Capítulo 4
Batidas insistentes na porta foram o presságio de uma situação tensa para Hermione e Harry.
— Por que você não me contou? — perguntou ele, furioso, entrando no chalé e puxando-a para o meio da sala. Mesmo assim foi impossível deixar de receber o impacto provocado por aquela figura máscula, e bem-vestida, com um smoking elegante e uma alvíssima camisa de seda.
Gina certamente devia ter ficado muito impressionada com ele. Mas, na realidade, o que a outra pensava não era importante. O que Hermione queria saber era a razão de ele ter aparecido àquela hora da noite, tão irritado.
— O que foi que não lhe contei? — ela replicou no mesmo tom. — E, por favor, baixe o tom de voz, caso você tenha se esquecido, há duas crianças dormindo lá em cima, se é que você não as acordou.
A chegada de Harry no Porsche prateado há alguns minutos não fora nada silenciosa, tampouco o modo como ele batera à porta do carro.
— Sinto muito. — ele falou, impaciente, procurando se controlar. — Por que não me contou quem era o seu ex-marido?
— Draco?
Hermione ficou espantada. Qualquer que fosse a razão para aquele estranho procedimento, jamais o associara com Draco. Se Harry queria discutir sobre ele, por que não deixara para o dia seguinte, em vez de vir àquela hora da noite? E o que o fazia pensar que o assunto era de sua conta?
— Por que acha que tem o direito de vir até aqui me questionar sobre algo tão pessoal? A visita de Draco a meus filhos não é de sua conta... E, se pensa que o beijo que me deu lhe dá esse direito, está muito enganado! Eu...
— Sobre o que está falando? — ele a interrompeu. — Quem mencionou essa maldita visita?
— Você?
— Nada disso. — ele negou com veemência. — Estou é querendo saber por que não me disse que Draco era sobrinho do coronel?
— Oh! — Hermione sentiu que empalidecia quando entendeu como fora estúpida. Claro que Harry Potter não dera importância àquele beijo!
Harry sorriu ao perceber seu embaraço.
— Você fez isso de propósito, não foi, Hermione?
— Esqueci de lhe contar. — ela admitiu ainda sem jeito. — ... achei que a ligação entre Draco e o coronel não tivesse importância para você.
— Tornou-se muito importante, no momento em que eu disse que seu ex-marido era um cretino por ter abandonado você e as crianças!
Foi a vez de Hermione achar divertido.
— Você fez isso? — ela perguntou, rindo.
— Fiz, sim, senhora. E pare de achar engraçado. Posso perder a cooperação do coronel por causa disso!
— Não creio. Ele está muito feliz por poder reviver seu passado de glórias para deixar passar essa oportunidade.
— Você parece ter um certo ressentimento contra o coronel, mas não pode responsabilizar um homem gentil como ele pelo procedimento de Draco.
— Não o culpo e também não sou tão neurótica, apesar da boa impressão que o coronel possa ter dado a você. Só acho que já se falou e se escreveu o suficiente sobre Hitler e o nazismo.
— Considerando que você ainda não conhece o enredo do livro, não acha que está sendo um pouco radical?
A resposta cortante de Harry fez com que se sentisse injusta, medíocre.
— Talvez você tenha razão... Só espero que minha omissão não o tenha colocado numa situação constrangedora.
— Procurei me sair da melhor maneira possível.
Hermione estava certa disso. Harry Potter tinha charme suficiente para se sair bem de qualquer situação, no entanto, não era antipático ou convencido. Aliás, talvez residisse aí o segredo de seu carisma...
Quando Hermione ergueu o olhar para ele, tudo que viu novamente foi seu ar divertido e seguro.
— Não julguei que fosse voltar tão cedo. — disse ela, mudando de assunto, mas acabou caindo na própria armadilha. Seu modo de falar revelava que estava atenta aos movimentos do vizinho.
Harry sorriu para ela, revelando que não era do tipo que guardava rancor.
