Heliopatas, espíritos do fogo
Uma vela estava acesa. Lá fora, o vento uivava com furor. Pequeninos flocos de neve eram levados pela corrente de ar. Enrolado nas cobertas, James olhava a ventania.
A foto.
Aquela foto o intrigava profundamente. Padma, sua amada Padma, lhe mostrara uma foto em que apareciam sua mãe e Michael Evans. Os dois felizes, juntos. Um jardim ao fundo. Um belo jardim.
Olhou para a cama de Christian. O garoto dormia. Ele podia ouvir a respiração regular.
Pensou em acorda-lo e dizer-lhe que ele sempre tivera razão, que Michael Evans realmente existira. No entanto, se fizesse isso, Christian correria até Harry Potter e lhe diria que a mãe de Padma teve grandes proximidades com Michael. Assim, as suspeitas de Harry em relação a Padma, que já eram enormes, iriam aumentar consideravelmente.
Não, ele não iria fazer isso. Padma era sua paixão.
Entre a razão e o amor, ele ficaria com a segunda opção...
Soprou a vela e a escuridão pairou no quarto.
* * *
Harry folheou o diário de Laurie diversas vezes naquela madrugada. A sobrinha de Miss Reynolds... Agora tudo fazia o mais absoluto sentido.
Laurie escrevera que a “Tia Marie” tinha um estilo próprio. Harry recordou os enormes chapéus que a professora usava. Num trecho, ela mencionara que Laurie não deveria dizer a ninguém que ela era sua sobrinha, que tinha uma espécie de medo... Por que? Harry, lendo uns trechos bobos do caderno, sobre amor, tentou encontrar alguma ligação entre tudo o que tinha agora.
“Tia Marie” com medo de que algo atingisse a sobrinha... O círculo que Laurie fizera no caderno, com uma flecha saindo de um dos desenhos mal-feitos que o rodeava, indicando o nome de “Tia Marie”... A tia tentando evitar que alguém descobrisse que a garota era sua sobrinha...
Que ameaça haveria no fato de que Michael Evans descobrisse que Laurie era sobrinha dela?
Harry folheou até o círculo desenhado por Laurie. “Tia Marie”, ou Miss Reynolds, fora uma das vítimas do assassino. E um dos desenhos que rodeava o círculo a indicava. Isso significava que...
Um estalido na mente de Harry. Se aquele desenho em específico indicava uma das vítimas, então os outros também indicavam as vítimas.
Cada desenho indica uma das vítimas do assassino!
Harry colocou o caderno no chão e começou a andar de um lado para o outro do quarto escuro e silencioso. Estava ansioso demais pela descoberta para permanecer deitado.
Faltavam alguns detalhes em relação a isso. Porém, dessa descoberta ele poderia encontrar novos aspectos que colaborariam na resolução dos crimes.
Apesar de as janelas estarem fechadas, Harry estremeceu, sentindo o ar gelado. Encolheu-se e enfiou-se debaixo das cobertas. Mas não iria dormir. Precisava pensar... Pensar...
Pensar muito rápido. Pessoas inocentes estavam pagando pelos homicídios. Pessoas inocentes estavam morrendo. E uma das pessoas inocentes – sua amiga Hermione – estava na terrível fortaleza de Azkaban naquele momento, por conta de crimes – que ele tinha quase certeza – que ela não cometera.
Harry ficou pensando por muito tempo, mas, por fim, acabou adormecendo. Porém, a paz reconfortante que cada pessoa sente quando adormece não foi sentida por ele.
Harry teve a mente invadida por pesadelos horríveis.
Num deles, ele vira Hermione em Azkaban. Harry nunca estivera lá, mas, na concepção de sua mente, era cheia de corredores sombrios, com paredes de pedra onde a luz do sol não podia transpassar, tampouco a alegria de viver. Hermione estava numa das prisões, praticamente largada ao chão, passando a mão pela testa que escorria suor frio. Tremia sem parar e repetia: eles têm que saber. Ela é muito perigosa. De repente, uma aranha entrava por entre as grades e se aproximava da garota. Quando estava próxima aos pés de Hermione, a aranha se transformou em Úrsula Hubbard, que sorriu friamente para a garota e sibilou, num tom frio: Eles estão nas minhas mãos agora. E só começar a movimentar as marionetes. E Harry acordou, a testa molhada, os olhos esbugalhados, ainda escutando a risada aguda de Úrsula dentro de sua cabeça, uma risada que nunca ouvira, bastante diferente da risada doce e gentil da garota.
