Um beijo e um fato



CAPÍTULO 32 - Um beijo confuso e um fato: quem é tia Marie


O resto do dia foi desanimador. A ausência de Hermione pesava sobre a mente de Harry e Rony. O pior era a incerteza se Hermione realmente era um dos assassinos ou se ela, de alguma forma, não tinha nada a ver com tudo aquilo.


                Rony não conseguiu comer nada na hora do jantar. Harry, vendo que o estado do amigo era deplorável, chamou-o rapidamente e os dois subiram para o salão comunal.


                Sentaram-se em frente à lareira. Harry tentou dar uma injeção de motivação no amigo.


                -Lembre-se do que combinamos hoje, Rony. Vamos descobrir quem é esse assassino! De alguma maneira iremos descobrir!


                -Mas... Como? – perguntou Rony, com a mesma expressão de desânimo. – Já estamos investigando faz tempo e... Nada!


                -É verdade... Mas, até agora, só reunimos os suspeitos. As pistas foram muito vagas. A única coisa que precisamos para avançar é ter uma pista concreta.


                -Ah, e de onde surgirá essa pista? – perguntou o garoto.


                -Não sei... – Harry ficou pensativo. – Mas ela pode surgir sem que nós nem percebamos... Às vezes, essa pista já existe, mas nós não nos demos conta dela...


                -O que sabemos até agora? – perguntou Rony.


                -Uma das coisas mais importantes que descobrimos foi aquele diário da Laurie, que o Baker e o Smith nos passaram. Mas a única coisa que conseguimos achar lá foi o círculo que o assassino deixa ao lado dos corpos das vítimas, com uma seta que saía de um dos desenhos e indicava a tal “Tia Marie” que, claro, é uma das professoras da escola.


                -Será que é mesmo, Harry? – indagou Rony, em dúvida.


                -Estava escrito...


                -Marie... Qual das professoras teria esse nome oculto? Minerva Marie McGonagall? Sibila Trelawney Marie? Ai... São tantos nomes... Sinto como se estivesse consultando o Livro da História.


                -Mas é claro! – Harry levantou-se de um salto. A sala comunal estava vazia, com exceção dos dois. – O Livro da História! A Sala de Arquivo!


                -O que você...?


                -Rony! O Livro da História traz os nomes dos alunos! Provavelmente, em algum lugar dele deve constar os nomes dos professores de Hogwarts!


                Rony engoliu em seco. Não queria retornar à Sala de Arquivo. Lembrou-se de quando foi até lá com Hermione. Recebera uma pancada na cabeça de um dos arquivos, além do medo de ser apanhado por um dos professores da escola naquela sala ultra-secreta.


                -Você acha que é necessário ir até lá? – perguntou, receoso.


                -Acho. Vamos esperar até todos irem dormir para irmos até lá. A vigilância de Filch vai diminuir, já que eles prenderam a Hermione. Será fácil chegar lá sem problemas...


                -Será que descobrir quem é Tia Marie vai ajudar em alguma coisa?


                -Claro que vai! – exclamou Harry. – Tia Marie pode ser a chave que precisávamos para começar a se aproximar do assassino.


 


* * *


 


                Esperaram o tempo passar ali mesmo, na sala comunal. Os alunos voltaram do jantar, permaneceram por lá, alguns conversando, outros estudando; uns sete alunos vieram até eles perguntarem sobre Hermione – embora Harry e Rony tivessem consciência de que todos só queriam que eles confirmassem que a garota era a assassina, para que tivessem uma “informação precisa” e pudessem espalhar pela escola inteira.


                Para distrair, os dois se empenhavam em uma partida de xadrez de bruxo. Rony apoiava o cotovelo sobre a mesa e segurava a cabeça com a mão. Estava muito desanimado. Tanto que Harry estava dando um banho no jogo.


                Harry suspirou.


                -Acho melhor pararmos, Rony – sugeriu ele. – Você não está bem...


                -É muito complicado absorver tudo o que aconteceu, Harry – respondeu o garoto, levantando os olhos cansados para o amigo. – Até hoje de manhã, tudo estava bem, às mil maravilhas. Eu e a Mione éramos um casal feliz. Um casal que tinha acabado de se juntar, mas estávamos tão felizes... É difícil acreditar que, num segundo, tudo desabou... Agora ela está presa, em Azkaban, e eu estou aqui, bem longe dela... E ainda existe o fato de ela ser um dos assassinos...


