Capítulo 3



Harry adiantou-se, com ar preocupado
-- Hermione, você está bem?
Ela engoliu em seco e procurou disfarçar o ar aflito.
-- Bem? É claro que estou bem. Era Draco -- comentou indo em direção ao sofá.
-- O que ele queria?
Hermione voltou-se rápida.
-- Como?
-- Sinto muito, mas a curiosidade foi mais forte do que o esforço que fiz para não me meter.
Apesar da maneira lisonjeira com que ele a tratava, Hermione não se convenceu. Não via razão nesse interesse por Draco ou pela conversa que tivera com ele. Provavelmente, devia estar parecendo aflita e Harry estava tentando apenas ser gentil.
-- Talvez seja melhor que eu vá embora...
-- Não -- ela interrompeu, percebendo que estava sendo uma péssima anfitriã. -- Não tenho nada para oferecer, mas sobrou um pouco de vinho do jantar...
-- Ainda prefiro outro café.
Pensativa, Hermione dirigiu-se à cozinha. Não tinha idéia de quanto tempo Harry estivera parado atrás dela e nem do quanto ouvira da conversa. Enquanto preparava o café, tentava repassar o que dissera a Draco. Não que isso tivesse muita importância. Afinal, Harry Potter em apenas uma noite já sabia muito sobre a sua vida... incluindo o motivo do divórcio e até a identidade de seu ex-marido.
-- As crianças adormeceram -- Harry avisou, enquanto sentava-se junto dela no sofá.
-- Como conseguiu isso? -- ela sorriu, sabendo que as crianças, excitadas como estavam por causa do novo amigo, não deveriam ter adormecido tão cedo.
Harry deu um sorriso divertido.
-- Contei-lhes uma história.
Ela arregalou os olhos. Os gêmeos não costumavam dormir quando ela contava histórias, e até achavam extremamente enfadonho.
-- Que história?
Ele deu de ombros.
-- A história não importa. A maneira como contei é que fez os dois adormecerem.
Para Hermione aquilo ainda era um enigma. Não acreditava que aquela voz charmosa fosse capaz de fazer os gêmeos adormecerem.
-- Meu irmão também tem dois filhos. A técnica, para fazer criança dormir, eu aprendi quando os meus sobrinhos eram bebês.
-- Preciso me lembrar disso -- ela murmurou saboreando o café.
-- Está se sentindo melhor agora?
-- Como?
Os olhos verdes sondaram os dela.
-- Você estava transtornada quando desligou o telefone.
-- E você está imaginando coisas. Apenas fiquei surpresa com o telefonema.
-- Só isso?
-- Realmente, Harry, eu não acho...
-- Compreendo. Estou interferindo em algo que não é da minha conta. Mas é que eu ainda não me acostumei a ver uma jovem como você enfrentando todos estes problemas. Pensei que não tinha mais de dezesseis anos, quando a vi pela primeira vez esta manhã, e ainda agora acho que não é adulta o suficiente para cuidar sozinha de duas crianças... Quanto tempo faz que ninguém cuida de você?
Hermione ficou perplexa com a atitude de Harry; ele parecia estar sinceramente preocupado. Era ridículo, pois acabara de conhecê-lo!
-- Penso que ninguém nunca fez isso -- respondeu devagar. -- Meus pais levaram uma vida onde não havia tempo para crianças e assim fui colocada aos cuidados de uma série de babás até que fiquei adulta. Quando casei com Draco, contra a vontade deles, fui rejeitada... Estavam certos quanto ao casamento, supondo... mas os gêmeos compensaram tudo isso. Não me arrependo de nada do que fiz -- assegurou.
-- Nem por ter se casado com Draco Malfoy?
-- Não, porque sem ele os gêmeos não existiriam.
-- É verdade -- Harry falou secamente. -- Bem, é melhor que eu vá agora... acho que já me intrometi bastante em sua vida por uma noite.
Com toda aquela simpatia, era impossível se zangar com ele. Mas Hermione concordava que já era hora de ele ir. Aquele homem tinha o incrível poder de fazê-la falar e uma rara paciência para ouvir. Antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, acabaria se transformando em personagem de seus livros.
-- Você deve estar cansado. Afinal, chegou está manhã... -- ela se levantou.