Respirou fundo e recostou-se novamente no travesseiro.
Era besteira. Um pesadelo tolo. Resolveu esquece-lo.
Levou algum tempo para adormecer novamente e, quando adormeceu, teve mais um pesadelo.
Neste, ele estava num lugar bonito, com um gramado ralo e muito verde. O sol brilhava num céu azul sem nuvens. Em alguns pontos do gramado, havia flores amarelas, em outros, flores cor-de-rosa. Harry podia sentir uma leve brisa fresca ir de encontro ao seu rosto, envolvendo-o numa gostosa sensação. De repente, o calor do sol que fustigava seu rosto era interrompido por uma nuvem negra que tapou o astro luminoso. Harry abriu os olhos. O jardim continuava o mesmo, mas parte de sua beleza foi enegrecida pela nuvem. Atrás de si, Harry ouviu passos macilentos caminhando lentamente sobre o gramado esverdeado. Ao virar-se, deparou com Michael Evans vindo ao seu encontro, com a mesma máscara e um enorme machado em uma das mãos e a varinha na outra. O sangue de Harry gelou. Seus pés pareciam colados ao gramado. Quando fez menção de começar a correr, já era tarde demais. Acompanhado de um relâmpago que fustigou o céu enegrecido e tomou o jardim de um clarão sinistro, Harry sentiu a mão do assassino segurar-lhe pelo o ombro e o machado descer em sua direção, atingindo-lhe a carne. Harry sentiu uma pequena pontada de dor. O sangue esguichou num jato fortíssimo e ele despertou, mais trêmulo e suado, com a camisa do pijama colada ao corpo devido ao volume de suor.
O garoto secou a testa no lençol. Ainda trêmulo Harry puxou a coberta toda sobre sua cabeça, mergulhando na escuridão. Ainda tinha a respiração ofegante. Fechou os olhos e as imagens do pesadelo retornavam, vívidas, como se estivessem se passando novamente, talvez com uma intensidade ainda maior do que a primeira. Seria difícil adormecer novamente, não somente por causa da lembrança dos dois pesadelos, mas também pelo receio de que, ao fechar os olhos, seu subconsciente produzisse um novo, mais terrível do que os outros dois – será que seria possível algum pesadelo ser pior do que este último?
Porque ele sentira o sangue esguichar no sonho, num jato forte de líquido vermelho voando, no momento em que a lâmina do machado encontrou sua carne. Fora demasiado real. O que seria aquilo? Seria uma premonição? Aquilo realmente aconteceria?
Harry sentiu um ligeiro calafrio ante essa possibilidade.
“Que noite”, pensou, triste. “Será que nem durante a noite poderei ter paz?”.
“Não”, respondeu para si mesmo, ainda em pensamento.
Harry forçou a mente a apagar por alguns instantes as imagens de seus pesadelos. Desistiu após alguns segundos. Era impossível.
A aranha se transformando em Úrsula Hubbard... Eles são marionetes... Hermione presa... Sofrendo numa cela fria... O jardim belíssimo... Passos... Passos... Cada vez mais próximos... Michael Evans... Segurando o machado... O machado penetra em sua carne... Sangue... Muito sangue... Michael Evans... Michael Evans…
Harry remexeu-se na cama, inquieto. Desistiu de dormir. Com raiva, jogou longe o travesseiro e os cobertores. Na cama ao lado, Rony mexeu-se por um momento, mas logo se imobilizou novamente. Harry levantou-se e encaminhou-se até a janela.
O vidro estava embaçado, e do lado de fora a neve caía em pequeninos flocos. O inverno se aproximava lentamente. Harry ficou olhando para o céu meio encoberto, procurando os pontos luminosos que teimavam em continuar pontilhando a imensidão azul, como se estivessem se esgueirando por entre as nuvens.
Não sabia quanto tempo passara ali, fitando o céu. De repente, sua atenção foi chamada pelo movimento vindo dos terrenos salpicados de pontos brancos.
Uma sombra se esgueirava pelo gramado. Vestia uma roupa negra, que se remexia devido à força do vento. Harry forçou a vista. A figura carregava alguma coisa consigo, sem muita dificuldade.
O garoto levou um susto ao perceber o que era.
Um corpo.
