O círculo de sangue
CAPÍTULO 11 - O círculo de sangue
Rapidamente, Harry, Rony e Hermione chegaram até a aglomeração de alunos, que crescia a cada instante. Não foi preciso espichar muito os pescoços para enxergarem além dos alunos agrupados em círculo, já que a imensa maioria era formada por alunos mais novos.
Quando Harry pôs os olhos no centro do círculo, a primeira coisa que lhe chamou atenção foi a grande quantidade de sangue espalhado pelo gramado. No meio desse sangue, distinguia-se um par de letras bem familiares para Harry: “M.E.”. Porém, surpreendentemente, havia algo a mais do que as iniciais de Michael Evans. Em outra parte da imensa poça de sangue, havia um pequenino círculo, rodeado por desenhos mal-feitos, igualmente pequenos. Harry pôde distinguir um crânio e uma aranha. No meio do círculo, havia um X.
Depois, Harry desviou sua atenção para o corpo da professora. Michael praticamente abriu o corpo da pobre Miss Reynolds e, conforme havia prometido na lista negra, havia feito questão de expor as tripas da professora, causando um mal-estar em qualquer pessoa. Um assassinato brutal. Na mente de Harry, vinha o pensamento de que, de todas as mortes brutais que já havia visto por obra das mãos malignas de Michael, essa tinha sido a mais chocante.
Próximo ao corpo da professora, havia um outro corpo. Respirando rapidamente e muito pálido, de olhos semicerrados, Christian Baker estava caído no chão, e Laurie Sawyer e James Smith acudiam desesperados. Harry presumiu que o grito que ouvira era do garoto.
Harry, furando o bloqueio humano que se formava com os curiosos, se aproximou do garoto estendido no chão.
-O que pensa que está fazendo? – repreendeu-o Smith, enfurecido. – Ele precisa respirar.
-Desculpem-me, mas é que… - e Harry se abaixou ao lado de Christian, tapando o nariz devido ao cheiro insuportável que o corpo da professora começava a exalar. – Christian, está me ouvindo?
-Estou – murmurou Christian, ainda tonto.
-O que houve exatamente? Como... Como você encontrou o corpo dela?
-Você não vê que ele precisa respirar? Não dá pra perguntar isso depois? – indignou-se James, empurrando Harry.
-Por que tem que ser depois? – rebateu Harry. – Por acaso, você se sente ameaçado com o que Christian pode me contar?
-Está me acusando, Potter? – falou James. – Simplesmente estou preocupado com o meu amigo.
-Você é que é digno de desconfiança, não o James – intrometeu-se Laurie. – Por que tanto interesse no que o Chris viu? Além disso, todo mundo sabe que você saiu sangrando do local onde o Professor Snape foi assassinado. Você é o assassino, Potter.
Harry resolveu ignorar os comentários e voltou-se para Christian.
-Então... Você viu a pessoa que matou a professora?
-Não – murmurou Christian. – James, Laurie e eu viemos caminhando por aqui, quando sentimos um cheiro muito forte. James e Laurie esperaram, enquanto eu fui dar uma olhada. Foi aí que encontrei o corpo da professora.
-Então o crime ocorreu há mais tempo?
-Sim – concordou Christian, se erguendo um pouco, já com o sangue voltando a face. – Provavelmente foi cometido no começo da manhã.
Nesse momento, aparecendo inesperadamente, surgiu a Professora Minerva e o Professor Dumbledore.
-Não posso acreditar! – disse Minerva, levando as mãos aos olhos. – Outra pessoa morta!
-E mais um de nós, Minerva – disse Dumbledore, que olhava para o corpo ensangüentado de Miss Reynolds sem demonstrar reação. – E mais um professor.
-Qual... ? – perguntou Minerva.
-Miss Reynolds.
Após alguns instantes de hesitação, Dumbledore fez um sinal e conjurou uma maca. O corpo da professora flutuou até ela e a maca começou a andar. Christian foi conduzido para outra maca.
Harry ficou imóvel sobre o gramado. Seus olhos pousaram novamente no círculo desenhado por Michael. Com um estalo, levantou-se rapidamente e correu até a maca de Christian.
-Christian... e o círculo? Você viu o círculo? Aquele desenhado com sangue?
Christian confirmou com a cabeça.
-Afaste-se, Potter – pediu a Professora Minerva, tentando conte-lo.