-- Tenho trinta e sete anos, Hermione... Não setenta e sete, e, só porque dirigi um pouco mais de uma hora, não quer dizer que eu vá morrer de cansaço -- ele zombou, os olhos verdes brilhando. -- Me acompanha até a porta?
Hermione sentia-se melhor quando a conversa fluía leve, sem o olhar penetrante de Harry obrigando-a a responder a perguntas para as quais ainda não estava preparada.
-- Você aparecerá, antes de ir embora? -- ela perguntou polidamente, quando chegaram à porta.
-- Espero que sim... -- e Harry admirou-lhe as feições suaves iluminadas pelo luar. -- Sei de alguém que ficaria muito desapontado se não fizesse isso.
-- Os gêmeos?
-- Eu! -- ele sorriu. -- Passei algumas horas realmente agradáveis esta noite, e vocês três estão convidados para virem jantar em casa qualquer noite dessas. Sou um excelente cozinheiro.
-- E muito modesto também.
Ele riu. Apesar do aparente clima de companheirismo, a atmosfera era mágica, íntima. Logo o riso morreu em seus lábios e ela tornou-se cativa daqueles olhos tão verdes. Prendeu a respiração, tentando desviar-se da intensidade daquele olhar, mas sabia que perdera a batalha quando, puxada suavemente contra ele, estremeceu de emoção. E teve certeza de que ele era capaz de ouvir as loucas batidas do seu coração.
Devagar, Harry ergueu-a nos braços e encostou a boca na dela, explorando os lábios macios, tirando vantagem de sua total vulnerabilidade, pois seus pés estavam a alguns centímetros do chão. Para sustentar-se, Hermione passou os braços em volta do pescoço dele, entregando-se ainda mais àquele momento. Nunca acreditara que um beijo fosse capaz de despertar tais sensações. E, quando ele se afastou o suficiente para olhá-la nos olhos, sentiu o rosto arder.
-- Gosto de agradecer devidamente as minhas anfitriãs.
A expressão sonhadora imediatamente abandonou o rosto de Hermione.
-- Certamente, Gina Wesley ficará muito impressionada.
Ele franziu a testa, relutante em libertá-la completamente, as mãos firmes em sua cintura.
-- Gina Wesley?
Ela assentiu com a cabeça.
-- Você irá jantar com os Wesley, não? -- perguntou, furiosamente consigo mesma pela fraqueza que aquele homem lhe causava.
-- Vou amanhã, mas...
-- Divirta-se! O coronel tem uma ótima cozinheira e estou certa de que a companhia feminina também será agradável.
-- Estou certo de que sim -- ele pareceu refletir sobre o assunto. -- Hermione...
-- Preciso entrar -- ela o interrompeu. -- A luz do corredor está atraindo mariposas -- mas ambos sabiam que aquela não era a verdadeira razão que a levava a fugir. -- Muito grata pelas tulipas. As flores favoritas de Gina são cravos. Cravos cor-de-rosa!
-- Gina é uma criança...
-- Há apenas algumas horas você pensava que eu também fosse e apesar disso flertou comigo.
-- Foi apenas uma brincadeira...
-- Não para uma garota de dezesseis anos.
-- Hermione, você está exagerando...
-- Não, não estou, Harry. Esse é o problema e saiba que não sou uma garota de programa como as que você costuma ter em Londres.
-- Por Deus, Hermione! Foi apenas um beijo de boa-noite. Não pretendia insultar você!
-- Há quatro anos sou divorciada e você sabe como uma mulher na minha situação enfrenta esse tipo de coisas.
-- Peço desculpa pelo beijo. Não pensei que causaria tal impacto.
-- Em mim ou em você?
-- Em nós dois!
-- Jogue seu charme sobre Gina, Harry Potter. Ela não esconde a admiração que tem por homens sofisticados e bem mais velhos do que ela.
-- Grato pelo elogio -- ele acrescentou com bom humor. O brilho retornara aos olhos verdes. -- Boa-noite, Hermione. Não estou disposto a arriscar a minha pele por mais tempo com você esta noite.
As coisas estavam indo rápidas demais, Hermione pensou confusa. Aliás, tudo naquele homem era demais: bonito demais, atraente demais, envolvente demais! Tinha aquele tipo de magnetismo que fazia qualquer mulher sucumbir. "Preciso tomar cuidado para não me envolver..."