                -Espera um pouco, Rony! – interrompeu Harry. – Não tem como afirmarmos por enquanto que Hermione é um dos assassinos...


                -Eu sei... O nosso pacto de apanhar o assassino, e coisa e tal... Mas... O braço de Úrsula... Eu vi a faca entre ela e a Úrsula. Harry é evidente: Mione tentou matar a Úrsula.


                -Não diga uma coisa dessas...


                -Úrsula tem razão... Naquele dia em que o assassino saiu de dentro da armadura... Quando eu avancei para cima do assassino, ele desviou e quem foi ferido fui eu, pela lança que estava sendo segurada por ela. Foi muito estranho. Hermione não teve nenhum ferimento. Isso me faz pensar que...


                -Rony, lembre-se do nosso trato! Descobriremos se isso é verdade. Tente esfriar a cabeça!


                Rony respirou fundo e olhou ao redor.


                -Harry... Essas pessoas vão levar um tempo até irem deitar... Será que posso descansar um pouco antes de irmos até a Sala de Arquivo?


                -Claro Rony. Vá descansar. Quando todos irem dormir, eu vou chamar você.


                Rony deu um tapinha no ombro do amigo e subiu, com os pés se arrastando pelo chão. Harry ia guardar o jogo de xadrez, quando Gina se aproximou da mesa onde ele se encontrava, puxou a cadeira de Rony e sentou-se.


                Harry sentiu um certo nervosismo ao olhar para a garota. Não sabia se o nervosismo decorria do fato de ser a primeira vez que ele conversava com ela desde que deixara escapar que ela era linda, ou se era pelo olhar de alegria do rosto dela, que denotava a satisfação pela prisão de Hermione.


                -Não vai me convidar para terminar a partida? – perguntou.


                -Para que irei convidar se você já está se convidando? – falou Harry, ríspido.


                -Entenderei essa frase como um “sim” – disse a garota.


                -Por que está tão animada? – perguntou ele. – Tudo isso é porque a Hermione foi presa?


                -Ela destruiu a minha vida e a da minha família, não é? Estava namorando o bobo do Rony... E, além de tudo, era a assassina. Não deveria estar feliz?


                Harry aproximou o rosto da garota.


                -Gina... O que está acontecendo com você? – perguntou. – Olha... Eu sei que você não é assim...


                -Assim como?


                -Assim... Tão irônica... Tão arrogante... Desejando o mal das outras pessoas... Isso tudo não faz parte da Gina que eu conheço há seis anos...


                -É impressão sua – falou Gina. – Eu continuo a mesma.


                -Não... Não continua. Eu não consigo entender como você, que sempre foi tão simpática e meiga, possa ter mudado tanto em tão pouco tempo...


                Gina sustentava seu olhar desafiador.


                -Você está enganado. Eu...


                -Gina, você sabe que eu não estou enganado. No fundo, você sabe. Olhe para si mesma e veja como você mudou. Talvez por influência de alguém, e...


                -Se está sugerindo que foi tudo culpa do Malfoy, eu...


                -Não, não estou acusando ninguém – disse Harry. – Pode ser qualquer um. Às vezes, uma pessoa que você nem imagina acabou causando essa mudança.


                Gina não falou nada. Após alguns instantes de silêncio, Harry segurou a mão da garota e apertou-a.


                -Olhe dentro de você, Gina. Encontre a antiga Gina. Ela ainda está aí dentro. Só esperando que você a ressuscite. Aí, você verá como todos essas coisas ruins sairão de dentro de você.


                Gina pareceu comover-se por um momento. Porém, fez menção de rebater, e Harry a interrompeu novamente.


                -Eu só quero te ajudar – falou o garoto, carinhosamente.


                O corpo de Harry se inclinou ainda mais sobre a mesa. Sua mão apertou a de Gina com mais força. A garota o olhava fixamente, com a boca ligeiramente aberta... Seu corpo também se inclinou... Os rostos dos dois iam se aproximando lentamente... Gina e Harry fecharam os olhos, esperando o momento mágico em que seus lábios se encontrariam... O fogo crepitava na lareira... A respiração de ambos era rápida... Os lábios finalmente se juntaram. E, quando isso aconteceu, pareceu que o encanto que Gina sentia foi quebrado. Gina se afastou de Harry, assustada. Os olhos arregalados de Gina encontraram os olhos confusos de Harry.


