Uma noite diferente



CAPÍTULO 13 - Uma noite diferente

Madame Pomfrey levantou os olhos e encarou a garota aflita e trêmula que se encontrava em sua frente. Após mais um ligeiro suspiro, deu a notícia, com a voz fraca:
-O Sr. Potter... Ele... Está desacordado...
-Ah, mas ele está bem? – falou Hermione, abrindo um sorriso.
-Infelizmente, não está, querida – disse a enfermeira, segurando os ombros da jovem. – Se dissesse que está tudo bem, estaria mentindo... O caso de seu amigo é muito grave.
Hermione começou a desatar em lágrimas novamente.
-Não sabe o quão é difícil ter que lhe dar uma notícia dessas... – falou Madame Pomfrey, cada vez mais atingida pelo sentimento de angústia contido na alma da garota em sua frente. – O Sr. Potter ainda corre risco de vida. Mas ainda resta esperança! Estive utilizando alguns métodos cirúrgicos e mais tarde vou continuar a cuidar dele.
-Mas... Ele não pode mesmo falar comigo? E se a senhora tentasse acorda-lo?
-Não, queridinha, ele está muito fraco. Perdeu muito sangue. Aliás, foi muito bom vocês terem trazido ele logo. Se o sangue não fosse estancado logo... Talvez ele tivesse... morrido.
Mione soluçou e espichou o pescoço para dentro da enfermaria.
-A senhora disse que o Rony está bem. Posso falar com ele?
Madame Pomfrey queria que o paciente repousasse, porém, vendo o sofrimento de Hermione, não pôde deixar de permitir que a garota visse o amigo de quem tanto gostava.
-Está bem – sorriu ela. – Vá falar com ele. Mas por poucos minutos. Preciso continuar a cuidar do Sr. Potter e necessitarei de silêncio.
-Obrigado, Madame Pomfrey.
Hermione correu até a cama onde Rony estava, não deixando de tentar olhar para Harry, tentativa que fora sem sucesso algum, já que o cortinado do garoto estava fechado.
Rony estava com os olhos semicerrados, uma enorme atadura no ombro e pálido. Ao reconhecer Hermione, sorriu. A garota ajoelhou-se ao lado da cama de Rony, chorando compulsivamente, até que sentiu uma mão quente tocar-lhe o rosto e secar-lhe as lágrimas.
Aquele toque transmitiu uma paz inexplicável para Hermione. As lágrimas estancaram. O mundo girou. O calor daquele toque se espalhou por todo o seu corpo, e a calma tomou conta do seu peito. Se pudesse, ela pararia o tempo ali, naquele momento. Era uma sensação muito mágica para se perder...
A jovem foi trazida de volta ao mundo real pela voz da mesma pessoa que fizera com que toda a sua aflição se evaporasse com apenas o calor de suas mãos.
-Mione... Não chore... – murmurou Rony, ainda acariciando o rosto da garota.
Hermione olhou o rosto do amigo com ternura. Ela não sentia mais vontade de chorar. Mas tinha que libertar o resto de amargura que ainda dominava a sua mente.
-A culpa foi toda minha Rony...
-Não foi, Mione... Harry foi pego de surpresa, e eu...
-E você foi ferido quando eu estava segurando aquela lança!
-Mas foi um acidente... Eu sei que foi... Você estava segurando a lança para ferir... aquele assassino... Eu que cai em cima da lança... porque ele desviou... Foi isso que aconteceu...
Os olhos de Rony, embora estivessem um pouco fechados, transmitiram sinceridade, a única coisa que faltava para dissipar o sentimento de culpa que Hermione carregara junto a si até aquele momento.
Rony tirou a mão do rosto de Hermione e a colocou junto ao corpo. Mione, sorrindo, pegou a mão do garoto e segurou firmemente. Hermione sentiu um aperto engraçado no peito, uma sensação nunca experimentada em toda a sua vida.
-Tenho medo de que Harry...
-Isso não vai acontecer, Mione... – falou Rony. – Temos que ter... fé.
Hermione sorriu e beijou a testa pálida do amigo. Ainda segurando as mãos do jovem, aproximou-se do seu ouvido e cochichou:
-Bem que dizem que a gente só dá valor a certas coisas da vida quando estamos pertos de perder.
Rony franziu a testa.
-Isso quer dizer que... Você não gostava de mim?
-Não, Rony. Isso quer dizer que eu... – hesitou por um momento. – estou gostando ainda mais de você.
E finalmente soltaram as mãos. Por um instante fugaz, Hermione desejou passar o resto da noite ali, sentindo o toque quente das mãos daquele garoto que tanto gostava.
Ao sair, viu Madame Pomfrey ir rapidamente em direção a cama de Harry. Tentou espiar novamente, mas foi em vão. O máximo que viu foram os óculos de aros redondos do garoto, seguros na mesa-de-cabeceira.
Ao caminhar pelos corredores em direção a sala comunal, Hermione lembrou-se do momento mágico que Rony lhe proporcionara. Talvez houvesse mentido ao dizer que estava apenas gostando mais do garoto... Na verdade, estava, mas não era no sentido de amizade...
“Deixe de ser ridícula, Hermione”, pensou ela. “Rony é apenas um amigo... O que as pessoas iriam dizer se eu gostasse dele? Mas... Eu não sinto nada além de amizade! Claro que não... Estou confundindo as coisas”.
E, nessa mesma confusão, Hermione chegou a sala comunal, entrou no dormitório e se deitou. Na cama, seus pensamentos devanearam entre o estado crítico de Harry e o momento especial proporcionado pelo simples toque de um amigo...

