu, mas a marca de Voldemort e dos Comensais da Morte estava estraçalhando os bruxos do povoado. Gritos de pavor, pedidos de socorro, raios de luz avermelhada e esverdeada cortavam o céu de Hogsmeade.


                Harry pensou na guarda do povoado. Como estariam Lupin, Olho-Tonto, Tonks, Quim, Mundungo, todos os outros? Assim como a Marca os pegara de surpresa, devia ter surpreendido todos em Hogsmeade também. Hermione dera o aviso de que o ataque ocorreria no dia seguinte... Um ataque tão precoce não era esperado por nenhum deles, Harry tinha certeza disso.


                A estrada continuava deserta, exceto por eles, o que era uma sorte. Harry não queria ter o desprazer de cruzar com algum Comensal e perder de vista Úrsula e Hermione.


                A perseguição continuou. Até que, de repente, as sombras fundidas de Hermione e Úrsula dobraram para a mata da estrada. Harry apressou o passo:


                -Vamos mais rápido – incentivou ele, e Rony e Gina apressaram os passos. – Talvez a vegetação seja densa, e não a encontremos.


                Com um aperto terrível no estômago, Harry alcançou, com os amigos, o local onde Úrsula e Hermione tinham entrado. Não havia como se enganar. As imagens da noite horrível dos heliopatas estavam gravadas na sua mente de tal forma que ele acreditava que nem um Feitiço da Memória poderia apagar.


                Por que Úrsula entrara ali? Era ali a entrada para o jardim onde Voldemort estivera com os seus servos durante à tarde. O jardim da foto de Michael Evans que Padma tinha.


                Harry olhou para o rosto igualmente apreensivo de Rony. Os olhos apavorados do rapaz encontraram-se com os seus. Em seguida, Rony levou lentamente a mão para uma das pernas, onde o corte feito pelo heliopata na outra noite fora feito. Harry também sentiu o corte em sua mão latejar. Olhou novamente para Rony, hesitando em entrar no meio da mata.


                Gina, apavorada com a demora, puxou as vestes de Harry, em pânico.


                -O que houve? – perguntou, a voz estridente e ligeiramente trêmula devido ao medo e ao frio. – Temos que ir logo ou perderemos as duas de vista!


                Harry ignorou o comentário da namorada, ainda trocando o olhar de puro pânico com Rony. Suspirando – o suspiro saiu acompanhado de uma fumaça branca, que se perdeu entre os flocos de neve que caíam do céu – Harry decidiu:


                -É pela vida de Mione, Rony. Sei que as imagens daquela noite estão gravadas na sua mente, assim como estão na minha. Mas temos que lembrar que Hermione já está no meio dessa mata, correndo o mesmo perigo que nós dois corremos naquela noite. Ela está até um pouco pior, pois está acompanhada de outro monstro, que é, sem dúvida nenhuma, Úrsula Hubbard. Já enfrentamos riscos terríveis, e não vamos fraquejar desta vez por causa daqueles monstros que soltam fogo pelas ventas... Vamos!


                Harry foi o primeiro a colocar os pés no solo recheado de folhas outonais da mata. Rony foi o segundo, demonstrando que as palavras de Harry surtiram efeito no amigo. Gina, que agora estava confusa,


                (Ele realmente falou sobre monstros que soltam fogo?).


                foi logo em seguida ao irmão, limpando um floco de neve que caíra sobre seu nariz. A garota olhou para a mata escura. As árvores, na escuridão da noite sem luar, eram sombras que tomavam formas horríveis. E, para piorar, davam a impressão de que alguém estava espreitando sobre elas. Gina engoliu em seco, olhando para as sombras adiante – uma árvore frondosa logo à frente lembrava um trasgo horrível, e o carvalho logo em seguida tinha os galhos disformes, lançando formas de dementadores. Gina balançou a cabeça, tentando eliminar essas visões. A situação já era terrível demais para sentir medo de coisas que não existiam ali na mata.


                -Lumus! – a luz irradiou-se da varinha, iluminando a mata. Agora podiam ver o solo, coberto pelas folhas coloridas e pelos flocos de neve que logo iriam se adensar. Gina virou a varinha para o rosto de Harry e Rony, encontrando expressões alarmadas nos rostos de ambos.


                Depois, com o feixe de luz da varinha apontando pela trilha, começaram a caminhar, com os corações aos pulos. Gina iluminou brevemente a árvore frondosa que lembrava um trasgo. Quando a luz chocou-se contra a árvore, Gina sentiu o coração disparar ainda mais.


                Mesmo com a luz chocando-se contra ela, a árvore continuava lembrando-lhe um enorme trasgo. Harry percebeu a apreensão repentina da namorada:


                -O que houve? – perguntou, preocupado, olhando ao redor.


                -N-na-da – respondeu Gina, recomeçando a caminhada.


                (“Tenho que esquecer aquilo. É só uma impressão. Aquilo não é um trasgo de verdade. A árvore apenas tem o formato de um. Nuvens não adquirem formas diversas? Então... Acho que árvores também podem... Se bem que aquela forma da árvore é tão real. Eu pensei até ter visto os olhos e a face do trasgo, desenhados com perfeição pela natureza no tronco da árvore. Até as pernas... O tronco tem uma divisa em baixo, semelhante a pernas... Não! Não pode ser! Esqueça isso!”).


                Passaram pela árvore. Começaram a apressar o passo, já que Úrsula e Hermione já não eram vistas. Mas Harry tinha certeza que Úrsula levaria Mione para dentro do buraco que, pelo que tudo indicava, saía num jardim.


                Gina não se atrevia a iluminar os troncos das outras árvores, tentando, de todas as formas possíveis, dirigir a iluminação para o chão. O tronco em forma de trasgo não saía de sua mente. Era muito perfeito... O tronco tinha a forma do corpo e do rosto, e a parte frondosa de cima, recheada de folhas, se assemelhava aos enormes tacos que os trasgos carregavam.