Só podia ser um corpo. Apesar de estar enrolado, alguma coisa dentro de sua mente o levava a crer que só podia ser um corpo.
E, sendo um corpo, quem o carregava só podia ser Michael Evans.
Harry fez menção de levantar-se e sair para contar a alguém que o assassino estava bem ali, que podiam pega-lo. Porém, ele sumiu na escuridão, por entre árvores frondosas.
Harry suspirou.
Poucos segundos depois, sua atenção foi novamente chamada para o local onde vira o assassino. Só que quem vinha logo atrás era um aluno. Que tinha o nome na lista das vítimas.
Christian Baker estava lá fora atrás do assassino.
O sangue de Harry congelou por dentro de seu corpo. Sem pensar duas vezes, correu até a cama de Rony e cutucou o amigo.
-O que foi, Harry? – perguntou Rony, com a voz fraca.
-Vamos... Rápido! Se corrermos, poderemos salvar uma vida...
-O que...
-Christian Baker! Está lá nos terrenos, bem atrás do assassino! Temos que correr, Rony! Correr!
Rony levantou-se lentamente. Harry correu e apanhou a capa da invisibilidade e sua varinha.
-Dessa vez vamos prevenidos – falou, quando o amigo acabou de se levantar. – Anda logo, não podemos perder tempo!
Quando saíam pelo buraco no retrato, Harry pensou que estava certo ao imaginar que pesadelos piores poderiam vir naquela noite.
O que ele não esperava era que o próximo pesadelo seria real.
* * *
Não passou muito tempo e Harry e Rony já alcançavam as grandes portas do castelo, cobertos pela Capa da Invisibilidade. No caminho não encontraram nenhum obstáculo.
Abriram a porta ao verificar que a barra estava limpa, e saíram para os terrenos salpicados de neve do castelo.
Harry recordou onde vira os dois correndo e apontou para Rony.
-É por aqui – disse, sua voz saindo acompanhada por uma lufada de fumaça.
Os dois quase corriam por debaixo da capa. A mente de Harry maquinava. O que dera na cabeça de Christian para se arriscar, indo atrás de Michael Evans?
Caminharam e caminharam. Harry notou que estavam se encaminhando para a saída da escola. Os portões ladeados por javalis alados se encontrava bem em frente.
-Vamos ter que... sair? – perguntou Rony, tremendo ligeiramente.
-Acho que sim – respondeu Harry que, apesar de estar tão apavorado quanto o amigo, estava disposto a sair para salvar Christian.
Passaram pelos portões, sentindo um nó na garganta. Ultrapassar os limites da escola significava um perigo ainda maior. Muito maior.
Estavam na estrada agora. Uma lufada de vento gelado veio com força, fazendo os dentes de Harry começarem a ranger. A seu lado, Rony se encolhia, de frio e, principalmente, de pânico. Pareciam duas inocentes ovelhas indo até o lobo mau.
A estrada estava aparentemente tranqüila. De um lado, tinham somente árvores e arbustos, cobertos por uma fina camada de neve.
-Estou com medo, Harry – confessou Rony. – Está calmo demais.
Caminharam por mais uns cinco minutos, quando o primeiro sinal de movimentação surgiu. Harry segurou a varinha com força.
Eram vozes. Aproximando-se cada vez mais. Harry e Rony continuaram caminhando, mais lentamente agora, procurando algum sinal. As vozes se tornavam mais nítidas, porém, eles não conseguiam encontrar quem estava conversando.
Harry se aproximou dos altos arbustos. As vozes pareciam vir de algum lugar do lado de dentro. Arriscando-se, Harry remexeu os arbustos e bisbilhotou para dentro.
Nada.
-De onde vêm essas vozes? – perguntou para si mesmo.
-Você realmente quer saber? – indagou Rony. – Por mim, iríamos embora agora mesmo e esquecíamos tudo isso.
-Não – cortou Harry. – Se já estamos aqui, vamos até o fim.
Enquanto Harry ia adentrando o matagal, um pensamento veio para a mente de Rony. Que fim? A nossa morte? Mas ele resolveu guardar esse péssimo pensamento para si.
Entraram no meio da mata. Em alguns pontos, a neve não os alcançava. Apesar de estarem protegidos pela capa, caminhavam com cuidado. Os passos ecoavam baixinho, devido às últimas folhas do outono que jaziam no solo.