— Pode me oferecer um café?
— Gina não serviu café a você?
— Ou estou muito enganado, ou você está com ciúme. — Harry a fitava com olhar zombeteiro e Hermione sentiu que corava fortemente.
— Não seja ridículo! — ela negou, perguntando-se por que aquele homem insistia em flertar com ela, quando fazia tudo para rejeitá-lo.
— Gostaria que fosse verdade. Você não me respondeu sobre o café.
— Venha, eu faço num instante.
Ele a seguiu até a cozinha. Enquanto preparava o café, Hermione perguntou-lhe:
— Você está escrevendo atualmente?
— Atualmente não. Escrevo um livro por ano, e gosto de pesquisar, antes de iniciar um trabalho.
A lembrança de que iria trabalhar para ele a fez estremecer.
— Já deram a notícia a Gina?
— Não vejo por que está tão preocupada. Ela concordou plenamente... mas não deixou de silenciosamente ranger os dentes. — ele acrescentou, divertido.
Incapaz de reprimir seu bom humor, Hermione começou a rir, fazendo desaparecer toda a tensão que havia entre eles. Logo os dois sentavam-se no sofá, com suas xícaras de café.
— A srta. Gina deve ser do tipo que não gosta de receber ordens.
— Mas não é normal ela deixar que percebam isso.
— Nós a pegamos de surpresa, Hermione.
— Como fizeram comigo!
— Só que você não conseguiu disfarçar como ela fez. Devia ver a sua cara hoje à tarde, na sala do coronel — Harry sorria bem-humorado.
— Eu devia aprender a representar!
— A que horas devo chamá-la amanhã?
— Amanhã? Não trabalho aos sábados.
— Por acaso falei em trabalho? Céus, Hermione, você nunca me entende? Eu... se importa se eu tirar o paletó? Como está quente esta noite! — e passou o dedo por dentro do colarinho.
Ela devia lembrá-lo de que realmente já era bem tarde, mas não queria ser tão indelicada.
Quando ele desabotoou o paletó, revelando o peito largo sobre a camisa de seda, Hermione desejou não ter concordado. Harry desmanchou o nó da gravata e a atirou na cadeira mais próxima, junto com o paletó. Começou a abrir a camisa... a pele bronzeada apareceu coberta de pêlos negros.
— Assim está melhor. — e pousou o braço sobre o encosto do sofá, virando-se para olhá-la. — Onde estávamos? Ah, sim. Por acaso esqueceu que iremos todos nadar amanhã?
Ela tinha feito de tudo para esquecer, mas Kim e Andy não falavam em outra coisa até a hora em que foram dormir.
— Não se sinta na obrigação de nos levar, os gêmeos devem ter pressionado você.
— Nunca faço nada por obrigação. Estou realmente querendo levar vocês para nadar. Não se iluda com esse homem que tem diante de si, Hermione, por nada no mundo eu faria algo que não desejasse fazer.
Hermione tinha certeza disso. Desde o início desconfiara que, sob o bom humor, se escondia uma firme determinação e que aquele homem sempre encontraria uma maneira de conseguir exatamente o que desejava.
— Será que você me impediria de realizar uma coisa que estou louco para fazer desde a primeira vez que a vi? — Harry a encarou por um momento antes de descer o olhar e fitar seus lábios carnudos.
Involuntariamente, Hermione se contraiu presa à sensualidade embriagadora dos profundos olhos verdes, a apenas alguns centímetros dos dela, mas procurou relaxar.
— Depende do que queira fazer... — ela falou numa voz baixa, rouca, distorcida pela emoção.
— Beijar você. — respondeu ele, olhando-a nos olhos.
Na verdade, ela já sabia a resposta antes de fazer a pergunta, mas pretendera adiar o momento de ouvi-la.
Harry segurou-lhe o queixo e respirou fundo e Hermione abriu os lábios para receber os dele.