                Ela não resistiu e se virou rapidamente, iluminando a árvore-trasgo, que ficara há alguns passos de distância. Quando a luz iluminou a árvore, Gina teve a impressão de que a árvore se mexera. Não, não era impressão... Ela tinha certeza. Ou seria quase certeza? A expressão do tronco-trasgo havia se distorcido, e as folhas pareciam, de certa forma, terem descido um pouco mais, e o bastão agora estava mais para baixo, se preparando para o ataque.


                (“Essa árvore não pode me atacar...”).


                Gina olhou em frente, mas logo se virou novamente, sem conseguir resistir. A árvore em forma de trasgo havia se movido novamente. O bastão


                (“Bastão não... Isso não é um bastão. Estou ficando louca! São as folhas da árvore!”),


                agora estava mais para baixo, e a boca do trasgo


                (“Trasgo não... tronco!”),


                havia se aberto, revelando uma expressão de terrível fúria. Gina esfregou os olhos novamente. Ao abri-los, não só a expressão do tronco-trasgo havia mudado como a árvore estava se tornando real. A luz iluminava uma pele esverdeada.


                Gina nem reparou, mas Harry e Rony já acompanhavam seu olhar de espanto, boquiabertos. Num piscar de olhos, o bastão levantou-se novamente, e o tronco ganhara ainda mais contornos de um trasgo. Ela agora podia ver os olhos ameaçadores a fitando. Somente no relance de um piscar de olhos, os olhos do tronco-trasgo ganharam forma, tornando-se reais. Sim, eles se mexiam, olhando de um para outro dos rostos que o fitavam. Gina piscou novamente, e as pernas do trasgo mexeram-se, e logo se tornaram reais. A cabeça pequenina se movimentou e, após um novo piscar de olhos, o trasgo estava inteiramente vivo.


                O trio encarava o corpanzil enorme que, de tronco, transformara-se num monstro. Rony não conteve uma exclamação de pavor. Os flocos de neve cobriam a cabeça do trasgo. Com lentidão – mas mesmo assim, ainda ameaçador – ele rugiu e colocou a outra mão sobre o bastão. Jogou-o para trás, pegando impulso. E brandiu-o em direção à jovem que estava logo na sua frente.


                Gina se desviou, e o bastão atingiu seu braço de raspão, deixando-o levemente dolorido. Ela correu para os braços de Harry, que a amparou. O trasgo já levantava o bastão novamente, agora mirando em Rony. Quando o objeto foi em sua direção, Rony levantou sua varinha para o monstro e tentou brandir o feitiço de desarmamento. Naquele instante, porém, o bastão já descia com ímpeto e chocou-se em cheio contra a sua cabeça. Rony ficou tonto... As imagens foram saindo de foco, e, num repente, antes de perder o equilíbrio e chocar-se contra o solo gelado, ele já se achava mergulhado em escuridão.


                Gina soltou um grito agudo. Harry tapou a boca dela com as mãos; as áreas próximas estavam lotadas de Comensais da Morte, e não precisavam de um outro bruxo chato para incomoda-los, sendo que o trasgo já estava cumprindo a tarefa.


                -Controle-se Gina, controle-se... – pedia, desesperado.


                Ele tirou a mão da boca de Gina, e ela não gritou mais. Descontrolada, correu até o irmão, que estava estatelado no chão. Segurou a cabeça dele e a afagou, em desespero. Pelo que podia enxergar, Harry viu que um galo surgia na testa pálida de Rony. Um filete de sangue escorria-lhe pelo canto da boca, devido ao impacto que o corpo do garoto havia sofrido contra o solo.


                Harry tirou os olhos de Gina e Rony e os voltou para o terrível trasgo, que o encarava com aqueles olhos astutos. Sim, aquele trasgo tinha olhos astutos... Sem expressão de bobo, como a maioria daquela espécie possuía... De fato, este trasgo estava se comportando de forma diferente, com mais agressividade do que aquele que Harry enfrentara no primeiro ano ao lado de Rony. Este trasgo, que o encarava com os olhos fundidos e movia-se lentamente, era ágil – não tão ágil, mas da forma máxima que seu corpanzil pesado e seus pés calosos permitiam. O trasgo rugiu e desceu violentamente o bastão sobre Harry que, pegado de surpresa, desviou o corpo com tudo para trás. Harry caiu feio, seus óculos voaram e caíram no solo bem na sua frente.


Harry estendeu a mão para o objeto, que jazia no meio de uma pequenina camada de neve, e só pôde ser localizado por seus olhos míopes devido a armação preta, que criava um contraste com a cor da neve. Sua mão estava quase lá... Faltava pouco...


Um dos pés do trasgo baixou com força total sobre eles e, conseqüentemente, sobre seus dedos.


                Foi uma dor lancinante. Os pés calosos e pesados comprimiam o peso do trasgo sobre os dedos de Harry. As lentes dos óculos, assim como a armação, foram estilhaçadas pelo impacto, e Harry sentia os caquinhos ferindo alguns dos seus dedos por baixo. Mas ele quase nem sentia... O pior era o que vinha por cima, o peso horrendo daquele monstro, que grunhia de prazer enquanto via a expressão de dor no rosto de Harry. Ele fechou os olhos, só suplicando que aquele peso saísse logo de suas mãos. Quando entreabriu os olhos, Harry só conseguiu enxergar o movimento dos braços do trasgo, que traziam consigo, o bastão.


                O bastão desferiu um forte golpe sobre as costelas de Harry. Ele não suportou e gritou baixinho, apertando os dentes com força, tentando se controlar e não manifestar a dor que sentia. Apertou os olhos novamente, não querendo enxergar nada. Enquanto suas costelas doíam, a dor na mão continuava, pois o trasgo não tirava os pés de cima dela. Harry tentou levar a mão livre para apanhar a varinha, mas sentia dor em fazer qualquer movimento. Suas costelas ardiam, e ele acreditava que por pouco elas não haviam sido partidas. Um novo estremecimento percorreu seu corpo ao ter tal pensamento.


