Possibilidades



- Não precisavam comprar flores. – disse Mary em tom de reclamação – Não podemos desperdiçar dinheiro com isso!
- Não se preocupe, filha. – a tranqüilizou seu pai enquanto ajeitava as margaridas em um vaso ao lado da sua cama – Essas flores são do jardim do nosso vizinho. Não custaram nada.
- ... Inacreditável. – foi o máximo que ela conseguiu dizer em agradecimento.
- Eles disseram que quando o soro terminar você já poderá voltar para casa! – anunciou a sua mãe entrando no quarto contente.
- Que bom. – seu pai respirou aliviado.
- Hum... Me desculpe por ter preocupado vocês justo nesse momento difícil. – disse Mary.
- Por que está pedindo desculpas, filha? – perguntou seu pai fungando – Quem deveria estar pedindo desculpas somos nós! Exigimos tanto de você e não nos preocupamos com a sua saúde...
- Me desculpe, Mary Ann! – sua mãe não pôde mais se segurar e a abraçou chorando, e por conseqüência seu pai fez o mesmo.
- Não chorem! – pediu Mary desesperada, quase sendo sufocada pelos dois – Eu já estou bem! E não foi algo grave!... Por que estão tão emotivos hoje?
Eles a largaram e tentaram se acalmar, ambos sentando ao pé da cama.
- A propósito, Mary... – começou a sua mãe – O senhor Hainault simplesmente foi embora pela manhã?
- Foi. – a garota repetiu a informação que já havia dado, procurando se demonstrar o mais normal possível.
- Será... – continuou ela procurando as palavras certas - ...Será que há possibilidades de...
- Não, mãe! – Mary apressou-se em afirmar, já adivinhando onde ela queria chegar – Definitivamente não! O Ryan é meu amigo! Um grande amigo, assim como a Vicky!
Era o que Mary vinha repetindo para si mesma desde aquela manhã. O beijo repentino de Ryan realmente a assustara e a deixara sem reação. Quando ele percebeu o estado em que ela ficara, havia perguntado se não deveria ter feito aquilo. Mary imediatamente respondeu com um ‘É claro que não devia!’, mas tinha a impressão que o hospital inteiro podia ouvir o seu coração disparado.
Ainda, antes de ele ir embora, disse ‘Desculpe, mas foi inevitável., o que só a deixou mais preocupada, porque não havia nem um tom de desculpa ou constrangimento na voz dele. Era a mesma voz calma do seu Cavaleiro de Olhos Frios, e que demonstrava que o que havia feito não era algo ‘inevitável’, mas sim algo que ele realmente queria fazer.


***


- Você ficou com a Mary no hospital a noite inteira? – perguntou Nissenson surpreso.
- Sim, acabei dormindo com ela. – comentou Hainault enquanto tomava o seu café da manhã atrasado na casa do amigo.
- Dormiram juntos?! – perguntou MacGilleain mais surpreso ainda.
- Eu fiquei ao lado dela a noite toda, e acabei dormindo na cadeira. – ele se explicou melhor.
- Mesmo assim, conhecendo o Ryan Hainault, posso afirmar que ele não iria tão longe assim por alguém. – comentou Nissenson – O que está acontecendo com vocês dois afinal?
- O Chris sabe disso? – perguntou MacGilleain preocupado.
- Ele não tem mais nenhum tipo de relação com a Mary para ficar sabendo tudo o que acontece com ela. – respondeu o dragão.
- Pode ser, mas... você tem realmente certeza disso?
- Concordo com o Simon, Ryan. Nós conhecemos muito bem o Chris para dizer que-
Mas MacGilleain não pôde terminar o que iria falar. No mesmo instante as portas se abriram e Doumajyd passou apressado por elas.
- Oi, Chris. – cumprimentou o antigo dragão da Lufa-lufa para disfarçar o que estava dizendo.
- Oh. – disse ele em resposta, olhando para os três reunidos na mesa de uma forma um tanto nervosa.
- O que aconteceu? – perguntou – É raro você aparecer aqui sem avisar.
- É que... – ele assumiu uma atitude entusiasmada para disfarçar o seu agitamento, o que só piorou a sua situação, e se juntou a eles na mesa – É que eu fiquei sabendo que estavam aqui e pensei ‘Puxa, faz tempo que não tomamos café da amanhã juntos!’, então resolvi vir.
- É mesmo? – perguntou MacGilleain não sabendo se ria ou se ficava assustado com a atitude do líder.
- Eu não tenho muito tempo, mas... – o dragão engoliu em seco e perguntou com uma voz um tanto esganiçada – E você Ryan? O-o que está co-comendo?
Ryan olhou para o seu prato e depois para o amigo, e respondeu:
- Panquecas.
- Ah, panquecas! – exclamou Doumajyd – Que bom, não é? Eu gosto de panquecas.
- Só de ver dá para saber que são panquecas. – comentou Nissenson, não escondendo a sua preocupação com a atitude estranha do dragão.
- Poderia ser alguma coisa disfarçada de panqueca! – defendeu-se Doumajyd.
- Por que ele está delirando logo de manhã? – perguntou MacGilleain para os outros.
- Ryan, – novamente o líder do D4 engoliu em seco e reuniu toda a sua coragem para perguntar, enquanto agarrava as bordas da tolha da mesa para tentar manter suas mãos paradas – ontem... o que fez ontem? É que eu tentei chamar a sua esfera, mas você não respondia.
- Ah, é que eu estava no hos-
- Aaaah! – MacGilleain apressou-se em interromper, prevendo que aquela conversa não caminhava para um bom rumo – Como foi ontem, Chris?
- Ontem? – perguntou o dragão confuso.
- É, o jantar formal com os pais da Vanderbilt?... – e, diante do olhar perdido do amigo em tentar entender sobre o que falava, acrescentou – O seu noivado?
- Noivado? – repetiu Doumajyd tentando buscar alguma assimilação da palavra com os seus pensamentos – Ah, a macaca! Aquilo foi só uma ‘formização’, e os velhos ficaram falando do futuro dos negócios.
- Formização? – perguntou MacGilleain.
- Mas para mim não passou de uma ‘perdição’ de tempo! – exclamou ele rindo.
Os outros três se entreolharam por alguns instantes, enquanto Doumajyd ainda ria de uma forma forçada, e então MacGilleain tentou:
- Ele inventou uma palavra nova e ainda tentou fazer uma piada em cima dela?
- Por que está agindo dessa maneira estranha, Chris? – Nissenson não agüentou mais ficar apenas observando.
- Estranha? Eu não estou agindo estranho! – afirmou ele se levantando em um pulo, para dar ênfase ao que dizia, e ao mesmo tempo tropeçou na cadeira e caiu no chão.
Por ainda estar segurando a toalha, acabou levando tudo o que havia em cima da mesa junto. Menos o prato de panquecas que Ryan havia conseguido salvar no último minuto.
– Não estou estranho! – reafirmou ele, recompondo-se apressadamente e ainda rindo.
- Está sim! Admita! – exigiu Nissenson ao mesmo tempo em que fazia as coisas voltarem ao lugar na mesa com um gesto da sua varinha – É por causa do noivado? Aconteceu alguma coisa no jantar? É por isso que está tenso e agitado?
- Quem está tenso e agitado? – perguntou o dragão – Eu não estou tenso e agitado!... Mas voltando ao assunto, Ryan. Onde você-
Mais uma vez ele não pôde terminar a pergunta. Havia alguém lhe chamando pela esfera, o que lhe tirou toda a concentração com o que iria falar. Irritado, ele pegou a esfera no bolso e foi até um canto, rosnando para a figura que aparecera:
- O que foi?!
- Você está atrasado! – acusou Summer Vanderbilt por trás do cristal – Venha para cá imediatamente, Christopher Doumajyd!
- Eu já estava indo! – se defendeu ele indo em direção a porta – E onde você está?
- Ei, Chris! – chamou MacGilleain – Não ia tomar café conosco?
Mas o dragão não ouviu, porque estava ocupado demais discutindo com a metamorfomaga por ela não saber explicar onde estava.
- O que ele veio fazer aqui, afinal? – perguntou Nissenson com um suspiro cansado.
- Eu acho que esses dois se dão bem. – comentou Hainault, voltando para as suas panquecas – Eles são parecidos, a Vanderbilt e o Chris...
Os outros dois dragões se entreolharam, achando que uma nova confusão só havia começado.