-O que significa aquele círculo, Christian? O que ele quis dizer com aquilo?
-Eu não sei, Harry... Eu não sei...
Essas foram as últimas palavras de Christian antes da maca começar a flutuar em direção ao castelo. Harry, Rony e Hermione acompanharam as duas macas, que eram vigiadas de perto por Dumbledore e McGonagall.
Embora os alunos ao redor cochichassem e falassem sem parar, Harry pôde ouvir um comentário entre o diretor e a professora.
-O que significa aquele círculo, Alvo?
-Eu simplesmente não sei – respondeu o diretor. – Mas havia um igual desenhado nas vestes do Professor Snape.Lembra-se?
-Tem razão – concordou a professora. – Mas ele tinha um X no meio?
-Não. E isso me intriga um pouco.
Por um breve momento, Harry teve a impressão de que o diretor lançou um olhar furtivo para ele. Talvez Harry não tivesse escutado o comentário simplesmente por acaso.
* * *
Kevin Wallace aproveitou a hora do almoço para se perfumar e arrumar os cabelos negros e lisos. Observou-se no espelho do dormitório da Sonserina e sorriu.
“Dessa vez a chata da Granger não irá resistir”, pensou.
Ao sair, encontrou Draco conversando animadamente com Goyle.
-Foi muito engraçado! – ria Draco. – Gina Weasley é uma verdadeira idiota! Acreditando no meu papo... Francamente, ela é uma ridícula, filha de um bando de pobres que não têm onde caírem mortos. Até parece que eu iria sentir algo por ela.
-Mas você não sente nada por ela mesmo? Nem uma atração?
-Claro que não Goyle. Um Malfoy nunca se misturaria com uma Weasley.
-Como estou? – perguntou Kevin aos amigos, alisando os cabelos.
-Parece um pateta – debochou Draco. – Mas se bem que eu acho que pateta é o tipo que atrai a Granger. Afinal, ela anda com dois!
Os três riram alto.
-Vou descer logo antes que toque o sinal para as aulas da tarde – falou Kevin. – Agora eu conquisto aquela ridícula.
-É bom que conquiste mesmo – alertou-o Draco. – Úrsula Hubbard não está pra brincadeiras. É melhor não falhar.
-Não se preocupe, ela tem vários planos em mente – brincou Kevin. – Ela já me disse que tem o plano B, e, por trás desse, devem ter muitos outros.
-Ela é inacreditável – falou Draco com entusiasmo. – Se essa garota não conseguir o que quer, eu não me chamo Draco Malfoy.
Kevin sorriu e saiu da sala comunal. Com passos apressados, chegou rapidamente ao Saguão de Entrada. Olhou ao redor, a procura de Hermione. Kevin percebeu que a movimentação era estranha no saguão. Muitos cochichos e olhares de desespero. Alguma coisa havia acontecido.
“Provavelmente já encontraram”, pensou, com um discreto sorriso.
Kevin notou uma aglomeração e percebeu que duas macas iam flutuando, cobertas por lençóis brancos. A da frente estava completamente coberta e suja de sangue, e a outra era ocupada por um garoto, que, pela distância, não pôde reconhecer.
Naquele instante, Hermione entrou no saguão, seguida por seus inseparáveis amigos. Kevin suspirou, arrumou novamente o penteado e avançou.
Os três logo notaram que o rapaz vinha na direção em que estavam. Rony fechou a cara. Harry permaneceu calado, mas esperto em relação a qualquer gracinha de Kevin em cima de Hermione. E Mione, vendo que teria que agüentar mais uma cantada, suspirou.
-Será que a gatinha pode me dar uma outra chance?
-Kevin, o que há por trás disso?
Kevin franziu as sobrancelhas e sacudiu os ombros.
-Mas o que você quer dizer?
-O que você pretende com isso.
-Não estou te entendendo... Eu só quero sair com você.
-Sei... – murmurou Hermione, pensativa. – E o seu amigo Draco também quer conquistar a Gina?
-Exato. Mas... O que interessa agora somos eu e você.
Kevin se aproximou e tocou o rosto de Hermione. Rony, que estava alerta, pegou o braço dele com força e o afastou do rosto da amiga.
-Não encoste nela, ouviu bem!
Kevin, contrariado, lançou um último olhar para Hermione e se afastou.