                Gina olhou ao redor. Os alunos que ainda se encontravam na sala comunal os olhavam. Gina corou.


                -O que foi que eu fiz? – perguntou para si mesma, levantando-se da cadeira rapidamente, derrubando-a no chão. – Oh – exclamou. Ia subir para o quarto, quando Simas chamou por seu nome.


                -Gina! – ela olhou, mais vermelha do que nunca. – Tem uma pessoa que quer falar com você.


                Gina voltou-se para a sala comunal, evitando olhar para os rostos que ainda a encaravam. Atravessou a sala de cabeça baixa e saiu, ao encontro da pessoa que a esperava – a qual ela nem sabia quem era e até esquecera de perguntar o nome para Simas.


                A pessoa que a esperava estava encostada na parede bem ao lado do quadro da Mulher Gorda. Era Malfoy. Gina suspirou. Aquele não era seu dia.


                Malfoy a fitava, sorrindo. Ela ainda olhava para o chão. O garoto levou a mão ao rosto dela, para levantar-lhe, mas Gina recuou, evitando-o.


                -O que você está fazendo aqui, Malfoy? – perguntou, finalmente levantando a cabeça e o encarando.


                Sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. A mesma sensação que ela sentia ao ver Harry, e que sentira agora pouco quando se sentou na frente do garoto. A mesma sensação... Então, ela estava apaixonada pelos dois... Dividida...


                -Vim te ver – respondeu ele, sorrindo. – Estava com saudades, e...


                -Draco, nós já conversamos sobre isso – falou Gina. – Olha, não vai dar, e...


                -Por causa de sua família, etc, etc, etc... – disse o garoto. – Mas, se não fosse por isso, você me daria uma nova chance?


                Gina respirou fundo. Não sabia responder... Seu coração pulsava forte. Achava que sim... Se não houvesse tantas barreiras que impedissem seu relacionamento com Malfoy, talvez ela fraquejasse e voltasse para o garoto.


                Mas também tinha o Harry... O beijo... O beijo tão aguardado... E que ela recuara logo no início, com medo de se entregar à paixão, sem saber se era realmente paixão...


                Estava tão confusa... Tão confusa...


                -Gina? – chamou-a Draco, ao ver que a garota estava com a mente desligada.


                Gina balançou a cabeça, despertando dos pensamentos confusos e respondeu a Draco:


                -Olha... Draco… Isso não importa... Não faria a menor diferença. Não mudaria nada...


                -Pra mim mudaria – falou Draco, aproximando-se mais. Gina sentiu o perfume do garoto invadir-lhe as narinas. Aquele aroma tão conhecido e que ela adorava sentir entorpeceu-a e fez a mente confusa da garota confundir-se novamente. – Para mim, saber que você só está afastada de mim por causa da opinião dos outros faria uma grande diferença. Assim, saberia que é tudo contra a sua vontade e que você ainda gosta de mim.


                Gina, sem olhar nos olhos do garoto, se despediu, com a voz vacilante:


                -Lamento, mas... Tchau, Draco...


                Ela entrou rapidamente na sala comunal. Antes que a passagem se fechasse às suas costas, Gina ouviu Draco gritar, desesperado:


                -Você não me respondeu! Responda! Gina! Gina! Por...


                A passagem finalmente se fechou e abafou o grito de Draco. Gina passou pela sala comunal – novamente sem olhar ao redor – e subiu as escadas que levavam aos dormitórios. Nem percebeu que Harry continuava na sala, esperando que o restante dos alunos subisse para que ele pudesse chamar Rony para que, juntos, pudessem ir até a Sala de Arquivo. Também não notou que o garoto a fitou fixamente, observando todos seus passos, como um rapaz apaixonado observa cada movimento de sua amada.