                “Se ao menos eu pudesse me livrar dessa dor em minha mão...”.


                Mas sabia que não conseguiria. O trasgo não ia tirar os pés da mão dele enquanto ele não estivesse morto. Aquilo era uma forma de o prender ali, indefeso, no chão, sem forças... Agora, era só surra-lo com o bastão, até que Harry morresse... Aquele trasgo estava pensando, e muito bem. Decididamente era bem diferente dos outros...


                Harry, os olhos comprimidos, com fartas lágrimas formando-se, esperava o bastão atingi-lo novamente. Seus dentes estavam muito apertados, agora contra aos lábios, que começavam a reagir com sangue. Harry podia sentir o gosto amargo do líquido na sua boca...


                Ele sentiu algo lhe atingir o ombro. Outro golpe... Não...


                Era uma mão o chamando. Harry abriu os olhos. Através da visão embaçada, ele enxergou os cabelos vermelhos, longos... Era Gina. A garota passava para ele os óculos, que já estavam bons novamente. Harry os colocou e tudo a sua volta tomou foco.


                Mas nem teve tempo de observar. Percebeu que Gina segurava o bastão do trasgo – havia-o desarmado – e o monstro, que não parecia nada feliz, avançava ferozmente para os dois. Gina, igualmente furiosa, preparou o bastão, e brandiu contra o trasgo antes que ele os alcançasse. O objeto o atingiu bem na carantonha, e ele caiu rapidamente no chão, com estrépito e esvoaçar das folhas outonais.


                Harry olhou para Gina, admirado. A garota correu até ele, tomando-lhe a mão ferida. Se é que, naquele estado, poderia-se chamar aquilo de mão.


                O que fora a mão de Harry agora era uma coisa arroxeada, inchada, com sangue fluindo pelos locais em que deviam estar as unhas, e, em dois destes lugares, ainda havia unhas que soltavam filetes de sangue pelas bordas.


                -Consegue mover? – perguntou Gina ao namorado, preocupada.


                Harry tentou mexer os dedos – isto é, aqueles ossos finos arroxeados – mas não obteve sucesso. Quebrara-os e, para seu desespero, era a mão direita.


                Gina deve ter notado a expressão de preocupação no rosto de Harry ao ver que seus dedos não se movimentavam, pois logo disse:


                -Madame Pomfrey dará um jeito nisso... Ela remenda ossos com facilidade.


                -Mas Madame Pomfrey não está por aqui – retorquiu Harry, desapontado pela situação. – Como poderei salvar Hermione se estou invalidado desse jeito? – sua voz alteava, perdendo o controle. – Como poderei enfrentar um daqueles Comensais se, de repente, eles surgirem por entre essas árvores? E o Michael Evans?


                -Harry, acalme-se! – pediu Gina brandamente. – Nada vai acontecer. Quanto à Úrsula... Eu tentarei dar um jeito, e Rony também – olhou para o irmão desacordado – se ele acordar... E você pode ajudar de outras formas, não precisa necessariamente ter uma varinha em punho...


                -Que jeito? Se até minhas costelas estão esfoladas?


                Ele tentou se erguer e a dor tomou-o novamente, percorrendo suas costas. Soltando um grunhido de dor. Harry levou a mão sadia às costas, curvando-se. Trincou os dentes. A dor percorrera sua espinha quando havia tentado levantar, de uma forma terrível, se espalhando por todos os lados. Gina amparou-o antes que caísse.


                Harry respirou fundo e tornou a tentar erguer-se. Apoiando-se em Gina, levantou-se o máximo que a dor em suas costelas permitia. Por fim, estava em pé, porém, um pouco curvado.


                -Vai ser difícil caminhar, mas... Eu consigo – falou, dando dois passos. A cada movimento, as costelas ardiam, mas ele estava decidido a continuar, e nada, nem mesmo aquela ardência e dor que percorriam seus ossos iria impedi-lo.


                -Seus lábios também estão sangrando – disse Gina preocupada.


                Harry até havia se esquecido do corte nos lábios, provocado pelos próprios dentes no momento de desespero. Levou um dedo à boca e examinou-o. Estava vermelho.


                -Acho que logo deve parar – disse ele. – Vamos ver como o Rony está.


                Rony ainda estava desacordado. Apontando a varinha iluminada de Gina para o rosto do amigo, Harry viu o galo protuberante na testa dele e a respiração ofegante. As sobrancelhas de Rony começaram a mover-se, e, lentamente, como se despertasse de uma ótima noite de sono, após belos sonhos, ele abriu os olhos tranqüilamente.


                Olhou ao redor e seus olhos encontraram Harry e Gina. Como se só houvesse compreendido onde se encontrava naquele momento, Rony levantou-se rapidamente, com os olhos assustados, olhando ao redor. Agora parecia ter acordado de um pesadelo.


                “Engano meu... Ele acabou de retornar para um”, pensou Harry, infeliz.


                -Onde está ele? – perguntou Rony, atordoado. – Onde? Cadê a minha varinha?


                Rony sentiu o sangue ainda escorrendo pelo canto de sua boca. Olhou ao redor novamente, desta vez para o chão, e encontrou a varinha próxima às raízes de uma árvore.


                Levantou-a em posição de ataque, ainda olhando entre as árvores, atrás do trasgo.


                -Rony... Rony! – chamou Gina. – Acabou-se. Olhe!


                Apontou para o corpo do trasgo que estava caído com a varinha, e Rony viu, com enorme alívio, que o monstro estava desacordado. Suspirou, e ia levando a varinha para o bolso das vestes quando a voz de Harry o interrompeu:


                -Não guarde! Corremos perigo ainda... E, agora, não poderei ajudar vocês – Harry levantou a mão esfolada para Rony.


                -Caracas, Harry! – exclamou Rony, com uma certa expressão de repugnância. – Quem...?


                -Foi ele, mas os detalhes não vêm ao caso agora... Temos que correr para alcançar Úrsula e Hermione! Perdemos muito tempo enfrentando o trasgo... Embora eu saiba onde Úrsula está levando Hermione, não podemos demorar, pois é...