Esse beijo foi ainda mais devastador do que o da noite anterior, só que agora ele não parecia ter a intenção de parar nisso. E Hermione se viu correspondendo, procurando o prazer. Os lábios que comprimiam os dela eram cada vez mais exigentes, a mão que a acariciava cada vez mais ousada, tocando-lhe os seios fartos, os quadris. Sem pensar, ela o apertou fortemente contra si, como se quisesse conservá-lo ali para sempre.
— Estive desejando isso desde o momento em que pus os olhos em você. — ele murmurou contra seu pescoço, desabotoando-lhe a blusa. E os lábios foram delicadamente beijando-lhe o colo gracioso até chegar aos seios. Mil sensações a envolveram quando sentiu o calor dos lábios de Harry sobre seu mamilo.
"Muito rápido... rápido demais...", pensou.
— Hermione, você também está desejando isso?
Desejando o quê? Aquele excitamento selvagem? A intimidade daquelas carícias sensuais? Sim... queria tudo aquilo, mas não queria as emoções que viriam depois. E, afinal, mal fazia vinte e quatro horas que se conheciam. Sem hesitação, empurrou-o. Estava se portando levianamente com um homem que era quase um estranho.
— Ei! Nada aconteceu! — ele a repreendeu suavemente, notando como empalidecera.
— Não! — ela gritou enquanto recuava, empurrando-o com toda a força. Afundou no sofá, fechando a blusa e ouvindo o som da própria respiração entrecortada. Realmente nada havia acontecido, mas ela tremia. Nunca sentira um desejo tão repentino! — Você talvez tenha mais sucesso com Gina.
Os olhos verdes brilharam furiosos, mas Harry parecia calmo ao falar e estender a mão para afastar-lhe os cabelos do rosto.
— Gina não me interessa. Sou muito mais velho que ela, Hermione. Será que também me acha muito velho para você?
— Não seja ridículo!
— Treze anos! Quase uma geração inteira entre nós.
— Sua idade nada tem a ver com isso, Harry.
Ele se levantou, apanhou o paletó e colocou a gravata no bolso.
— Não pretendia vir até aqui esta noite e atacá-la outra vez... mas não consigo manter minhas mãos longe de você.
— Será que você se esforçou o bastante para conseguir isso? — ela perguntou, séria, porém sem conseguir evitar o rubor.
Harry soltou um longo suspiro, o olhar fixo nela.
— Acha que devo fazer isso?
— Não estou certa. — ela admitiu com sinceridade.
— O que a preocupa, Hermione? Está com medo de mim, por acaso? Posso garantir que não represento um perigo assim tão grande. — durante um momento ele parou hesitante, mas depois continuou. — Você ainda o ama, não?
— Quem? Draco?
— Bem, creio que a ouvi dizer que ele foi o único em sua vida.
— Ele "foi" o único... — e acrescentou baixinho. — até agora.
— Então, quer dizer que ainda o ama. — disse Harry, aborrecido.
Hermione nunca sentira necessidade de falar com alguém sobre seu casamento fracassado, mas naquele momento pareceu-lhe importante desabafar.
— Quando me casei com ele estava cheia de sonhos de adolescente. Quando, meses depois, tudo começou a desmoronar, culpei o trabalho de Draco pelo fracasso e por mantê-lo constantemente afastado de mim... até que um dia percebi meu engano. Não era o trabalho, nem tampouco as viagens que haviam acabado conosco. Nesse tempo, amadureci, descobri que queria um homem não um sonho, e compreendi que não precisava mais dele.
Hermione se interrompeu por alguns instantes. Havia lágrimas em seus olhos, ao admitir para Harry algo que sempre tivera medo de admitir a si própria.