 


* * *


 


                Embora fora obrigado a esperar mais um bom tempo – os três alunos que restavam custaram a subir – , Harry não sentira sono. O dia fora movimentado – mais do que ele poderia imaginar – e sua mente rodava. A prisão de Hermione, o beijo trocado com Gina... Uma profusão de sentimentos... Dor pela prisão de Hermione, mas ao mesmo tempo, dúvida por não acreditar que ela seja realmente uma assassina. Alegria e... amor ao beijar Gina, porém, junto com esses sentimentos, uma dúvida: ele não podia entender porquê Gina viera ao encontro de seus lábios e, em seguida, recuou para se afastar dele.


                Finalmente os alunos saíram da mesa e subiram para os dormitórios. Harry levantou-se junto com eles e subiu também. Entrou e, com passos lentos e silenciosos para não acordar os companheiros de quarto, encaminhou-se até a cama do amigo e balançou o corpo de Rony.


                O garoto demorou a acordar. Entreabriu os olhos e se levantou. Esfregou-os com as mãos, para que conseguisse despertar melhor.


                -Já? – perguntou, em voz baixa.


                -Demorei foi muito – respondeu. – Vamos logo, antes que alguém acorde.


                Os dois saíram da sala comunal sem encontrarem dificuldade. A única que apareceu foi o sono de Rony, que ainda esfregava os olhos e era puxado por Harry para andar mais rapidamente.


                Os corredores estavam limpos, sem nenhum vestígio de Filch ou Madame Nora. Mesmo assim, a atenção dos dois estava ligada, já que o assassino poderia aparecer a qualquer momento.


                Por sorte, alcançaram o sexto andar e o quadro de Merlim sem empecilhos. O bruxo, assim como da outra vez em que Rony fora até lá junto com Mione, estava cochilando. As estrelinhas do chapéu reluziam fortemente e um dos dedos de Merlim estava enrolado na barba, se movimentando conforme sua respiração.


                Rony aproximou-se da pintura, assim como Hermione fizera da outra vez, e começou a procurar a maçaneta. Sua mão foi certeira e a encontrou logo no primeiro toque. Fácil, mas se Hermione não a tivesse encontrado da outra vez, levaria algum tempo... Hermione... Mesmo de longe ela era capaz de ajuda-los.


                Abriu a porta. A luz alaranjada saltou do lado de dentro. Os dois entraram e fecharam a porta rapidamente.


                O Livro da História estava fechado, com o brasão de Hogwarts reluzindo na capa. Harry se aproximou do livro, fascinado.


                -É realmente lindo – exclamou.


                -É... Mas vamos logo com isso, Harry! – apressou-o Rony, olhando ao redor. Ele realmente detestava aquela sala de aula e os estranhos bichos que a iluminavam.


                -Você que tem que ajeitar tudo. Você já usou o livro. Eu não.


                -Bom, a única coisa que eu sei é que ele traz os nomes de todos os alunos que passam e passaram pela escola... Que cada nome traz a caligrafia do fundador da casa... Mas não ouvi nada sobre os nomes dos professores...


                -Mas tem que estar aqui! – falou Harry. – Isso é uma Sala de Arquivo, não é?


                -É...


                -E, se esse é um livro da história de toda a escola, tem que trazer o nome dos professores!


                Harry virou-se para o livro. Passou as primeiras páginas, que traziam a história da formação da escola. Já estava desanimando, quando, após virar a página dos nomes dos diretores, viu uma lista enorme numa das páginas, intitulada de: “Corpo Docente – Hogwarts”.


                -Achei! – exclamou Harry, sem se conter de alegria.


                -Não acredito – disse Rony, ao se aproximar. – Mas... Que lista grande! E, que letras pequenas!


                -É. A página anterior traz os nomes dos diretores da escola... Bom, mas vamos a essa, que nos interessa... É fácil, está por ordem alfabética.


                O dedo de Harry desceu a folha, passou pela outra coluna... Virou a página. O dedo indicador parou na letra “M”, e começou a descer mais devagar, à procura do sobrenome Marie.


                -Marie... Marie... – murmurava, enquanto procurava, acompanhado pelo olhar curioso de Rony. – Marie... Aqui! Achei! Oh!


                -O que? – perguntou Rony.


                -Veja!


                Rony olhou para o pequenino nome que o dedo de Harry indicava e leu:


                -Marie, Jane Reynolds. Nossa… Então…?


                -Sim, Rony. Miss Reynolds era Tia Marie.


 

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