* * *

Na sala comunal da Corvinal, Jeniffer Yumi, Laurie Sawyer e James Smith cercavam o amigo Christian Baker, que recebera alta da ala hospitalar no momento em que Harry e Rony chegaram, feridos. Obviamente que o assunto era justamente os garotos feridos.
-Então... foi só isso – encerrava Christian. – Mas também nem deu pra ver direito, principalmente o Potter, já que estava mais cercado de cuidados.
-Claro – disse Laurie. – Uma lança enfiada na barriga... Imagine! Região perigosa, hein?
-Quer dizer que você chegou a dar uma espiada, não é, Laurie? – zombou Jennifer.
-Claro que não – falou a garota com convicção. – Eu... não vi nada.
-Pensei que tivesse visto – estranhou Jennifer, com sua costumeira desconfiança.
-Ah, por que você sempre acha que as pessoas estão te enganando, Jennifer? – falou a garota, com a voz estridente no ápice. – Fica toda desconfiada... Parece até que desconfia que eu matei... digo, tentei matar aqueles dois!
-Ninguém disse isso, Laurie – disse James. – Mas que foi estranho o seu desaparecimento na hora do jantar, isso foi.
-Será que não podia sair na hora que eu quisesse?
-Podia, mas deveria ter avisado – murmurou Jennifer. – Mas, claro, você pode estar tentando esconder alguma coisa.
-Tudo bem, então é assim... Todos os meus amigos desconfiados de mim!
Ela levantou-se, ajeitou as vestes e, com furor, disse:
-Querem saber? Eu vou sair de novo.
-Ah, deixa de ser boba, aonde você vai a essa hora?
-Não vou dizer, Jennifer.... – falou Laurie, balançando as trancinhas. – Usem a imaginação. E vejam se aprendem a não desconfiar mais de mim.
E saiu, batendo os pés fortemente no chão. Jennifer sorriu e olhou para Christian e James:
-Mais uma cena da Laurie. Quero ver o Filch pegar ela zanzando pelos corredores em horário inadequado.
-Então, Christian, continue sua história! – disse James, os grandes olhos azuis faiscando de ansiedade.
Christian suspirou.
-Desculpe, James, mas acho que não vai dar... Estou preocupado com a Laurie.
-Ah, não a escute! – falou Jennifer. – Garanto que ela nem saiu da frente da sala comunal. O que ela quer é isso, que fiquemos preocupados com ela.
-Também acho, Christian – colaborou James. – Laurie adora atrair as atenções para ela.
-Gente, como vocês podem ficar tão calmos? – indignou-se Christian. – Não se esqueçam do perigo que Laurie está correndo, sozinha, lá fora... O Michael Evans pode estar matando a nossa amiga nesse exato instante.
-Michael Evans não existe, Christian – falou Jennifer, olhando para o garoto com impaciência. – Existe um assassino, sim, mas não é esse tal de Michael que todos sabemos ser uma lenda.
-Oh, Chris, você não acha que o Papai Noel não poderia estar matando também? – zombou James, gargalhando.
Christian fechou a cara e levantou-se.
-Querem saber? – vociferou ele, olhando de Jennifer para James, que ainda ria compulsivamente. – Eu vou atrás dela e irei encontra-la. E repito que ainda provarei a vocês que Michael Evans existe sim!
Christian saiu com furor. Antes de sair ainda pôde ouvir o comentário vindo da voz irônica de James:
-Vê se também tome cuidado com o Grinch. Ele pode ser agressivo.
E mais risadas ecoaram nos ouvidos de Christian. Somente quando a estátua de Ravenclaw fechou a passagem para a sala comunal, ele se viu livre do som irritante das gargalhadas.
Com o peito palpitando e o suor escorrendo pela testa, ele começou a caminhar, se embrenhando na sombria noite do castelo.