— Eu nunca me senti necessária na vida de meus pais. Talvez por isso sempre tenha procurado alguém que realmente precisasse de meu amor, e, quando encontrei Draco, achei que fosse essa pessoa... Se eu não tivesse engravidado, nosso casamento poderia ter durado indefinidamente. Só que Draco não aceitou dividir meu amor com os gêmeos. Não posso culpá-lo. Não quando descobri que também queria a separação. Agora tenho os gêmeos para amar e cuidar, e com isso minha vida está completa. Não penso em um novo casamento.
— E durante todo esse tempo nunca precisou da ajuda de Draco?
— Quando ainda estávamos casados, ele foi para Londres e passou vários dias sem dar notícias. Nas duas vezes em que telefonei para seu apartamento, vozes femininas diferentes atenderam... Quando eu disse que era a Sra. Granger, pensaram que eu fosse a mãe dele! É óbvio que ele escondia que era casado e eu não o desmenti. Também não reclamei. Draco e eu nunca devíamos ter casado e, graças a Deus, tivemos o bom senso de não continuarmos juntos.
— E nunca houve outro homem?
— Não.
— E por que resolveu não se envolver com mais ninguém? — Harry a encarava, sem perder nenhuma reação.
— Já lhe disse por que...
— Você não me entendeu... — ele tornou a sentar-se no sofá. — Estou falando de relacionamento físico.
Ela fez menção de se levantar e impedir que a conversa continuasse, mas ele não permitiu.
— Por favor, me deixe terminar. Se eu quisesse poderia fazer você me desejar, mas não quero apenas sexo...
— Após somente dois dias?
— Após dois minutos.
Hermione engoliu em seco diante da determinação que percebia na voz tensa.
— Vou repetir para que não haja dúvidas, Harry. Neste momento, não desejo nenhum envolvimento amoroso.
— E se eu a forçar a me aceitar?
Ela balançou a cabeça.
— Não acredito que você, ou qualquer outro possa fazer isso.
— Está certo, mulher adorável. Já a pressionei demais e sei que tem muito sobre o que pensar para uma noite. — ele sorriu satisfeito.
Harry estava certo. Pela segunda noite consecutiva, Hermione perdeu o sono, tentando expulsar da mente a figura daquele homem. Não entendia o que ele queria. Embora ele desse a entender que desejava mais — seu amor, seus sentimentos mais íntimos, seus desejos mais secretos —, contudo devia desejar apenas sexo. Azar o dele, mesmo que se passassem anos, ela não lhe entregaria nada. Já tinha tido sua cota de sofrimento.
O carro de Harry impressionava ainda mais por dentro do que por fora. Era de extremo bom gosto e muito confortável. Após rodarem alguns minutos, Hermione perguntou:
— Esse não é o caminho para a piscina local! — Encarou Harry, vendo que ele dirigia o carro para fora da cidade, pela estrada sinuosa que ia em direção à costa.
— Não, não é — ele confirmou serenamente, apreciando a paisagem.
Tinha batido na porta do chalé vinte minutos atrás. No rosto não propriamente bonito, mas incrivelmente másculo, destacavam-se os olhos verdes e expressivos.
Após o que tinham conversado na noite anterior, havia mais do que um bom motivo para Hermione recusar o convite para ir nadar, mas a euforia de Kim e Andy ao saberem do passeio foi grande demais para ser ignorada. Ainda agora, sentado no banco traseiro do Porsche, com o lanche caprichosamente arrumado na cesta de palha, não reprimiam a alegria.
Hermione franziu a testa quando Harry tomou outra direção, entrando na auto-estrada.
— Pensei que fôssemos nadar!
— E vamos.
— Onde?
— Na praia.
Enquanto os gêmeos pulavam de alegria, ela disfarçou sua surpresa. A praia mais próxima ficava a cinqüenta quilômetros dali, e já fazia quase um ano que Hermione levara as crianças até lá. Com o trajeto de ida e volta, Hermione calculava que passariam quase que o dia inteiro juntos. Se soubesse disso, teria recusado o convite, antes que Kim e Andy ficassem sabendo.