Mais tarde, já na cama, não conseguiu conciliar o sono. E ela sabia que a sua insônia nada tinha a ver com o inesperado interesse de Draco pelas crianças. Quem atormentava era Harry Potter.
Hermione estava atrasada. Era inevitável que isso acontecesse. Havia desligado o alarme às seis e meia, virando-se para o outro lado e caindo num sono profundo até que Kim e Andy a acordaram, alguns minutos após as sete. Depois disso, fora a rotina dos atropelos: vestir e alimentar os gêmeos, pôr a roupa na máquina, alimentar o gato e dar conta de todo o serviço da casa, antes de começar a se vestir para ir trabalhar.
Com tudo isso, não ficou nada contente quando faltando quinze para as noves, ouvir bater à porta. Será que o leiteiro viera receber seu pagamento justamente naquele dia?
Não era o leiteiro e ela ajeitou com a mão o decote, quando os olhos de Harry Potter dilataram-se, sem disfarçar o interesse pela pele sedosa que transparecia sob o robe.
-- Oh, é você! Pensei que fosse o leiteiro -- disse Hermione, confusa, tentando controlar o embaraço. E percebeu como deveria estar parecendo cômica e desajeitada no instante em que Harry a encarou. -- Entre... -- convidou ela, já recuperada do impacto -- antes que os vizinhos tenham uma impressão errada -- o rancor que sentira na noite anterior desaparecera.
-- Eu pelo menos já estou tendo -- Harry riu seguindo-a até a cozinha.
-- Muito maldoso! Agora, o que eu posso fazer por você? Como vê, não estou nem vestida ainda... -- e sentiu-se praticamente nua sob o olhar fascinado do homem à sua frente. -- Além disso, tenho de estar no escritório em... -- consultou o relógio na parede da cozinha -- vinte minutos.
-- Você está um pouco atrasada, não?
-- Diga alguma coisa que eu ainda não percebi.
-- Seu robe é muito sexy -- os olhos verdes brilharam de satisfação, fazendo-a tomar consciência de sua feminilidade.
Hermione voltou-se para ele com olhos acusadores.
-- Você só tem dois minutos, depois disso o expulsarei daqui.
-- Gostaria de ver. Seria interessante -- Harry desafiou-a.
-- Se eu fosse você, tomaria mais cuidado com as palavras... Acha que eu não seria capaz de fazer isso? -- ela respondeu, a voz perigosamente calma quando aceitou a provocação.
-- Oh, por favor! Vim aqui fazer as pazes e não para discutir outra vez.
-- Estamos discutindo? -- ela ironizou com voz inocente.
-- Vim pedir desculpas pelo o que aconteceu ontem. Reconheço que a pressionei demais, logo em nossa primeira noite juntos. Esqueci por um instante onde estava e que você obviamente deseja manter-se distante de qualquer envolvimento amoroso.
Hermione ruborizou-se diante do último comentário. Até então estivera preocupada com a expressão "primeira noite juntos", como se ele soubesse que haveria muitas outras. Bem, teria de lhe avisar... quando Gina pusesse as unhas sobre ele, nenhumas das próximas noites seria livre!
-- Não tenho escolha. Draco foi o único homem a quem pertenci.
-- E desde então? -- ele perguntou, prendendo-a com o olhar.
-- Isso é assunto meu e de mais ninguém.
-- E do homem envolvido, presumo -- Harry caçoou.
-- Exatamente -- ela concordou não desmentindo a suposição de que havia outro homem. Harry fora atrevido na noite passada e ela não queria que a situação se repetisse.
-- É melhor que eu vá agora, você precisa se aprontar.
-- Muito agradecida por ter tido o trabalho de vir se desculpar -- ela o levou até a porta.
Ele deu de ombros.
-- Foi um prazer. Hermione...
-- Sim?
Um brilho demoníaco passou pelos olhos verdes.
-- Quais são mesmo as flores favoritas de Gina?
-- Cravo cor-de-rosa, como já disse.
-- É verdade. Eu já deveria saber... -- ele sorriu. -- Vejo você logo mais -- e atravessou o gramado em direção ao chalé vizinho.
Esperava que não fosse tão cedo. Tinha muitas coisas para fazer, além de ficar brincando de gato e rato com Harry Potter a cada dois minutos.