                -Como você sabe? – interrompeu-o Gina.


                -Não há tempo para explicações – falou Harry. – Mas tenho praticamente certeza de que encontraremos as duas se entrarmos em um buraco que já deve estar bem perto...


                -Buraco? – indagou Rony, a testa franzida. – Não, Harry, não me diga que é aquele buraco...


                -Sim, Rony – confirmou Harry. – Vamos logo!


                Gina, sem compreender, iluminou o caminho novamente. Ainda evitava olhar para as árvores... Tinha medo de avistar uma com alguma forma horrenda, e ter que acompanhar o terrível processo de transformação do tronco que ganhava vida. Harry e Rony estavam preocupados que alguma coisa surgisse das sombras, do meio das árvores e arbustos da mata, mas não estavam cientes de que o trasgo fora um tronco de árvore antes de tornar-se terrivelmente real.


                Cada galho partido por seus próprios pés agora era suficiente para sobressalta-los. A neve ainda caía do céu, uniforme, mas muitas das copas das árvores interrompiam-lhe o trajeto até o solo e até as cabeças dos jovens.


                Atrás deles, um galho estalou fortemente. Sobressaltados todos se viraram, Rony e Gina com as varinhas erguidas.


Nada ao redor.


                Após se certificarem, viraram-se todos ao mesmo tempo, para continuar a caminhada. No instante que os três pares de olhos voltaram-se para a trilha, um novo estalo veio de cima. E, antes que os olhos de cada um tivessem tempo de espiar, a causa daquele barulho veio-lhes primeiro.


                Deram de cara com o rosto morto e pálido de James Smith.


                O corpo estava preso por uma corda pelo tornozelo, e havia despencado dos galhos da árvore. Gina deu um grito sufocado. Harry e Rony fitavam o corpo, boquiabertos.


                Os olhos de James estavam arregalados. Aquele azul penetrante os atingia mais do que nunca, pois estavam esbugalhados. A boca do corpo estava torcida. Naquele cadáver, estava a expressão de horror puro. Não havia sequer uma gota de sangue.


                -A maldição da morte – falou Harry, tocando o rosto de James, que estava gelado. – Avada Kedavra... Só pode...


                Harry olhou para o solo e viu as iniciais de Michael cortadas no tronco da árvore. O círculo dos Jovens Anti-Trevas estava logo abaixo.


                -É muito intrigante... – murmurou Gina. – Michael nunca matava com a varinha... Lembra que você havia concluído que ele não a utilizava, pois tinha medo de uma verificação que averiguasse o último feitiço produzido?


                -Sim, claro – respondeu Harry, ainda fitando James. – Isso só nos leva a pensar que, realmente, Michael pretende acabar com tudo hoje... Após matar todos os nomes da lista, ele provavelmente se juntará ao Voldemort, não precisará mais se esconder...


                -Mas como ele poderia eliminar todos essa noite? – duvidou Rony. – Afinal, os únicos que estão fora da escola e dos dormitórios neste momento sou eu, você, Gina e Hermione...


                -Então, como me explica a presença de James por aqui? – perguntou Harry. – Ele nunca viria aqui sozinho.


                -Ele não veio sozinho – disse uma voz feminina às costas dos três.


                Harry, Gina e Rony viraram-se. Atrás deles, estavam Padma Patil e Christian Baker, ambos sujos de terra, com os cabelos pontilhados por pontos brancos e com expressões de puro pânico.


                Por um momento, eles apenas fitaram um ao outro. Quando uma pergunta finalmente formou-se na boca de Harry, foi a que tanto Rony quanto Gina estavam demasiados ansiosos para fazer:


                -O que vocês estão fazendo aqui?


                Padma adiantou-se para responder, os cabelos desgrenhados esvoaçando com o movimento do vento, que a atingia através de uma passagem entre dois salgueiros próximos.


                -James disse ter visto uma coisa, por uma das janelas do nosso dormitório, enquanto observávamos a Marca Negra... A luz esverdeada iluminou uma grande parte dos terrenos da escola. Ele viu, através da vidraça, duas pessoas avançando na escuridão. Sem perdermos tempo, saímos em disparada, aproveitando que todos estavam distraídos, com medo da Marca... Queríamos ficar dentro dos limites do colégio, mas acabamos parando na estrada... Por causa da vontade de James, claro... Ele adorava correr perigo, entrar em aventuras... Íamos avançando cautelosos, até que algo pegou James e o puxou para o meio das árvores dessa mata... – a voz trêmula de Padma parou, sendo substituída por soluços. Harry subitamente recordou-se que James era o namorado da garota. Através da penumbra, Harry via que as bochechas de Padma estavam vermelhas, ardentes pela dor. Ela fungou e continuou. – Eu e o Chris entramos logo atrás, apavorados demais. Queríamos muito salvar o James... Oh sim, queríamos muito... Mas... Mas... – vacilou novamente. – As árvores dificultavam muito nosso trajeto... Gritava muito, e Christian, apavorado, pedia para que eu parasse. Na escuridão, acabei tropeçando numa raiz, e aí, caí desabalada no chão – Harry percebeu o corte ao lado dos lábios vermelhos de Padma. Havia um filete de sangue seco caindo ao lado do lábio inferior. – Christian continuou correndo. Logo levantei e disparei atrás dele... Num repente, uma luz esverdeada iluminou tudo bem próximo de onde estávamos e... eu berrei, Christian também... E foi só... Corri mais e alcancei Christian, que estava perplexo. Ouvimos barulho na mata, que agora sabemos que eram vocês, e subimos correndo no salgueiro, pensando que se tratava do assassino... E lá em cima encontramos o corpo de James. Quase gritei, se Chris não tivesse me controlado...


                -A nossa corrida foi praticamente infrutífera – disse Christian desgostoso. – Pelo que reparei, James foi morto com um feitiço...


                -A maldição da morte – corrigiu Harry, olhando novamente para o cadáver de olhos arregalados. – Avada Kedavra.