O olhar travesso de Harry demonstrava que ele adivinhara o que se passava na cabeça dela. E, pelo modo como o viu sorrir, soube que sua expressão falava tudo o que não podia dizer em voz alta.
— Isso é chantagem, Sr. Potter — sussurrou ela, com a boca crispada.
— Exatamente — ele admitiu, sem parecer arrependido.
Apesar da beleza do enorme parque que dava vista para o mar, Hermione ainda estava furiosa com a manobra de Potter, ao chegar ali. Pararam debaixo de uma grande árvore que dava sombra para uma mesa de piqueniques.
Andy acompanhou Harry ao vestiário dos homens para colocar o maiô e ao voltar foi com a irmã andar pela praia, à procura de conchinhas.
Tudo parecia perfeito, as ondas do mar quebravam na areia da praia formando uma espuma branca e produzindo um som maravilhoso.
— Eles estão adorando o passeio — disse Harry. E se apoiou nos cotovelos ao lado de Hermione.
O corpo musculoso e bronzeado estava coberto apenas por um maiô reduzido. Hermione ruborizara-se, quando ele surgira diante dela com Andy, e, ainda agora, encontrava dificuldade em enfrentar sua virilidade. O rubor aumentou quando Harry olhou intensamente para as curvas suaves de seu corpo esguio, parando no bustiê minúsculo e atrevido. Os gêmeos, alheios em seu pequeno mundo, nada percebiam. A tensão entre os dois era quase palpável e Hermione tremeu, mesmo sem querer, quando Harry vagarosamente correu os dedos por seu braço até capturar a mão pequena e macia. Tentou se afastar, mas ele a reteve com firmeza.
— Não. Não sou nenhum maníaco sexual. Fique tranqüila.
Hermione permitiu a pequena intimidade, enquanto em seu cérebro soava um alarme. Sabia exatamente o que Potter estava fazendo. Com inteligência e habilidade, ele a punha numa situação difícil de ser resolvida. Os gêmeos não pareciam ver nada de anormal no fato de sua mãe estar de mãos dadas com um estranho; um homem que, apesar da pouca convivência, já começavam a amar.
— O que eles pensariam se soubessem, Harry?
Surpreso, ele encarou-a.
— Soubessem o quê?
Hermione suspirou, impaciente.
— Você não está jogando limpo e sabe disso.
— Não entendi o que quer dizer.
— Está usando as crianças para me obrigar a passar o dia com você.
— É isso o que está pensando? — a expressão de Potter endureceu. Os lábios tornaram-se uma linha branca, apertada: numa manifestação de raiva.
— Exatamente. Devia saber que, após o que lhe disse ontem, preferia não ter vindo.
— Você sempre foi assim tão covarde? — ele perguntou com ironia.
— Covarde! — ela gritou, indignada.
— É, sim. Covarde com seus sentimentos. Por que motivo resolveu que as crianças seriam as únicas criaturas no mundo com as quais deveria se importar?
— Gostaria de nunca ter lhe dito o que disse esta noite.
— Talvez, mas agora é tarde para se retratar. — as mãos de Harry se fecharam violentamente sobre seus ombros, machucando-a. — Não percebe como é fácil amar uma criança? Você pode se entregar a ela sem risco de rejeição. Amar adultos é arriscar e é disso que você tem medo, Hermione.
— Amor? Não estamos falando sobre amor. Estamos falando sobre sexo.
— Essas coisas se confundem quando envolvem um homem e uma mulher. — Harry replicou, frio e inflexível.
— Ora, não diga bobagens! — Ela tentou se afastar, mas ele a puxou para junto de si.
— Talvez seja tolice para sua mente reprimida.
— Não sou reprimida! — o desespero dava um tom agudo à voz de Hermione, e o fato de ele a ter descrito com a mesma expressão que Draco usava a deixava furiosa. — Você é que deve ter esse problema.
— Eu? — Harry ergueu a sobrancelha.