-Às vezes acho que ele é o doido do Michael Evans – falou Harry.
-Quem sabe, não é? Aliás, essa mudança repentina de atitudes do Draco com a Gina... Muito suspeita... Talvez seja por que ele não seja mais Draco e sim Michael Evans!
-Fale baixo, Rony – ralhou Harry, olhando para os lados. – Já disse que Michael não pode saber que estamos investigando.
-Tudo bem... Foi mal. Mas também não tem ninguém da lista de suspeitos por aqui.
-Mas poderia ter – continuou Harry. – Aliás, tenho que contar uma coisa pra vocês. Ouvi um cochicho muito estranho entre o Professor Dumbledore e a Professora McGonagall.
-Onde poderemos conversar em paz? – perguntou Hermione.
-Vamos esperar as aulas da tarde terminarem. O sinal já está pra tocar.
-E o que você tem pra nos contar... Vai ajudar a resolver o caso ou não?
-Bom, Rony, não deixa de ser uma pista... Mas está mais pra complicar do que pra resolver.
Afoitos, os três saíram do castelo em direção às estufas, onde a aula de Herbologia iria ocorrer. Mal pisaram no gramado e o sinal tocou.
Quando estavam quase chegando, viram Luna Lovegood, que caminhava na direção oposta, indo ao castelo.
-Olá! – exclamou a garota. – Faz muito tempo que não nos encontramos!
-Tem razão, Luna – disse Harry sorrindo. – Mas é que, com o que vem acontecendo aqui na escola, acabamos nos esquecendo de muita coisa.
-É verdade – murmurou a garota. – Lamento muito tudo o que está ocorrendo. Eu gostava muito da Miss Reynolds. Mas essas mortes não vão acabar se não barrarem o Ker.
Os três amigos se entreolharam.
-O Ker? – perguntaram em coro.
-É – confirmou Luna. – Vão me dizer que nunca ouviram falar nele? Também, vocês nunca leram nenhuma edição do “Pasquim”?
Ante o silêncio, Luna continuou, com um olhar ligeiramente sonhador.
-O Ker é um ser que habita diversos castelos. Na Idade Média, onde até alguns trouxas viviam em castelos, ele sempre era fortalecido. Sabe o que fortalece o Ker? Sangue humano! Ele precisa de sangue para viver. E ele só pode morar em castelos por estes terem lugares escuros e frios. Um bom canto escuro ou um calabouço é tudo o que um Ker precisa.
Rony segurava a risada, mas, para fingir que acreditava, resolveu perguntar:
-Então ele é como um vampiro?
-Não – indignou-se Luna. – O vampiro só morde. O Ker mata. E de forma muitas vezes brutal.
-Ah, então deve ser o Ker o assassino – falou Hermione tentando parecer convincente.
-Luna, temos que ir, senão a Sprout vai bronquear – falou Harry. – Até a próxima.
-Até – despediu-se a jovem. – E se verem o Ker, avisem a um dos professores. Ele é esverdeado e bem baixinho. Mas pode ser perigoso.
Quando Luna se afastou, os três sorriram.
-Se esse Ker realmente existisse, garanto que não seria tão perigoso quanto o Michael – falou Harry, quando os três entraram na estufa.
As aulas da tarde foram complicadas. A Professora Sprout os ensinou como plantar Cocuns do Oriente, uma planta que soltava um cheiro desagradável se não fosse bem cuidada. A pior parte foi quando Neville, atrapalhado como sempre, deixou a planta cair no chão e o cheiro podre se espalhou desagradavelmente por toda a estufa.
Ao findar as aulas do dia, Harry, Rony e Hermione aboliram o jantar para se reunirem e conversar. A conversa teria que ocorrer naquele horário, já que o dormitório dos meninos estaria vazio. Quando subiam a escada para o dormitório, Rony olhou para Hermione e sorriu:
-Está vendo. Ao contrário de certos dormitórios, no nosso é permitido a subida de ambos os sexos.
Hermione lhe fez uma careta e os dois sorriram. Quando chegaram ao quarto, como era de se esperar, este estava vazio. Harry entrou primeiro e examinou cada canto do quarto com cuidado, observando se não haveria nenhuma armadilha preparada.
Quando se certificou que tudo estava limpo, fez um sinal para os amigos entrarem.