                -Podemos ir embora? – perguntou Padma, apavorada, para Christian.


                Christian, sem saber o que responder, lançou um olhar inquisitivo para Harry.


                -Acho melhor vocês voltarem ao castelo – respondeu.


                Christian não pareceu gostar muito da idéia, pois resmungou e bateu os pés contra as folhas secas do chão, fazendo com que uma nuvenzinha de poeira branca esvoaçasse.


                -Por que vocês podem continuar por aqui e somente nós precisamos voltar?


                -Christian, é muito perigoso ficar por aqui – replicou Harry. – Por favor, entenda...


                -Perigoso? – perguntou Christian, exaurido. – Como é perigoso somente para eu e Padma? E vocês? Não correm risco algum? Um ataque dos servos do Lorde das Trevas está ocorrendo agora nas proximidades, e Michael Evans está por aqui, nesta mesma mata, talvez até nos espionando – Rony e Padma lançaram olhares temerosos para as sombras negras das árvores ao redor. – Então... Por que só eu e ela corremos perigo? Aliás... – o olhar de Christian tornou-se ironicamente desconfiado – se você está por aqui, Potter, é porque está atrás dele, não é?


                -Sim, estou – respondeu Harry prontamente, percebendo, pela expressão decidida de Christian, que de nada adiantaria uma negação.


                -E parecem ter enfrentado maus bocados – comentou Christian, olhando Harry de cima a baixo. Seus olhos pararam momentaneamente na mão esmigalhada de Harry, e nas costas ligeiramente arqueadas do rapaz. Depois, olharam para Gina, e finalmente para o galo e o filete de sangue que estavam na face de Rony.


                Soltou uma risadinha baixa e satisfeita.


                -Acho que vocês terão que nos levar junto... Afinal vocês não nos parecem muito bem... Precisarão de nossa ajuda, suponho...


                Harry apenas suspirou, olhando para Christian e Padma. Depois, lançou um olhar para o nítido M.E. cortado sobre o tronco do salgueiro. As suspeitas eram muito grandes – principalmente em relação a Padma – mas, mesmo assim, decidiu que eles podiam acompanha-los. De qualquer forma, ele, Rony e Gina já corriam perigo sem Christian e Padma. Ele estava decidido a ir até o jardim, entrar por aquele buraco que estava bem próximo, e, evidentemente, estavam caminhando para o perigo. E ainda havia Úrsula, desequilibrada, capaz de qualquer loucura, e com Hermione em suas mãos.


                Quando Harry começou a retomar a caminhada, todos os outros quatro o seguiram, a luz agora irrompendo das varinhas de Padma e Gina, banhando a trilha. A luz iluminava o caminho íngreme, as raízes que o cortavam, os arbustos que o invadiam, as plantas que o cercavam, os espinhos pontudos que ameaçavam os distraídos.


                Chegaram ao fim da mata e a luz banhou o buraco cavado na terra. As árvores próximas não chegavam a tapar o céu por inteiro, fazendo com que uma leve camada de neve circulasse a passagem. Harry observou com cuidado e viu pegadas marcadas contra o solo esbranquiçado.


                -Estamos no caminho certo! – disse após uma breve verificação. – E... Então? – olhou curioso para os rostos de cada um. – Quem vai primeiro?


                Todos permaneceram mudos. Ante o silêncio do grupo, Harry concluiu que a tarefa de conhecer o que viria a seguir seria dele – e ele não estava muito ansioso para saber o que seria. Sem poder utilizar a varinha, Harry sentia uma sensação de impotência jamais experimentada. Tentou esquecer que estava incapacitado, pois a lembrança trouxe uma nova onda de dor para sua mão quebrada e para os lábios cortados.


                -Eu vou primeiro – disse ele.


                Harry sentou-se próximo a passagem, sem colocar os pés dentro do buraco. Lembrava-se bem da sensação horrível que experimentara na noite em que ele, Rony e Christian enfrentaram os heliopatas. Os braços que o puxavam para dentro daquela passagem... Tentando leva-lo para o vazio... Para a escuridão... Na companhia de um assassino perverso. A idéia de que aquelas mãos poderiam irromper novamente causaram um estremecimento que percorreu todo o seu corpo. Harry engoliu em seco, sentindo o gosto do sangue ainda misturado à sua saliva.


                -Pensando na vida, Potter? – perguntou Christian.


                Harry apenas o olhou com raiva. Com certa dificuldade em se apoiar apenas com a mão esquerda, Harry praticamente se jogou dentro do buraco. Era melhor ir de uma vez...


                Bateu com força no chão de terra salpicado pela neve. Os óculos entortaram um pouco e ele os ajeitou – porém, no túnel que se formava, eles eram inúteis. O túnel mergulhava na mais absoluta escuridão.


                -Você está bem? – perguntou a voz de Gina, preocupada, do lado de cima. Logo o rosto da garota apareceu, espiando para baixo, com a testa franzida e os olhos comprimidos, num esforço para enxerga-lo. – Harry?


                -Estou bem – respondeu, e sua resposta foi acompanhada por um grande suspiro de alívio da namorada.


                Harry olhou, tenso, para a escuridão ao seu lado. Sentiu um suor frio começar a brotar de seu corpo, e uma terrível sensação. De fato, torcia para que alguém descesse logo.


                -Eu estou indo – falou Gina, lá de cima. A garota saíra do campo visual de Harry por alguns segundos, mas logo tornou a surgir, sentando-se na borda da passagem, e preparando-se para o salto.


                Mas antes que Gina concluísse o pulo, uma mão irrompeu do breu ao lado de Harry e tocou o seu ombro.


                Harry deu um grito, acompanhado de um salto. O corpo do garoto chocou-se contra o barranco, e ele sentiu uma leve pontada de dor atingir novamente as suas costelas. Instintivamente, levou uma das mãos às costas para pressiona-las e tentar amenizar a dor, enquanto mantinha a totalmente inútil mão direita estendida, tentando, de alguma forma, manter a coisa do outro lado afastada.