Caminharam muito, tensos, até chegarem ao final da mata. As vozes ainda podiam ser ouvidas. Harry analisou através do campo auditivo, indo à procura de onde as vozes se tornassem mais fortes. Havia um buraco, próximo ao fim da mata, e ele se aproximou. As vozes, por incrível que podia parecer, ficaram mais altas bem ali.
Harry colocou o ouvido próximo ao buraco.
-O que está fazendo? – perguntou Rony. – Eu aqui, apavorado, e você agachado brincando de índio?
-Não estou brincando de índio. É que as vozes parecem mais altas por aqui.
-O que? Acha que eles estão conversando dentro da terra?
-Não, mas...
Uma mão voou de dentro do buraco com estrondo, salpicando terra para todos os lados, e pegou a perna de Harry, fazendo-o tombar no chão.
Rony saltou para trás, devido ao pânico. A mão puxava Harry para dentro, mas ele resistia. Arranhava as unhas no solo, tentando resistir a força daquela pessoa que o puxava.
-Rony... Ajude-me – pediu, em pânico, sentindo que não iria resistir por muito tempo.
Rony aproximou-se e, quando fez menção de estender a mão para o amigo, alguém se adiantou, saindo de algum lugar às suas costas, e estendeu as mãos para o garoto. Era Christian Baker.
-Segure firme, Harry – pediu.
Harry segurou as mãos do garoto e impulsionou seu corpo para cima. Rony também ofereceu ajuda, segurando os cotovelos de Harry. Eram quatro mãos ajudando Harry, e apenas duas tentando puxa-lo para baixo, vindas de dentro do buraco. A força que vinha do lado de cima prevaleceu e Harry sentiu as mãos que o puxavam por abaixo vacilarem. O corpo de Harry saiu do buraco e ele caiu no chão de terra, de costas, completamente exausto.
-Obrigado – agradeceu a Christian, suspirando de alívio. – E olha que nós é que viemos lhe ajudar...
No entanto, naquele instante, o momento de alívio foi quebrado pela voz fria que saía de dentro do buraco. Ela parecia ordenar alguém, com grande ferocidade.
-Heliopatas, vão!
Harry já ouvira aquela palavra antes. Seu sangue gelou mais uma vez naquela noite, dessa vez com uma intensidade absurda, tornando-se mais gelado de que o frio que pairava na madrugada. Lembrou-se de onde ouvira.
Luna Lovegood, no ano anterior: São espíritos do fogo, figuras altas, grandes e flamejantes que galopam pela terra queimando tudo que encontram... E, quando todos duvidaram – as histórias de Luna eram realmente absurdas – ela completara, dizendo que havia testemunhas oculares.
Harry percebeu que, nessa noite, poderia se incluir no meio dessas testemunhas.
-O que são heliopatas? – perguntou Rony em voz alta.
-Corre – avisou Harry, e disparou, abandonando a capa e segurando-a na mão.
Os três dispararam pela mata. Harry pensou se o assassino não estava tirando uma com a cara dos três. Afinal, a lenda dos heliopatas era totalmente absurda.
Absurda ou não, Harry ouviu a primeira rajada de fogo ás suas costas, queimando uma enorme árvore seca. O calor era forte. Sem dúvida, algo realmente cuspira fogo lá atrás.
Harry corria sem parar, com certa dificuldade por causa do pânico, que só ajudava a piorar a situação. Uma nova rajada de ar quente foi sentida às suas costas, e Harry ouviu o estalo da madeira se queimando.
Como poderia acontecer aquilo? Heliopatas não podiam existir... Harry não ia conseguir resistir em dar apenas uma olhadela na coisa que os perseguia. Precisava se certificar de que aquilo às suas costas não eram heliopatas.
Virou rapidamente a cabeça, sem deixar de correr, e viu... Ele viu.
Os espíritos do fogo... Eram realmente espíritos, pois tinham uma aparência estranha. Os heliopatas eram enormes, vermelhos, e tinham labaredas de fogo saltando pela pele escamosa. Sim, Harry podia ver a pele escamosa, iluminada pelo fogo. Era como um animal. Andava sobre quatro patas enormes. A cabeça assemelhava-se a de um lagarto, e Harry lembrou dos dinossauros de brinquedo que vira no quarto de Duda, há muito tempo atrás. Só que, pensou ele com uma reviravolta no estômago, os heliopatas tinham a aparência muito pior. Dinossauros não irradiavam fogo da pele. Não tinham aquela horrível pele vermelha enfeitada de labaredas. Parecia ser uma mistura de dinossauro com dragão. Eles avançavam com uma fúria incontrolável. De seus focinhos e boca eles cuspiam o fogo, em chamas enormes.