***


- Me deixou preocupada, Mary! – reclamou Vicky enquanto ajeitava, ao lado das margaridas, um vaso com flores azuis e lilases que a professora Karoline havia mandado para a aluna internada – Eu bem que havia avisado sobre você estar fazendo coisas demais! Não havia?
- Me desculpe, Vicky. Eu sei que sempre acabo incomodando os outros de uma forma ou outra...
- Não estou falando de incomodo, mas de teimosia! Acho que só mesmo o Líder do D4 para ser mais teimoso do que você!... Ah, desculpa por falar nele!
- Tudo bem.
- Ele... por acaso... – Vicky sentou a lado dela na cama, como se estivesse para pedir algo extremamente confidencial – veio aqui?
- E porque viria? Eu fui bem clara a última vez que falei com ele, Vicky!
- Então... por que está contente?
- Estou contente? – perguntou Mary confusa.
- Bom, eu achava que você estaria triste e deprimida. – ela começou a contar nos dedos – Pelo novo antigo problema de dinheiro da sua família. Por ter trabalhando e estudado demais. Por ter comido e dormido de menos. Ter ficado exausta e desmaiando. Por tudo isso! Mas...
- ...Mas o quê?
- Você está sorrindo! – Vicky chegou bem perto da amiga para verificar seu rosto – Até seus olhos estão sorrindo!
- É... É por causa... É que... Por sua causa, Vicky! Por você ter vindo de Hogwarts me visitar! – Mary tentou dar um sorriso que ao menos parecesse verdadeiro, mas não conseguia enganar nem a si mesma.
- Aconteceu algo bom, não aconteceu? – perguntou Vicky desconfiada.
- Nada, nada! Definitivamente nada!
- Mary, você não me engana. Se não foi o Doumajyd que deixou você assim, quem foi?
Vendo que não poderia fugir na intuição afiada de Vicky, que fora treinada durante anos pela convivência com a professora Karoline, Mary deu um grande suspiro e contou para a amiga o que havia acontecido.


***


- Chris! – chamou uma Summer ofegante – Ande um pouco mais devagar, por favor!... CHRIS!
- O quê? – perguntou o dragão olhando em volta e procurando por quem o chamara.
- Não vá na frente sozinho! – reclamou a metamorfomaga o alcançando.
- Temos realmente que andar juntos? – perguntou ele irritado.
- É claro! – ela agarrou o braço dele – Somos noivos!
- Não faça isso no meio da rua. – foi a vez de ele reclamar, olhando em volta um tanto constrangido para as pessoas que passavam.
- Você está envergonhado? – perguntou ela rindo – O grande dragão Doumajyd tem vergonha de passear pelas ruas de Hogsmeade com a sua noiva?
- Cala a boca. – disse ele se deixando levar por ela.

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