                Se Harry olhasse para cima, veria os quatro rostos que olhavam para baixo, num misto de medo e curiosidade. Mas não. Ele não ousou tirar os olhos da escuridão que envolvia o corredor que se abria à sua frente. Podia ouvir a respiração do que estava lá, ouvir seus passos e sentir, através do vento, os movimentos do corpo.


                Até que, através do breu, ele percebeu que o que estava na sua frente era tão pálido, que ele já conseguia divisar os contornos da face.


                “É humano... Provavelmente Michael, ou algum dos Comensais!”, pensou, alarmado, tremendo de pavor. Estava sem a varinha, e um Comensal ali dentro, junto dele, seria uma óbvia sentença de morte.


                Harry forçou a vista. Os contornos do rosto estavam se tornando mais nítidos, à medida que a pessoa avançava. Podia ver agora um queixo pontudo ganhando forma, assim como os malares. As orelhas apareceram, e tufos de cabelos dourados também – dourados... Muito dourados... Mãos pálidas podiam ser vistas, e, com uma nova onda de pavor, Harry percebeu que uma delas tinha os dedos em torno de algo escuro, que perdia a nitidez no meio do breu...


Uma varinha.


                Harry engoliu em seco, e recuou ainda mais para o barranco, com o pavor crescendo a medida que a pessoa tornava-se nítida.


Quando o queixo pontudo ganhou melhor definição, assim como o cabelo, Harry não teve a menor dúvida de quem se encontrava ali à sua frente...


                Draco Malfoy.


                Draco continuou se aproximando, enquanto pensamentos rodopiavam na mente de Harry.


                Ele está aqui para me matar... Irei morrer aqui, neste corredor escuro de terra, morto pelo garoto que sempre me odiou... Provavelmente ele ganhará um mérito por assassinar Harry Potter... Ganhará regalias do Lorde das Trevas, por matar Harry Potter... Ele e o pai se tornarão servos especiais de Voldemort, por conseguirem derrubar Harry Potter, o fantástico Menino-Que-Sobreviveu... E que sobreviveu a ataques de Voldemort, e agora será detonado num lugar hostil por ninguém menos que Draco Malfoy...


                Incapacitado, tudo o que Harry tinha a fazer era esperar. Ele já podia ver claramente o rosto de Draco, e as mãos que realmente seguravam uma varinha. Mas, para sua imensa surpresa, a varinha de Draco não estava em posição de ataque, e tampouco seu rosto pálido indicava tal intenção.


                -Ele... Kevin... – murmurou Draco, tremulante.


                Harry percebeu que Draco não estava ali para mata-lo. Parecia terrivelmente amedrontado. Através da escuridão, Harry percebia que a mão do garoto estava tremendo.


                -O que? – perguntou ele a Draco.


                Draco apontou o dedo pálido para o corredor escuro.


                -Lá... O jardim... Kevin ficou lá... Garras... O levaram...


                -Garras? – perguntou Harry aturdido. – Como garras? Garras do que Draco? Explique-se melhor, por favor...


                -As garras terríveis – murmurou Draco. – As garras da fera.


                Harry ainda não compreendia. Primeiramente não compreendia o que Draco estava fazendo ali. E, depois, não entendia que garras eram aquela que haviam apanhado Kevin Wallace no jardim...


                “O jardim... Draco e Kevin estiveram no jardim! Mas... Por que?”.


                -Draco... – começou Harry, esquecendo essas dúvidas e perguntando a primeira coisa que o jardim evocava em sua mente. – Úrsula e Hermione... Você viu as duas? Viu as duas saindo desse túnel? As viu no jardim?


                -Não – respondeu Draco prontamente. – Pensei que só eu e Kevin estivéssemos lá... Mas também nem podia ver, saí do templo e vim direto para cá, correndo, antes que aquilo – Draco teve um calafrio, percebido por Harry – me pegasse...


                -Garras... Templo? – indagou Harry, confuso. – O que...?


                Mas antes que concluísse suas perguntas, a voz de Gina o chamou de cima:


                -Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela, com um tom alarmado.


                -Nada – respondeu Harry. – Fique sossegada. Desça logo! A vida de Hermione ainda corre perigo. Não podemos mais perder tempo!


                Draco fitou Gina por uns instantes, depois olhou para Harry.


                -Vocês não pretendem entrar naquele jardim, pretendem? – perguntou ele, embora, logicamente, sabia a resposta, porém tinha dificuldade em aceita-la.


                -Sim. Iremos.


                -Acho que não precisam de mim, não é? – perguntou Draco, torcendo para que Harry pronunciasse a tão esperada palavra de três letras: N Ã O. Mas...


                -Sim. Agora que está aqui, por razões que eu desconheço, claro, você irá conosco, Draco Malfoy – falou Harry, sentindo uma pontada de prazer ao ver que um novo calafrio havia percorrido o corpo de Draco após a sua resposta.


                O rapaz apenas suspirou. Naquele momento, Gina saltou. Caiu com um baque leve no solo e manteve o equilíbrio. Limpou as vestes sujas de poeira, enquanto falava a Harry, sem olhar para ele:


                -Ainda bem que não tem nada por aqui. Pensei ter escutado você gritando, Harry. Foi imaginação minha e dos outros ou você realmente gritou? Foi algo de pequena importância? O que...? – Gina parou subitamente ao levantar o rosto e encontrar, ali, próximos a ela, no mesmo lugar, não só Harry, mas também Draco Malfoy. Os dois garotos que sacolejavam seu coração ali, tão perto. Seus olhos se revezavam, indo de um rosto para o outro. Após se recuperar, parou seus olhos em Draco e perguntou: – O que faz aqui?


                -Me disseram que eu poderia encontrar você por aqui – respondeu Draco, ficando subitamente constrangido, olhando de esguelha para Harry.


                -Ah, mas só se você andou conversando com a Trelawney ou algum outro vidente – zombou Gina. – Afinal, nunca imaginei que iria parar aqui.