— Sim. Por que outro motivo irritaria tanto ao ser rejeitado?
Ele a olhou friamente durante alguns segundos antes de se levantar.
— Penso que as crianças gostarão de companhia. — e se afastou sem olhar para trás.
Como Harry se atrevia a chamá-la de covarde? Seria covardia evitar um caso com um homem que mal conhecia, e que logo a deixaria? Ele dissera que não desejava somente sexo, mas o que mais poderia querer, se não ficaria na cidade mais do que duas semanas? E por que ela ficava ali sentada, questionando-se, se nada tinha para se reprovar? Não havia razão para se sentir culpada, e Harry Potter não tinha o direito de aparecer em sua vida e virar tudo de pernas para o ar!
Mais tarde Hermione juntou-se aos outros na beira da água, determinada a ficar alegre por causa dos filhos, nem que o esforço lhe custasse uma dor de cabeça. Harry estava um tanto seco com ela, e parecia magoado. Mas seu bom humor prevaleceu e, na viagem de volta, com os gêmeos dormindo no banco de trás, era como se a cena da praia jamais tivesse acontecido.
Olhando o sol que morria no mar, tingindo a costa de vermelho e transformando a paisagem numa silhueta violácea, Hermione se perguntava como aquele homem tinha conseguido manobrá-la com tanta facilidade.
"Harry é perigoso", pensou, acomodando-se no banco confortável.
Draco nada mais fora do que um amor infantil, que ferira seu orgulho; mas esse estranho invadira sua casa, sua vida e começava a mexer com seus sentimentos. Era inteligente e tinha um agradável senso de humor... mas havia algo mais... a paciência, a persistência de quem sabe o que quer. Seu instinto de mulher a avisava do perigo de se envolver com um homem capaz de obter tudo o que desejava. Pensando bem, aquele homem era perigoso demais: o físico perfeito, a sensualidade latente e o mistério dos profundos olhos verdes...
— Seus filhos são adoráveis. — Potter falou, tirando-a de seus devaneios. Era a primeira vez que se falavam desde o incidente na praia.
— Sim. — ela respondeu concisa, mas querendo que a conversa continuasse.
— Você deve se orgulhar deles. E Draco... também se orgulha deles?
— Claro que sim. Porque está perguntando isso?
— Andy mencionou que o pai nunca os levou à praia.
— Mencionou? — Hermione perguntou, perplexa. — Conheço Andy muito bem e sei que esse tipo de coisa ele não costuma "mencionar".
— Você quer dizer que eu o induzi a isso?
— Exatamente!
— Você está certa. Fiz isso. — Potter suspirou.
— Mas por quê? — disse ela, desconcertada, sem saber exatamente por que ele lhe dizia tudo aquilo.
— Não tenho certeza. — admitiu ele, fitando-a intensamente.
Para alívio de Hermione, estavam chegando em casa. Quando o vira pela primeira vez, ela o julgara apenas um galante paquerador e agora estavam ali conversando sobre coisas tão sérias.
— Ajudo você a levá-los para dentro. — disse Harry após estacionar o carro.
Apesar da movimentação, os gêmeos não acordaram ao serem carregados e colocados na cama. Ao retornarem do quarto, Hermione o viu sentado no sofá. Imaginava por que ele não aproveitara a oportunidade para ir embora, enquanto ela estava lá em cima. Dando à voz um tom de despedida, disse:
— Obrigada pelo dia adorável.
— O dia não foi o sucesso que poderia ter sido.
— Depende a que sucesso você se refere. Kim e Andy se divertiram bastante e eu também.
— Que mente desconfiada você tem, Hermione.
— Conheci vários homens que achavam que, me cantando, estariam me livrando das frustrações dos últimos quatros anos.
Ele hesitou por um momento antes de responder.
— Não eu. Não quero para mim uma mulher tão cruel. — Após um breve silêncio, Potter continuou. — E sabe de uma coisa? Penso assim desde que tive uma súbita paixão por uma amiga de minha mãe, quando tinha dezessete anos.