Infelizmente, naquela manhã parecia que o destino havia reservado a Hermione todos os rounds de uma luta - livre, e ela teve certeza disso, assim que Gina invadiu seu escritório.
-- Como foi o jantar de ontem à noite?
A filha do coronel foi direto ao ponto e, pelo tom condescendente, era óbvio que esperava ouvir a história de um desastre do começo ao fim.
Hermione ergueu a cabeça e pensou: "Haja paciência!"
-- Foi tudo bem, obrigada -- respondeu com reserva.
A boca da ruiva transformou-se numa linha fina e tensa. Ela devia ter ficado furiosa quando o famoso escritor recusara seu convite.
-- Estou certa de que Harry se aborreceu.
-- Ele não me pareceu nem um pouco aborrecido.
Gina lançou-lhe um olhar de desdém.
-- Ele foi educado o bastante para não deixar que você percebesse isso.
-- Então, se quiser saber, terá de perguntar a ele -- Hermione suspirou, sem paciência para esse tipo de confronto logo pela manhã.
-- Não pretendo falar sobre você ou seus pirralhos no jantar dessa noite. Já foi suficientemente atrevida colocando um hóspede de meu pai em tal situação.
-- Já expliquei como aconteceu...
-- Sei disso. Mas papai gostaria que você não se metesse com Harry outra vez.
Como calculara, Gina não desejava nenhuma interferência entre ela e Harry Potter: na certa, encontrara nele o homem que desejava para si. Hermione não a censurava por isso, Harry era extremamente sensual... De qualquer modo, presumia que ele iria preferir escolher pessoalmente a mulher que ocuparia um lugar na sua vida, na sua cama...
-- Fique sossegada, Gina, garanto que isso não tornará a acontecer e, além do mais, você terá o cabelo perfeitamente penteado esta noite.
-- Já estou com hora marcada. Aquelas crianças terríveis se comportaram durante o jantar?
-- Não são terríveis, e saiba que se comportaram muito bem!
-- Eu não ficaria surpresa com nada do que tenham feito.
Gina exultou, vendo que conseguiria irritá-la outra vez.
-- Você ficará surpresa, Gina: Harry os adorou!
-- Acalme-se, Hermione, afinal somos todos da mesma família e por que não podemos conversar?
-- Não somos da mesma família -- Hermione falou com enfado.
-- Claro que somos! Se não me falha a memória, Draco é meu primo. A propósito, ele telefonou está manhã avisando que chega na sexta-feira à noite. Não sei por que ele não fica no chalé com vocês.
-- Porque não temos camas suficientes!
-- Só por causa disso? Hermione, como você é antiquada. Não sabe que todo mundo dorme com os ex-maridos?
Os dedos de Hermione apertaram a caneta que estava usando.
-- Não sou todo mundo.
Gina continuou lançando seu veneno.
-- No fundo eu até gosto quando ele vem. Não há nada que me divirta mais do que ter uma conversa particular com meu primo.
Hermione suspirou. Ela sabia que os dois conversavam todas as vezes que se encontravam, e, sem dúvida, Gina divertia-se muito questionando Draco sobre o motivo de suas visitas.
-- Algo mais, Gina? Preciso terminar o meu trabalho.
-- Só vim avisar que papai quer vê-la em seu estúdio, assim que você tiver um momento.
"Certamente para perguntar sobre a noite com Harry Potter", pensou Hermione. "Ou talvez sobre a visita de Draco."
-- Irei daqui a pouco. Algo errado?
-- Terá de perguntar a papai. -- E Gina se despediu, obviamente divertindo-se com sua expressão preocupada.
Hermione sentiu vontade de agredi-la, mas sabia que, se fizesse isso, ficaria sem casa e sem emprego. Maldita Gina! Por que não ia definitivamente para Londres em vez de apenas alguns fins de semanas? Sua vida seria bem mais tranqüila e teria a paz que tanto desejava.
Paz! Seria realmente o que desejava? Até então pensava que sim. Estava apenas um pouco insegura por causa de Draco e pelas constantes brigas com Gina. Será que tinha inveja da vida despreocupada que a jovem levava? Claro que não! Como isso lhe passava pela cabeça? No entanto, tinha de admitir que desejava algo mais na vida do que apenas trabalhar para o sustento dos gêmeos. Estaria ressentida pelo fato de a filha do coronel ter tudo o que desejava entregue numa bandeja de prata?