                -Mas... Garantiram para mim que poderia encontra-la nos arredores da estrada – falou Draco. – Assim que eu saí lá daquela sala, após a reunião com Dumbledore. Disseram-me com todas as letras: Gina mandou avisar que logo mais estará lhe esperando, em algum lugar da estradinha que leva ao povoado de Hogsmeade. Kevin topou e eu vim com ele...


                -Onde está ele? – perguntou Gina.


                -Provavelmente morto – respondeu Draco.


                -Mas... Essa história é ridícula! – replicou Gina. – Como alguém pôde afirmar que eu iria vir até aqui para me encontrar com você?


                -Eu juro que me contaram! – teimou Draco. – Viemos correndo, e estávamos na metade do gramado da escola quando a Marca Negra explodiu no céu com todo aquele furor...


                -As sombras que James viu – falou Harry para Gina. – Eram eles, Draco e Kevin.


                -Kevin quis fraquejar, mas eu resolvi continuar. Ao atravessarmos os portões, vi a Gina acenando na entrada que vinha para essa mata.


                -Como eu? – indagou Gina, confusa. – Nunca acenei para você. A essa altura eu, Harry e Rony ainda devíamos estar dentro do castelo, sendo ameaçados pela maluca da Úrsula! Não podia estar aqui!


                -Era você, sem dúvida – afirmou Malfoy, com tanta convicção que, por mais absurdo que aquilo pudesse soar, Gina e Harry acabaram acreditando. – Não foi alucinação, pois Kevin também viu. Quando estávamos nos aproximando, porém, você entrou. Fomos em seu encalce, e vimos quando você entrou aqui dentro. Entramos também, e percorremos todo o corredor até o jardim. Você entrou no templo, e eu e Kevin fomos atrás. Ao entrarmos lá, você tinha desaparecido.


                -Eu nunca estive nesse jardim, tampouco entrei nesse bendito templo! – vociferou Gina, impaciente. Voltou-se para Harry. – Esse lugar me dá arrepios! Já que Draco confessou essa loucura, também quero lhe dizer uma coisa, Harry. Juro por tudo nesse mundo que aquele trasgo que enfrentamos... Bom, ele não era exatamente um trasgo. Juro, juro mesmo, que ele era uma árvore!


                Para surpresa de Gina, Harry não começou a rir, a dizer que aquilo era um absurdo. Ele confirmou com a cabeça e acrescentou:


                -Esse lugar pode mesmo criar coisas terríveis... Os heliopatas, por exemplo, que eu, Rony e Christian enfrentamos, eram absurdos, Gina! Eles eram formados por labaredas de fogo... Eram grotescos, quase irreais... E, depois que quase nos mataram e destruíram metade da mata, quando eu e os garotos nos viramos, a mata estava intacta.


                Rony desceu pela passagem, levando um susto ao encontrar o rosto de Draco. Enquanto ele esbravejava com Draco – inclusive acusando-o – Christian e Padma desciam pela passagem. Estes também se assustaram ao se depararem com outra pessoa ali embaixo, mas a voz de Harry logo apaziguou a confusão:


                -Escutem, perdemos muito tempo. Perder mais tempo explicando para cada um o que Draco faz aqui, irá nos atrasar ainda mais. A vida de Mione está em jogo. Não podemos nos esquecer disso. Então, é hora de entrarmos no jardim.


                Draco, Gina, Rony, Christian e Padma estavam em silêncio. Lentamente, cada um deles assentiu.


                -Coisas esquisitas acontecem daquela mata para cá, como alguns aqui já puderam notar – falou Harry. – Coisas que não eram para existir, mas que existem, e são capazes de nos ferir ou até mesmo matar...


                -Como ilusões – murmurou Draco, lentamente.


                Harry virou a cabeça rapidamente para o jovem:


                -O que disse, Malfoy?


                -Ilusões... Por isso havia, num canto do jardim, aquelas letras gravadas em pedra! As letras formavam um nome!


                -Como...? – tentou perguntar Harry, mas Draco começara a avançar pelo escuro corredor de terra, chamando-os e dizendo:


                -Vocês verão com os próprios olhos... Vocês verão...


                Durante o percurso pelo corredor sombrio, todos eles enfrentaram a terrível sensação de caminhar no vazio. Finalmente avistaram uma passagem que se abria adiante. A atravessaram um por um. Harry foi o segundo a subir, após Gina, e uma exclamação escapou pelos seus lábios.


                Ali estava. O jardim.


                O gramado aparado era de uma beleza incrível, e as flores no solo eram de cores variadas. Harry virou a cabeça e encontrou um belo conjunto de árvores – o lugar onde, provavelmente, Hermione se escondera dos Comensais da Morte. O vasto gramado estendia-se para uma colina. Harry, ansioso, caminhou para ela. Ao subir, a imagem foi se abrindo e ele pôde ver o resto do jardim.


                A colina descia para um lugar ainda mais florido. O caminho das flores era interrompido por um caminho fino de água – o riacho que cortava o jardim. E, do outro lado do riacho, uma enorme pirâmide dourada brilhava, indiferente à escuridão – sim, o brilho saía dela, sem qualquer fonte de iluminação. Por mais louco que aquilo pudesse soar, Harry tinha a impressão de que era feita de ouro puro. A pirâmide ficava sobre uma plataforma de pedra. Harry ficou boquiaberto ante a beleza daquela pirâmide – que, sem dúvida, era o templo que Malfoy mencionara. Atrás do templo, havia um muro baixo de pedra e outra mata densa que fechava o jardim.


                -É impressionante – falou uma voz às costas de Harry, que ele reconheceu como a voz fascinada de Rony.


                -Temos que descer a colina – falou Draco. – Para lhes mostrar o quanto o termo ilusão tem a ver com esse enorme jardim.


                Eles começaram a descer a colina sem grande dificuldade – era ótimo andar sobre aquele gramado limpo, cercado de tão bela flora. As dificuldades maiores eram enfrentadas por Harry, que andava todo torto, devido às costelas.