-Tenho que tomar cuidado, não é – falou ele. – Michael já alertou que não avisará como eu irei morrer. E depois do incidente da flecha, tenho que ficar esperto.
-Tem razão – concordou Mione, se sentando na cama em frente, ao lado de Rony. – Então, agora nos conte o motivo dessa reunião tão importante.
-Bom... Vocês não repararam em nada além do M.E. ao lado do corpo de Miss Reynolds?
-Ah, Harry, eu nem olhei direito – falou Mione. – Não tive muita coragem.
-Eu tive – disse Rony, confirmando com a cabeça. – Mas não olhei muito... Não por medo, claro, mas por causa da Mione. Eu fiquei consolando ela.
-Sei... – zombou Harry do amigo. – Vocês não viram, mas, ao lado do corpo, havia um círculo desenhado no sangue. Um círculo cercado de pequenos símbolos e que tinha um X no meio.
-Um círculo? – estranhou Hermione.
-Sim, um círculo feito de sangue – continuou Harry. – Tinha uns desenhos mal feitos ao redor. Só distingui dois: um crânio e uma aranha.
O silêncio predominou. Depois de alguns segundos de hesitação, Rony perguntou:
-Mas isso tem alguma importância?
-Tem. Lembram que eu disse, antes das aulas da tarde, que eu ouvi uma conversa entre o Professor Dumbledore e a McGonagall? Pois bem, eles estavam conversando sobre esse mesmo círculo. Diziam que houve mais uma vítima que recebeu esse círculo, que foi o Snape.
-Mas como se nós não vimos círculo algum?
-Provavelmente descobriram na hora de examinar o corpo. Estava desenhado nas vestes, pelo que entendi.
-Então ele faz esse círculo ao lado dos corpos dos professores, somente dos professores?
-Acredito que não – falou Harry. – Gente, o círculo que o Snape recebeu não tinha um X no centro, já o de Miss Reynolds tem.
Hermione levantou-se da cama, aborrecida:
-Droga, parece que sempre aparece algo pra complicar ainda mais – reclamou a garota.
-Eu sei – murmurou Harry. – Mas talvez nos ajude futuramente a encontrar o Michael.
-Não acredito que o encontraremos – falou Rony. – Pra mim, só iremos, quero dizer, as pessoas que não estão na lista negra só irão descobrir quem é depois que só sobrar uma pessoa viva, ou seja, ele.
-Calma, não podemos desanimar – tranqüilizou-os Harry. – Já disse que temos que reunir os suspeitos.
-Porém, reunir os suspeitos significa que o Michael vai estar no meio.
-Mas é a única forma de tentativa que temos até agora, Mione – falou Harry. – Talvez, fazendo perguntas, Michael caia em contradição e descobrimos a sua identidade.
-Mas iremos correr o risco de, na hora que descobrirmos, ele avançar em cada um de nós.
-Não permitiremos. Você e o Rony ficarão em alerta, com a varinha apontada pra cada um dos suspeitos. E, se descobrirmos, não iremos mostrar ao Michael que descobrimos. Sairemos na maior calma e contaremos ao Professor Dumbledore. E então, aceitam o plano?
-É arriscado, mas já que não tem jeito – falou Mione.
-Também concordo.
-Ótimo, então amanhã, na hora do almoço, sairemos a procura de uma sala vazia que abrigue a todos nós.
-Combinado – murmurou Rony, embora mantivesse uma expressão apreensiva.
-Ótimo. Então, será que temos tempo de jantar?
-Acho que sim – falou Hermione. – Vamos lá.
Os três saíram da sala comunal calados e pensativos. Eram muitos enigmas a esclarecer. E a curiosidade era enorme para resolve-los.
Estavam em um dos corredores quando os archotes de repente se apagaram, deixando uma escuridão, que só não era total devido a lua que iluminava aquela noite de novembro e se filtrava através das janelas.
Hermione não pôde conter uma exclamação de pavor. Harry segurou os braços dos amigos e pediu calma.
-Só temos que permanecer juntos – sussurrou ele.
O medo era tanto que os três pareciam ter os pés colados no chão do corredor.
-Só pode ser coisa dele, Harry – falou Mione, com a voz trêmula. – Ele deve estar por aqui.
O medo era tanto que eles nem repararam que a armadura às suas costas começava a se mexer, com uma enorme lança em uma das mãos.
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