Hermione não pôde deixar de rir diante da confissão sincera.
— E elas chegarão a descobrir?
— Mamãe soube, mas Joan, era assim que ela se chamava, nunca desconfiou de nada. Acho que a minha "musa" não assistiu ao filme A Primeira Noite de um Homem. Fiz tudo o que pude para que ela pensasse em mim como um homem sexualmente informado, mas não tive sucesso. Foi horrível para meu ego. Evitei encontrá-la durante um bom tempo.
Hermione riu alto.
— Ah! Você dá risada... — ele fez uma careta. — Na época, eu pensava que era um ser desprezível só porque não tinha namoradas.
— Casos, você quer dizer... E atualmente? — Hermione perguntou, mas se arrependeu em seguida. Harry a analisou dos pés à cabeça, ele a quase se tornou cativa daquele olhar tão penetrante.
— Atualmente? — Ele se ergueu e caminhou vagarosamente pela sala, com a graça de um felino, ao encontro dela. — Atualmente, prefiro qualidade em vez de quantidade.
Hermione corou fortemente.
— Harry, será que...
Ele impediu-a de falar, tapando-lhe a boca com a mão.
— Não tem por que ter medo de mim, Hermione. E lembre-se de uma coisa; se eu quisesse, poderia fazer amor com você agora mesmo. Talvez o tempo a faça enxergar...
— É claro que vemos as coisas sob ângulos diferentes. Não tenha tanta certeza disso — ela falou procurando se soltar.
O silêncio ficou no ar, mas, de alguma maneira, a tensão tinha desaparecido.
— Você duvida? — Potter desafiou-a.
— Isso não é importante.
— Para mim é. Sei que assustei você e normalmente sou considerado uma ótima pessoa. E, por enquanto, compreendo que é melhor ser o "moço bonzinho que mora ao lado".
— Estou certa de que você é uma pessoa muito popular — ela caçoou.
— E sou — ele falou, sério, embora toda aquela seriedade fosse desmentida pelo brilho de humor em seus olhos. — Mas com você fui muito inflexível e me intrometi em coisas que não devia — acrescentou, com os lábios próximos ao rosto dela.
— Então quer dizer que pretende se transformar num outro homem no que se refere a mim? Um amigo?
— Pretendo... Mas só que eu começo amanhã — Potter falou com voz rouca.
Hermione mal teve tempo de registrar o que ele disse, pois foi beijada com paixão. Não estava preparada e, sem defesas, correspondeu totalmente àquele toque. Sabia que Harry manteria a palavra, mas naquele momento não se importava se ele cumpriria a promessa. Na verdade o que queria era sentir os braços fortes em torno de seu corpo, se perder no abraço apertado de Harry.
O desejo tomou conta dele quando a viu mover-se sensualmente contra seu corpo. Afastou os lábios dos dela com dificuldade e murmurou:
— Você quer que eu quebre minha promessa?
Hermione afastou-se, recriminando-se; fechando-se de novo em sua concha.
— Sinto muito...
— Não. Não sinta — Potter levantou-lhe o queixo. — Mas não repita isso, se quer que eu seja apenas o "moço bonzinho da casa ao lado". Posso ter mais controle agora do que quando tinha dezessete anos, mas minha paixão é muito mais intensa...
Hermione mordeu o lábio nervosamente.
— Já é tarde.
— Sei disso e você deve estar cansada. Estarei esperando vocês amanhã para o almoço. — Caminhou em direção à porta, deixando-a com a lembrança de seu lindo sorriso.
Confessem lá... esse Harry é de arrancar suspiros... rsrsrsrsrsrsrsrs Mas já discutem... a Mione foi um pouco dura com ele, naq praia, pobrezinho.
No próximo capítulo o Draco chega... Pois... O capítulo não vai acabar nada bem...
Continuem comentando. bjao
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