Harry virou-se novamente para frente, porém, tropeçou num galho caído no chão.
E caiu.
Rony interrompeu sua corrida e voltou para oferecer ajuda ao amigo, juntamente com Christian Baker.
Rony levantou os olhos para os heliopatas e quase desmaiou. Christian ajudou Harry a se levantar, com os olhos virados para os heliopatas que estavam perto demais.
O galopar tornou-se nítido. Quando Harry impulsionou seu corpo, com a ajuda de Christian, os dois heliopatas passaram entre eles, separando as mãos dos dois. Christian caiu no chão, assim como Harry.
Harry sentiu a mão arder. No local onde o heliopata encostara ao passar entre eles, havia uma leve queimadura de raspão e um corte, que já começava a sangrar.
Os heliopatas pararam a marcha ao ver que eles tinham ficado para trás e viraram-se. Christian juntou o máximo de esforço que podia, levantou-se e correu para ajudar Harry novamente. Rony, em estado de pânico, estava parado atrás de uma árvore, escondido daqueles horríveis – animais, espíritos, coisas.
Harry olhou para o lado ainda sentado no chão. Um dos heliopatas vinha em sua direção. Harry tentou apoiar-se no chão, e se levantar, mas sua mão estava queimando feito brasa.
-Anda logo, Harry. Vamos! – bradou Christian ao estender-lhe a mão.
Harry segurou firme a mão do garoto com sua mão sadia e foi puxado no instante em que o heliopata alcançou o lugar onde estava deitado. Harry sentiu o forte calor passar bem perto de sua pele.
Harry olhou ao redor e encontrou Rony em seu esconderijo.
O pior era que o outro heliopata corria na direção do amigo.
-Rony, cuidado! – gritou Harry, no que o amigo olhou para o animal vindo em sua direção e jogou-se para o lado. O heliopata bateu com força no tronco da árvore, que começou a queimar no mesmo instante.
Rony estava encolhido no meio da grama. A árvore em que o heliopata colidira era seca, e começou a estalar fortemente.
-Ela vai despencar! – exclamou Harry.
Nem teve tempo de analisar melhor. O outro heliopata vinha em sua direção, com toda a força, seus olhos negros vazios, soltando labaredas por todo o corpo.
Harry tomou impulso e, quando o animal estava chegando perto, deslizou o corpo pelas folhas, puxando Christian junto, e eles passaram por baixo do corpo super aquecido do animal.
O heliopata foi com tudo e bateu na mesma árvore em que o outro colidira, caindo desacordado.
A árvore seca balançou ainda mais e foi tomada por uma nova rajada de fogo. Estalos, estalos, estalos. Ela começou a balançar.
E, se caísse, iria bem na direção de Rony, que ainda estava deitado, apavorado, no meio das folhas.
Harry não pensou duas vezes. Ele e Christian começaram a correr o máximo que podiam. Ao redor, tudo crepitava. Tudo era fogo...
A árvore inclinou-se, indo ao encontro fatal com Rony. Inclinou-se mais e mais. Harry e Christian alcançaram Rony, agachando-se, no último segundo antes da árvore tocar o chão.
Uma grande rajada de fogo saltou quando a árvore em chamas tocou o solo recheado de folhas secas.
Finalmente alcançaram a saída da mata. Porém, continuaram correndo, apesar de todas as dores que sentiam em todo o corpo e do cansaço pela fuga.
Correram alguns metros e pararam. O cansaço era muito grande. As pernas estavam bambas, como se estivessem prestes a parar de funcionar.
Harry deu uma olhadela para trás.
Não podia acreditar.
A mata, onde encontraram os heliopatas, que tinha as árvores chamuscadas e um incêndio se anunciando, não tinha mais fogo algum. Nenhum clarão podia ser visto mais, nem a fumaça negra irradiada de um incêndio. Nada. As árvores estavam lá, balançando com o vento, como se nada tivesse acontecido.
Harry balançou a cabeça e esfregou os olhos com os dedos. Sua cabeça girava.
-Não posso acreditar – murmurou, entre a respiração ofegante. – Por favor, olhem lá e... Digam que não estão vendo o que estou vendo...