* * *

Úrsula Hubbard, Draco Malfoy e Kevin Wallace estavam reunidos num corredor do quarto andar. Embora este fosse iluminado por archotes, Úrsula observava que os dois rapazes não pareciam estar muito confortáveis no local.
-Ah, lamento se os bebês estão com medo – disse ela, com sarcasmo, imitando voz de criança. – É a única hora em que não temos estudantes idiotas e curiosos para ouvirem nossa conversa. E, claro, vale lembrar que não cairia bem pra uma aluna da Grifinória como eu ser vista com uma dupla de Sonserinos.
-Tudo bem, Úrsula, nós já entendemos – disse Draco, atropelando as palavras e olhando mais uma vez para a ponta do corredor. – Termina logo a explicação sobre esse bendito plano!
-Calma, querido! Isso tudo é o que? Medo de serem os próximos a morrer?
-Eu reconheço que é – confirmou Wallace. – Você também teria se estivesse com seu nome na lista dele!
-Relaxem... relaxem... – disse Úrsula. – Vocês já sabem que terão que se inspirar na genialidade desse criminoso para concluirmos nosso próximo plano.
-Sei não, Úrsula, esse plano me parece perigoso – falou Draco, com apreensão.
-Estão com medo de serem pegos, não é? Mas é claro que não serão!
-Ah, como você pode nos garantir que a primeira reação da Granger não vai ser voar em mim? – continuou Draco. – E, se ela descobrir quem eu sou, pensará que sou eu o verdadeiro assassino, não acha? Pode me denunciar!
-Será bom – sibilou Úrsula, sorrindo maliciosamente. – Afinal, quem garante que você não é?
Draco fuzilou Úrsula com o olhar.
-Eu não estou matando todas essas pessoas! – falou ele firmemente.
-Quem pode garantir, Draco? – disse a jovem, sem perder a ironia. – Até seu amigo aqui, o Wallace, pode ser o grande criminoso.
-Eu? – estranhou o garoto. – Nunca matei ninguém, ouviu bem, garota?
Úrsula puxou os cabelos do garoto com força. Kevin não pôde deixar de soltar um grunhido de dor.
-Tome cuidado, Wallace. Nunca se esqueça de que quem está no comando de todos os nossos planos sou eu. E eu exijo respeito, ouviu bem?
Úrsula soltou o garoto, que caiu no cão, passando a mão pela cabeça dolorida.
-Bom, acho que já está tudo planejado... – falou a jovem, com um largo sorriso. – Para alívio de vocês, a nossa reunião está encerrada e, como podem ver, estamos todos vivos.
Draco lançou um último olhar para a garota e saiu. Kevin levantou-se rapidamente e saiu em disparada atrás do amigo.
-E vejam se vão logo para a sala comunal! – ironizou Úrsula. – Não precisam matar ninguém!
E virou-se para o seu caminho até a sala comunal, rindo.
Quando chegava ao quadro da Mulher Gorda, viu que ele começava a se abrir. Escondeu-se rapidamente num canto, agachou-se e observou quem sairia àquela hora da noite.
Para sua surpresa, era Gina Weasley quem saía, cautelosa, olhando para todos os lados. Com passos largos e silenciosos, a garota rapidamente desapareceu na escuridão.
-Muito suspeito... – murmurou Úrsula. – Se alguém pegar essa tonta perambulando pelos corredores, ela está frita.
Úrsula levantou-se e se sentiu tentada a seguir Gina. Porém, pensou duas vezes e decidiu-se por entrar na sala comunal.
Com um último olhar a escuridão, Úrsula disse a senha e entrou na tranqüila sala comunal.

