Criada exclusiva
- Acorde seis da manhã, limpe a entrada, prepare o café da manhã do senhor Christopher e arrume o seu quarto, limpe o interior da mansão, prepare o almoço, limpe os jardins e as áreas externas, limpe os banheiros, prepare o jantar, peça ao senhor se deseja mais alguma coisa, e vá dormir às onze horas. – recitou Nana para uma Mary perplexa – Essa será a sua rotina permanente daqui por diante... E a resposta?
- S-sim, senhora! – se apressou em dizer Mary, por um breve momento pensando se deveria ou não bater continência também.
- Ei, Nana! – protestou Doumajyd chegando até as duas no corredor – Eu ainda não dei permissão para ela ser uma empregada!
- Mas ela mesma é quem quer ser, senhor.
- Mas o Ilustríssimo Eu não aceita! – rebateu ele furioso com a atitude da elfa.
Com essa resposta dele, a elfa encheu o peito miúdo e esquelético ao mesmo tempo em que o encarava, estreitando os olhos lilases, como se dissesse que não acreditava no que tinha acabado de ouvir.
- Desde quando fala assim com a Nana, senhor Christopher?
Com isso, Doumajyd recuou.
Mary percebeu na mesma hora que a elfa não era assustadora somente com ela, mas também com o seu próprio mestre.
- A senhora avisou a Nana de que o herdeiro Doumajyd gosta de se envolver com gatos sujos de rua!
Mary olhou indignada para a criaturinha enrugada, sabendo muito bem a quem a elfa estava se referindo, mas essa continuou sem pestanejar, lamentando-se:
- Aaahhh, a boa moral da família, que Nana lutou tantos anos para ajudar a manter, está sendo arruinada!
- Não é assim, Nana! – reclamou Doumajyd, mas não se atrevendo a tentar falar mais do que isso.
A elfa o encarou por um tempo, desconfiada, e então perguntou:
- Não quer mesmo que a sangue-ruim trabalhe aqui, senhor?
- Claro que não! – respondeu ele em tom de absoluta certeza.
Ela olhou bem para Mary:
- Ouviu, sangue-ruim? O senhor Christopher não a quer aqui. Vá embora! Nana mostra a saída.
- NÃO! – Doumajyd assustou as duas por ter praticamente gritado.
- Então... – a elfa pensou um pouco e se aproximou do mestre pedindo educadamente para que ele se abaixasse, para ela poder lhe falar o mais particularmente possível – Quer que ela seja a sua criada exclusiva?
- O quê?! – Mary quase se engasgou.
- Criada... exclusiva? – Doumajyd se perdeu em pensamentos com o as possibilidades que essa palavra sugeria.
- O que você está imaginando?! – rosnou Mary entre os dentes – Não vou ser sua criada exclusiva!
- O senhor é quem deve decidir, sangue-ruim! – a elfa lhe lançou um olhar mortal e Mary teve que engolir os seus protestos – O que acha, senhor Christopher?
- Nana, deixo por sua conta. – respondeu o dragão com um sorriso abobado.
- Quê?! – Mary não agüentou ficar calada.
- O senhor decidiu! – disse a elfa em tom de ponto final.
- Está falando sério? – Mary perguntou com uma careta para Doumajyd.
- É o que a Nana acha melhor. – disse Doumajyd – Ela manda nos assuntos da casa mesmo antes de eu nascer, não tem jeito. – e então ele voltou feliz pelo corredor.
- Você deve estar imaginando coisas pervertidas, seu idiota! – acusou Mary, mas o dragão não pareceu ter a ouvido.
- Não fale assim com o seu mestre, sangue-ruim! – Nana agarrou o pulso dela e novamente a arrastou pela mansão – Agora Nana dá as ordens, e Nana vai lhe ensinar a ser a criada exclusiva do senhor Christopher!
***
Mary se arrastou até a sua cama do quarto-depósito da mansão Doumajyd, depois de um dia inteiro sendo torturada pelo treinamento da elfa-doméstica, e soltou um grande suspiro por ter finalmente sido liberada para descansar.
Haviam outros elfos pela casa, os quais Mary nunca tinha percebido antes. E eles estavam tão surpresos em vê-la ali com eles, quanto ela em vê-los circulando pela mansão. Porém, depois de um tempo, passou a pedir com todas as forças para não encontrar mais elfo algum, pois, sempre que um aparecia, Nana o mandava para outro lugar e colocava Mary para terminar o serviço incompleto. Assim, ela passara o dia esfregando o chão da cozinha, lustrando os móveis e limpando as tapeçarias. Nana só ficou satisfeita quando Mary já tinha perdido a sensibilidade dos dedos.
- Ahhhaaa... – ela enfiou o rosto no travesseiro, pensando que, pelo menos, depois de tanto esforço, iria poder dormir sem ser atormentada por pensamentos como vinha acontecendo nas últimas noites.
Então, ela percebeu a sua esfera com a fumaça brilhando fracamente no escuro. Alguém estava tentado entrar em contato. Pensado que seria Vicky, já que não pudera falar com ela desde o dia anterior, para lhe contar como havia sido o seu Dia do Encanto, Mary se apressou em pegar a bola de cristal.
Porém, foi outra pessoa quem surgiu na fumaça:
- Me disseram que você está morando na casa do Chris. – disse Ryan Hainault, com um disfarçado tom sentido na voz.
Mary pestanejou um tempo para a esfera, e tudo o que pôde pensar em dizer para ele foi:
- Me desculpe por não ter avisado.
- Tudo bem.
- Mas não pense coisas absurdas! – ela acrescentou – Foi idéia da Christy me trazer para cá! E agora eu estou trabalhando aqui na mansão para pagar de alguma forma o abrigo.
- Trabalhando?
- Como empregada. – disse ela em um fiapo de voz.
- Empregada? – ele riu.
- Sim...
Mas depois disso, ela não sabia mais o que falar. E parecia ser o momento que o dragão estava esperando para poder perguntar sem que ela fugisse do assunto:
- Você... Você chamou o Chris no dia do Encanto, não?
Novamente Mary encarou a esfera pensando. Tinha que medir bem as suas palavras para não acabar apertando mais ainda o nó desse assunto na sua vida:
-... Eu disse para ele que... era tarde demais.
- Como?
- Sabe... não dá para ser como era antes.
- Mas mesmo assim voltou para ele...Você está confusa, Mary, não está?... E eu sou um dos motivos dessa confusão, não sou?
Mary não respondeu.
- Bom... Será que isso quer dizer que eu ainda tenho chance? – perguntou ele com um sorriso – ... Boa noite, Mary.
E ele terminou o contato, não dando chance para ela lhe dar uma resposta.
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