Christian e Rony olharam. O queixo de Rony foi ao chão. Christian passou uma mão pela testa suada.
-É impressionante – exclamou, com a voz quase num sussurro. – Não tem mais nada.
-Nem uma fagulha – sussurrou Harry, exausto.
-Minha nossa... Com quem estamos lidando? – perguntou Rony, com a voz seca.
-Com Michael Evans – respondeu Christian. – Mas nunca imaginei que ele fosse capaz de tudo isso... Ele tem mais poderes do que pensávamos, Harry. Vencer essa batalha vai ser muito difícil.
Harry esfregou os olhos novamente. Queria muito acreditar que toda aquela terrível noite tivesse apenas passado de um pesadelo.
Mas não. Era real. O pior de tudo era que era real. Lá estava a mata, normal. Nenhum sinal dos heliopatas. O que ele não daria para acordar em sua cama, suado e trêmulo, mas percebendo que nada tinha passado de mais um pesadelo.
Queria muito. Mas pontos do seu corpo ardiam, e uma de suas mãos tinha uma leve queimadura e um corte. Sinais de que aquele pesadelo maluco tinha acontecido realmente.
Caminhando até o castelo, agora sob a capa, Harry pensou que, considerando os fatores de ilusão contidos no ocorrido, como os heliopatas, aquele foi o pior pesadelo daquela terrível noite de novembro.
* * *
É evidente que, naquela noite, tanto ele como Rony não conseguiram dormir, e presumiam que Christian também estava acordado naquele instante.
Fazia muito tempo que haviam chegado. A madrugada já dava lugar para a manhã, e, do lado de fora, o céu ia clareando lentamente. Os dois estavam no salão comunal, sentados no canto mais afastado da lareira – já tinham visto fogo demais.
Harry improvisara um curativo sobre o corte da mão. A leve queimadura iria deixar para quando amanhecesse, indo até a ala hospitalar e dando qualquer desculpa para Madame Pomfrey.
Rony tinha um corte na perna, por causa da hora em que desviou do heliopata que avançara para ele.
-Pra mim, o pior de tudo não são os ferimentos – comentou Harry, ainda chocado, com o olhar vazio. – O pior foi ter visto aquelas... coisas horríveis, e depois olhar para trás e ver que a mata estava absolutamente normal. Olha, Rony, se eu estivesse sozinho, diria que tinha enlouquecido. Diria que tudo não passou de uma alucinação. O problema é que eu não estava sozinho, e você e Christian também viram. Não tem como dizer que tudo aquilo não aconteceu...
Rony apenas confirmou com a cabeça. O choque ainda o estava afetando.
-Voldemort deixou poderes demais para o Michael Evans. Poderes, entretanto, que ele só pode usar fora da escola.
-Ainda bem – suspirou Rony. – Já imaginou aquelas coisas cuspindo fogo pelos corredores da escola.
-Michael é realmente muito perigoso... Temos que apanha-lo o mais rápido possível.
-De preferência aqui na escola, porque eu não estou nem um pouco a fim de enfrentar Michael Evans quando ele estiver rodeado por aqueles monstros.
-A cada dia torna-se mais urgente a prisão desse maluco... Hoje é sábado... Vamos aproveitar para formar uma nova reunião de suspeitos.
Harry encarou Rony.
-É questão de vida ou morte, Rony. Ou prendemos esse maluco, ou somos assassinados por ele ou assados por aqueles heliopatas.
* * *
Quando ele e Rony começaram a interromper a manhã de sábado dos suspeitos – para desgosto destes, já que todos queriam se divertir patinando no gelo ou montando bonecos de neve – , foram recepcionados por feições de surpresa.
-Por que uma reunião? – perguntou Padma Patil, que fora convocada junto com a irmã. – A assassina já foi presa.
-Pensei que não precisávamos mais nos reunir – estranhou Gina, corada devido à presença de Harry.
-Perda de tempo – respondeu Jennifer Yumi, ao lado de James e Christian, que escondera dos amigos o ocorrido com os heliopatas.
Porém, todos cederam após Harry explicar vagamente que o caso talvez ainda não tivesse se encerrado, com exceção de Draco Malfoy e Kevin Wallace.
-Não vou para mais nenhuma dessas reuniões idiotas – sibilou Malfoy. – Todos sabem que a assassina está presa, aliás, a melhor amiga de vocês.