* * *

Jennifer Yumi estava deitada em sua cama, no dormitório das meninas do terceiro ano. O salão comunal estava no mais absoluto silêncio, como era de costume no salão da Corvinal.
A oriental olhou o relógio. Era muito tarde. E a cama de Laurie continuava vazia.
Jennifer resolvera ficar acordada. O silêncio era total.
Passos... Jennifer sobressaltou-se. Ela ouvira passos! Alerta, foi até a porta do dormitório e abriu uma fresta. Seus olhos se arregalaram de surpresa.
Cho Chang havia saído de seu dormitório e descia até a sala comunal. A garota parecia aflita. Jennifer aguardou o cessar dos passos e saiu do seu dormitório. Espichou o pescoço para baixo. Ninguém, Cho já havia saído.
-Preciso avisar ao James – sussurrou para si mesma. – Laurie e Christian correm perigo.
Rapidamente, porém tentando andar com passos leves, Jennifer foi até o dormitório dos jovens do terceiro ano. Abriu levemente a porta. Entrou com a máxima cautela para não acordar nenhum dos garotos. A primeira cama, de Christian, permanecia vazia. Quando a garota olhou para a cama da outra ponta, que era a cama de James, ela levou um susto.
Estava vazia.
Jennifer nem esperou o susto passar, saiu em disparada e logo estava saindo da sala comunal, se enfiando no meio dos corredores sombrios e escuros...

* * *

Draco corria sem parar... De repente, parou e olhou para trás.
Não havia ninguém. Nem mesmo Kevin. Só o fogo dos archotes crepitando.
Estava sozinho...

* * *

Dino Thomas estava apreensivo. Não sabia se deveria sair.
Ele vira Gina Weasley saindo e ela poderia voltar a qualquer momento. Se esbarrasse nele, como ele iria explicar?
Mas ele tinha que arriscar. Respirou fundo, tomou coragem e passou pelo buraco do retrato.
Olhou para todos os lados. Não havia Gina Weasley nem ninguém.
Suspirou novamente e começou a caminhar...

* * *

Com cautela e extrema rapidez, ele colocou a capa e a máscara.
Conferiu os bolsos. A faca estava afiada, e a lâmina conservava seu brilho até mesmo na obscuridade noturna.
Michael Evans estava pronto. Mais alguém seria eliminado esta noite.

* * *

Rony levantou levemente a cabeça do travesseiro e viu Madame Pomfrey cuidando de Harry. Cruzou os dedos. A esperança não podia acabar.
Um vento frio entrou pelas janelas da enfermaria e arrepiou o corpo de Rony e cessou com a mesma rapidez com que viera. O garoto estremeceu.
Rony teve a impressão de que aquele vento repentino havia sido um mau presságio, pois fora o único que entrou pelas janelas. E o arrepio...
Alguma coisa de muito ruim estava para acontecer naquela noite... Rony tinha certeza disso...
Aquela seria uma noite diferente. O por quê, ele não sabia.

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