Afastando esses devaneios, dirigiu-se ao estúdio do coronel. "Logo que tiver um momento", na linguagem dele, significava imediatamente.
Hermione bateu levemente na porta e, quando entrou na sala, teve uma surpresa. Encontrou Harry Potter contemplando os magníficos jardins da praça em frente, que aguardavam a chegada da primavera.
-- Olá, Hermione -- ele sorriu, tornando-se ainda mais atraente.
-- Olá -- disse Hermione, sentindo todo o corpo responder àquele homem. Teve a impressão de que seu rosto corava, revelando o efeito que a presença dele lhe causara. Olhou em torno, cautelosa, à procura do coronel.
-- Ele precisou sair por um instante. Creio que ouve um problema na sobreloja -- Harry explicou.
-- Talvez seja melhor eu voltar mais tarde.
-- Ora, nada disso! Ele não deve demorar -- Harry segurou-lhe o braço com firmeza.
-- Creio que ele não iria gostar que eu me intrometesse no assunto de vocês.
-- Pelo contrário, estávamos justamente falando de você.
-- De mim? -- Os olhos de Hermione arregalaram-se, numa pergunta muda.
-- Não fique tão espantada. Estivemos conversando sobre a secretária dele...
-- Mas, sou eu...
-- ... e como ela poderia me ajudar fazendo algumas pesquisas.
Hermione franziu a testa.
-- Eu?
-- Você está começando a se tornar repetitiva -- ele caçoou.
-- Não entendo como poderei ajudar você. Seus livros são violentos, cheios de cenas de sangue e explosões, não? -- ela disse com desagrado.
-- Nunca pensei neles dessa maneira.
-- Mas devia!
-- Talvez, mas a pesquisa que tenho em mente é apenas de natureza histórica. Claro, eu mesmo costumo fazer isso...
-- E por que não o faz agora? -- ela estava furiosa por terem tomado a decisão sem consultá-la. Já tinha trabalho suficiente para uma secretária, sem contar que ainda servia de guia para turistas à tarde.
-- Foi idéia de Arthur...
Arthur! Então Harry já chamava o coronel pelo primeiro nome? Hermione já o conhecia há seis anos e não o chamava assim!
-- ... que, enquanto eu o entrevistasse na parte da tarde você poderia fazer as pesquisas para mim -- Harry parecia não estar percebendo as divagações de Hermione e prosseguiu: -- Claro, se você concordar.
-- Não é essa a questão. Tenho outro trabalho a fazer na parte da tarde.
-- Ah! Sim, Arthur acha que Gina poderá fazer isso por duas semanas.
Hermione gostaria de ver a cara da outra quando soubesse! Mas a idéia de trabalhar com Harry Potter anulava parte do prazer de imaginar a fúria dela.
-- Ele já disse isso a Gina?
-- Ainda não. Não queria tomar nenhuma atitude, antes de consultar você.
-- Quer dizer que tenho uma chance de recusar?
-- Todos têm direito de escolha Hermione -- Potter sugeriu, os olhos travessos percorrendo seu corpo da cabeça aos pés. Por um momento ela prendeu a respiração, percebendo que ele não falava sobre a pesquisa e que também não fazia o menor esforço para esconder a atração que sentia por ela. O mais estranho é que os sentidos de Hermione reagiam àquele interesse de uma forma inesperada, que não acontecia desde que se afastara de Draco.
-- Gina não ficará nada satisfeita -- ela falou, tentando parecer indiferente ao olhar penetrante de Harry.
-- Pelo o que entendi, ela não tem muito com o que se ocupar por aqui.
Hermione sorriu, começando a relaxar.
-- Garanto que ela prefere continuar assim!
-- E nunca se aborrece?
-- Nunca comentou nada comigo. Não somos o que se possa chamar de "confidentes". Por que não pede a ela para fazer a pesquisa? -- um ímpeto demoníaco fez com que o desafiasse.
-- Arthur assegurou-me que ela não lê nada além de revistas femininas.
-- Certamente, mas, dependendo de quem seja o autor... Alguém que escreve bem como você deve agradá-la.
-- Gostaria de acreditar que o elogio é sincero, Hermione.