-A Granger Sangue-Ruim – debochou Kevin. – Foi uma pena... ela era um espetáculo!
Harry interrompeu Rony, que já ia avançando para o garoto com o punho fechado. Tentava ser simpático com Draco e Kevin, para tentar fazer com que os dois cedessem ao pedido.
-Talvez não esteja solucionado – falou Harry.
-Pra nós está, Potter – falou Draco, com a voz fria. – Não vamos mais às suas reuniões. Afinal, a pessoa que as comandava era a melhor amiga do assassino... Aliás, é você mesmo, não é?
Harry aproximou-se mais do garoto e o encarou.
-Tudo bem, Draco. Não vá. Só guarde uma coisa. Talvez você e seu amigo não sejam o assassino...
-Não somos – interrompeu Kevin, levantando o dedo indicador.
-...então se incluiriam no meio das vítimas. Por isso, é melhor irem na reunião. Temos evidências de que ainda há um assassino aqui na escola. Se vocês querem que ele seja preso antes de decepar vocês e de lhes cortar as tripas, é melhor irem até a reunião e colaborarem.
Harry fez uma expressão de suspense e saiu, acompanhado de Rony. No horário da reunião, às três da tarde, Draco e Kevin já estavam à espera no local combinado com todos.
Todos compareceram. Harry abriu a porta camuflada e todos os suspeitos – sete no momento, excluindo ele, Rony e Hagrid.
Os sete caminharam até o palco de madeira e se sentaram ao redor, como sempre faziam. Harry sentiu um aperto no estômago ao ver que o número de alunos diminuíra. Estavam sendo liquidados um a um. Com um novo aperto, imaginou quais estariam ali na próxima reunião. E se ele próprio também estaria.
Encostou a porta e dirigiu-se ao centro do palco de madeira. Pigarreou e começou.
-Sei que muitos podem estranhar essa nova reunião, já que Hermione Granger foi presa acusada dos assassinatos ocorridos na escola, e agora cumpre uma severa pena em Azkaban...
-Bem feito – disse Draco, com sua voz arrastada carregada de arrogância. – Foi pega com a boca na botija, ou melhor, com a mão na faca.
Apenas Kevin Wallace riu da piadinha. Harry olhou rapidamente para Rony, e viu que o rosto do amigo tinha se avermelhado como se fosse explodir.
-Como eu ia dizendo... Apesar da prisão de Hermione, tenho razões para afirmar que ainda há um assassino solto aqui em Hogwarts.
-A única assassina era aquela sangue-ruim – retornou Draco a provocar. – Vocês querem é encontrar um novo culpado, para livrar a cara daquela psicopata.
Rony fechou os punhos, o rosto agora ardendo como pimenta.
-A coitada da Úrsula... Quase morreu. Ficou com um corte enorme no braço. Causado por quem? Pela maluca da Granger. Aquela assassina. Tomara que apodreça na cadeia. Tomara que seja assassinada na cadeia, derramando na cela seu sangue-ruim...
Rony não se controlou e pulou para cima de Draco, derrubando-o do pequeno palco. Rony deu um soco no rosto do garoto. Draco começou a gritar. Harry e Kevin seguraram Rony, impedindo-o de ir em frente.
-Eu devia estourar a sua cara! – vociferou Rony, ofegante.
Kevin foi até Draco, ampara-lo, e ao abaixar-se viu as lascas de madeira que saltaram da lateral do pequeno palco. Franziu a testa, intrigado.
-Harry... Venha ver isso.
Harry desceu do palco e aproximou-se do local onde Kevin indicava. Assim que bateu os olhos, franziu a sobrancelha.
-Há algo por baixo... – murmurou. – Por favor, Kevin, puxe para cima lá do outro lado.
Kevin foi até o outro lado do palco e encontrou um espaço onde colocou os dedos e empurrou para cima, com certa dificuldade. Harry fez o mesmo.
E a madeira foi saindo. E revelando algo por baixo. Quando a superfície de madeira finalmente foi retirada, Harry e Kevin colocaram-na num canto e voltaram-se para olhar o que havia por baixo.
Era impressionante.
Era o círculo. O círculo do assassino.
O palco circular havia sido pintado por baixo. Havia diversos desenhos ao redor do círculo. Todos coloridos, bem-feitos. Mas eram os mesmos desenhos, o mesmo círculo.
E abaixo do círculo havia uma inscrição: Jovens Anti-Trevas.
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