                Chegaram ao riacho, e Harry viu em seu reflexo, com uma pontada dolorida no peito, que sua postura não estava das melhores. Rony engoliu em seco ao seu lado, constatando o quão terrível era o galo que tinha na cabeça.


                -Vamos! – chamou-os Gina, impaciente.


                Todos pularam o caminho límpido de água. Com a dor, Harry teve que colocar os pés na água para depois pular para a outra margem – se resolvesse pular, provavelmente suas costas explodiriam.


                A vista de Harry chegou a doer quando ele olhou novamente para o templo, que agora estava muito, muito perto. Eles, porém, passaram na frente do templo, guiados por Malfoy – mas, mesmo assim, Harry examinou as escadas de pedra que levavam à plataforma do templo, assim como as estátuas de pedra que ladeavam as portas de ouro. Havia a de um bruxo, com enormes vestes, os braços colados ao corpo, e com uma varinha na mão. Seria normal, se, em sua face, não houvesse apenas um olho. Do outro lado das portas, estava a estátua de um tigre, cujo corpo estava em pé sobre as patas traseiras, e a bocarra aberta, revelando enormes dentes feitos em pedra.


                Draco os guiou até o muro baixo, e apontou:


                -A ilusão tem tudo a ver com esse jardim. Isso que eu queria lhes mostrar!


                Harry leu as palavras gravadas na pedra. O muro era formado por folhas que cresciam em volta dele, e eram somente interrompidas por aquela inscrição.


                O JARDIM DAS ILUSÕES


                -O Jardim das Ilusões – repetiu ele. – Então, pelo que posso entender, tudo o que acontece após a entrada da mata, são ilusões?


                -Ah, faz-me rir! – falou Rony. – Essas são ótimas ilusões, não é? Se esse galo na minha testa, a sua costela esfolada e aquele trasgo “enorme de grande” forem ilusões...


                -É... Eu também não compreendo, Harry – falou Padma. – Se isso tudo é ilusão, como pôde atingi-los?


                -Eu não sei – suspirou ele. – Sei lá... É uma outra forma de ilusão, suponho. São ilusões, mas ilusões que, de certa forma, podem nos atingir...


                -E como – murmurou Rony, esfregando a testa.


                -...como se fossem reais – finalizou Harry.


                -Mesmo assim, vamos logo! – persuadiu Gina. – Úrsula só pode ter entrado no templo com a Hermione, pois não estão por aqui. Vamos, temos que entrar no templo!


                Eles afastaram-se do muro de pedra e chegaram na escadaria. Harry foi o primeiro a começar a subir. Atrás dele, seguiram Gina, Padma e Christian e, na retaguarda, Rony e Draco.


                -Suponho que coisas terríveis nos aguardam dentro do templo – falou Harry, olhando para os outros. – Mas por aqui não precisamos nos preocupar. Draco aconteceu alguma coisa aqui fora quando você subiu as escadas com Kevin?


                -Não – respondeu ele, olhando para todos os lados.


                -Ai! – exclamou Gina. – Tropecei em alguma coisa.


                -Deve ter sido apenas alguma pedra – tranqüilizou-a Harry. – É como Draco disse, nada irá acontecer...


                -AI! – berraram as vozes de Draco e Rony. Os dois, gritando, começaram a subir rapidamente os degraus. Harry procurou ver o motivo da agitação e encontrou: espinhos afiados começavam a brotar dos degraus do fundo, e iam avançando por cada degrau rapidamente.


Harry começou a correr também, avisando aos outros, entre sua respiração ofegante: – CORRAM! OS DEGRAUS ESTÃO SENDO TOMADOS POR ESPINHOS!


                Rony e Draco eram os que estavam em piores apuros. Os espinhos estavam muito próximos dos pés dos dois. Quando os dois retiraram os pés de um degrau, os espinhos surgiram nele – precisavam correr ainda mais, ou senão seriam pegos.


                Harry terminou a escadaria, observando a cena, perplexo. Gina, Christian e Padma chegaram logo em seguida. Olharam para as escadas, vendo o pânico crescente de Draco e Rony.


                Harry fechou rapidamente os olhos quando os dois avançavam para o antepenúltimo degrau, pensando que os espinhos os pegariam. Mas quando os abriu eles estavam avançando para o último, ilesos.


                -Agüentem firme – pediu Harry. Não haveria tempo de eles subirem o último degrau sem serem feridos.


                Harry avançou e, no instante em que os pés de Rony encontrariam os espinhos do último degrau, ele o puxou com tudo para o patamar, utilizando, com dificuldade, a mão esquerda. Um dos espinhos cortou o calcanhar de Rony no momento do salto, e, com um grunhido de dor, ele e Harry caíram sobre o chão de pedra. Harry sentiu suas costelas arderem novamente.


                Rony ajudou Harry a se levantar. Harry procurou ver onde Draco estava, e o encontrou, também caído no chão, e sendo amparado por Gina. Um novo ardor espalhou-se no corpo de Harry – mas não era causado pelas costelas, e sim por um terrível ciúme.


                Logo depois, Gina veio até Harry:


                -Você está bem?


                -Acho que piorei um pouco – respondeu. – Também, fui cair outra vez... Mas agora é melhor entrarmos logo no templo...


                -Como aqueles espinhos brotaram do chão? – perguntou Padma para Harry, mas foi Christian quem respondeu.


                -Provavelmente, na hora em que Gina disse ter tropeçado em algo, aquilo acionou a armadilha. Era uma alavanca.


                -Armadilha? – perguntou Gina. – Até isso teremos por aqui?


                -Esse templo é em formato de pirâmide – explicou Chris. – As pirâmides egípcias continham armadilhas também, para visitantes desapropriados. Esse templo deve estar lotado delas.


                -Chega de papo – ofegou Harry, esfregando as costas com a mão sadia. – Vamos!


                Todos pareceram hesitar, porém, já estavam ali, e não iriam voltar atrás. Assim, avançaram pela plataforma, chegando aos pés das duas estátuas de pedra.

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