-- É mesmo? -- Hermione não esperava ouvir aquilo e muito menos ter de sustentar o olhar provocante de Harry. Mas nesse instante o coronel entrou na sala. Era um homem de baixa estatura, o rosto corado e os cabelos ruivos; os olhos azuis brilhantes e perspicazes.
-- Queiram me desculpar pelo imprevisto. Espero que tenha distraído nosso hóspede, Hermione.
Ela olhou para o sorridente Harry, pensando se ele levava algo a sério; a vida e seus problemas mais pareciam uma grande brincadeira para ele.
-- Procurei fazer isso -- murmurou suavemente.
-- E foi bem-sucedida -- ele caçoou, parecendo ter lido seu pensamento.
O coronel olhou de um para o outro como se percebesse um segundo significado na conversa aparentemente superficial.
-- O que acha da idéia de ajudá-lo, Hermione?
-- Não estou certa se conseguirei...
-- Você está sendo modesta, meu bem. Arthur me contou que você estudava história antes de se casar.
Ela olhou para o coronel acusadoramente, não gostando de saber que sua vida tinha sido discutida sem que estivesse presente. E retrucou com ar de desagrado:
-- Estudar durante três meses, embora arduamente, não me qualifica como uma profunda conhecedora de história.
-- Quer dizer então que aceita fazer o trabalho? -- Harry insistia.
-- Posso tentar, mas...
-- Você não escreverá a história, Hermione. Eu farei isso -- Harry lembrou-a delicadamente. Tudo o que precisará fazer é verificar datas e fatos nos diários da guerra do coronel.
Ela já tinha visto alguns daqueles volumes na ampla biblioteca da mansão e estremecera só em pensar no que havia entre aquelas páginas. Ter de ler todo aquele horror era algo que não lhe agradava. Arthur, mesmo após aqueles anos, quando começava a falar sobre a Segunda Guerra Mundial, não esquecia nenhuma batalha sequer.
-- Você já os leu? -- perguntou ela a Harry.
-- Há alguns meses... Arthur fez a gentileza de enviá-los para mim em Londres.
-- Hermione fica um tanto melindrada quando se fala sobre a guerra -- disse o coronel com um ar divertido.
-- Posso entendê-la. Provavelmente tem traumas com relação a esse assunto. -- Potter a olhava fixamente.
-- Oh, você está se referindo ao fato de Draco estar envolvido constantemente nos noticiários dos conflitos mundiais.
Harry ignorou o comentário que revelava pouca sensibilidade.
-- Você prefere não fazer as pesquisas, Hermione? Se é assim, estou certo de que arranjarei algum modo de fazê-las eu mesmo...
-- Mas isso não tem sentido, Hermione! Você não pode passar toda a vida com a cabeça num buraco feito um avestruz. Se conseguisse superar todos esses complexos, certamente faria aquele seu marido voltar para o lugar dele -- disse o Sr. Wesley.
-- Ex-marido, coronel. Draco e eu estamos divorciados -- ela lembrou-o.
-- Não acredito em divórcios. O casamento é para toda a vida, e não para ser descartado quando for conveniente... E estou certo de que você ficou contente quando soube que Draco chegará nesta sexta-feira.
Hermione propositalmente não olhou para Harry, embora sentisse os olhos dele fixos nela.
-- Os gêmeos ficarão felizes em ver o pai -- disse ela.
-- Só os gêmeos -- o coronel insistia em provocá-la.
-- Estou certa de que todos ficarão contentes -- ela continuou a se esquivar, consciente da atenta audiência. -- Quando pretende que eu comece, Sr. Potter?
-- Segunda-feira... Se você concordar, Arthur.
-- Ótimo! -- O coronel estava radiante, obviamente muito orgulhoso por ter sido escolhido como tema de um livro do famoso escritor.
Hermione podia entender, embora não compartilhasse aquele entusiasmo. Mais e mais se convencia de que ela mesma ainda podia aparecer como personagem no livro de Harry Potter.
Quando deixou a sala, caminhando de cabeça erguida, sentiu que os olhos verdes a seguiam com interesse.

Mais um capítulo... eu sei que estão com medo do que Draco vai fazer com as crianças... e têm toda a razão, afinal ele lembrou-se sem mais nem menos... mas esperem pra ler e ver...
também concordo com a teoria do harry sensual... muito ousado... mas ainda não viram nada... kkkkkkkkkkk
Até ao próximo capítulo. bjao

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