Capítulo 1
— Hei garota! Sua mãe esta em casa?
Hermione voltou-se bem devagar em direção ao estranho, de voz profunda e sensual sabendo que seu movimento o faria mudar de idéia quanto ao fato de ser uma garota. De costas, por ser do tipo mignon, dava essa impressão. Antes de os gêmeos nascerem, há cinco anos, tinha os seios achatados, mas, desde essa época, seu corpo se transformara. A camiseta justa que usava comprovava a mudança.
O homem passou os olhos por suas formas arredondadas e bem feitas e sorriu-lhe com um brilho travesso nos olhos muito verdes.
— Desculpe, senhorita. O coronel me avisou que eu seria visinho da Sra. Granger e de seus dois filhos, mas não imaginei que uma das crianças fosse tão... crescida — ele baixou o tom da voz rouca e também sensual, que à primeira vista não combinava com sua graça juvenil, perguntou:
— Você é Harry Potter?
Ele esticou o corpo atlético sobre o muro, a brisa agitando-lhe levemente os cabelos pretos e sedosos.
— O coronel falou sobre mim?
— Não há nada que permaneça em segredo por muito tempo nessa cidade, Sr. Potter — ela respondeu com reserva, não querendo admitir que estava a par dos motivos que o trouxeram até ali.
— Meus amigos me chamam de Harry — ele encorajava a conversa, apreciando-a descaradamente, mas parecia que a moça não estava interessada, pois respondeu, séria:
— Soube disso também.
Os olhos verdes brilharam, curiosos.
— O que mais você sabe sobre mim?
— Todos conhecem seus livros. Estão sempre na lista dos best-sellers — Hermione usou um tom irônico que o fez franzir a testa.
— E você não gostou de nenhum deles?
— Para falar a verdade, não li nenhum... Não tenho tempo para isso — acrescentou em seguida, não querendo parecer grosseira.
— Talvez esteja atrasando sua ida à escola, mas só queria me apresentar à sua mãe.
Mais uma vez ele se enganou, e outra vez Hermione não esclareceu a confusão. Por algum motivo desconhecido estava apreciando a brincadeira.
— Sou a única pessoa em casa neste momento. Gostaria de jantar conosco esta noite? Acho que o resto da família vai gostar de conhecer você.
Já podia imaginar o olhar curioso dos gêmeos diante do novo vizinho, e a surpresa dele ao conhecer "o resto da família". Isso serviria para lhe mostrar que um homem, com mais de trinta anos, não devia flertar com uma "adolescente".
Ele hesitou, não desejando perturbar os vizinhos logo em seu primeiro dia na cidade.
— Não acha que a sua mãe iria preferir fazer ela mesma o convite?
— Estou certa de que será um prazer para todos nós, mas espero que não se importe de jantar às seis horas — Hermione sabia que os gêmeos iriam adorar a novidade, pois, morando numa cidade tão pequena, raramente tinham oportunidade de conhecer gente nova.
— Para mim está ótimo. Ficarei esperando ansioso.
Hermione também. Há muito tempo não sentia aquela vontade de ser travessa, de brincar. Quando soubera da vinda do escritor Harry Potter, ainda que temporariamente, não ficara nada satisfeita. Conhecia a sua reputação, e, pelo que comentavam, ele devia ser bem parecido com Draco: calculista e implacável, sempre à procura de emoções novas, onde quer que estivesse.
Ambos eram jornalistas, embora Harry tivesse abandonado a profissão quando ainda estava emocionalmente inteiro. Draco continuava pelo mundo à procura de sensações, com uma compulsão que a deixava doente. Estavam divorciados há dois anos, e, nas raras vezes em que ele aparecia, enchia Kim e Andy de presentes, quando o que mais precisavam era da companhia e do amor do pai. Aliás, a eterna ausência e a falta de notícias tinham sido a gota d'água que acabara por destruir o casamento de Hermione com Draco, um homem frio, jamais disposto a ceder.
Quando o coronel lhe dissera que o escritor se hospedaria na casa vizinha à sua, Hermione encarara a perspectiva com reserva. Sabia que os livros que ele escrevia eram baseados em suas experiências como jornalista, e aquele era um assunto que ela preferia ignorar.
Apesar de tudo, Harry Potter tinha chegado e era bem diferente do que ela imaginara. Embora acreditasse na suavidade que lhe transmitiam aqueles olhos intensamente verdes, tinha certeza de que, por trás de todo o charme, havia a mesma insensibilidade que encontrara em Draco. Ninguém conseguiria passar pelas grandes emoções, que os dois jornalistas tinham vivido, sem se tornar insensível às coisas simples da vida como amor, lar e crianças.
Mas, se ficasse ali parada, comparando-os, nunca conseguiria chegar ao trabalho às nove horas. Não adiantava amargurar-se pensando no passado e nem fazer conjecturas a respeito de um homem que acabava de conhecer.
— Então o verei às seis, Sr. Potter? — disse, procurando dispensá-lo. Mas ele não demonstrava a menor intenção de se afastar.
— Certamente... Será que... você teria uma vassoura para me emprestar? Já procurei por uma e não consegui encontrar.
Hermione sentiu vontade de rir diante daquele homem um tanto embaraçado, às voltas com atividades domésticas.
— Claro, ainda que seja somente para causar uma boa impressão à mamãe — ela caçoou, dirigindo-se à porta de entrada do chalé.
Harry Potter rapidamente atravessou o portão que ligava os dois jardins e a alcançou. O jeans desbotado que usava ajustava-se às pernas longas e musculosas, e a camisa branca, aberta no peito, contratava com os cabelos escuros.
— Venha, vamos até a cozinha — convidou Hermione, tentando imprimir a voz um tom casual. E ele a seguiu casa adentro, olhando para tudo com ar interessado.
— Prometo devolvê-la logo mais. — Admirando a cozinha branca, cheia de plantas, Harry parou diante da parede onde Hermione tinha colocado alguns desenhos feitos pelos gêmeos. — Seu irmão deve ser bem mais novo que você, não?
— Andy tem cinco anos — respondeu ela, entregando-lhe a vassoura.
Já a caminho da porta, ele disse:
— Adoro comida caseira.
— Não fique muito ansioso. Eu... minha mãe não é exatamente uma cozinheira de mão-cheia.
— Garanto que depois de comer tanto sanduíche, esse jantar terá um sabor especial — assegurou ele, não parecendo ter notado o deslize. Em seguida desapareceu atrás do muro, enquanto Hermione foi recolher a roupa dos gêmeos no varal.
Eram tantas camisetas e calças compridas que certamente não pertenciam a apenas uma criança! Se Harry visse tanta roupa, perceberia que se enganara e que ela era a Sra. Granger. Ou já teria percebido e estava se divertindo à sua custa?
Bem, tinha sido apenas uma brincadeira inocente, e, se ele quisesse viver bem com os novos vizinhos, teria que aprender a lhe dar com esse tipo de coisa, pois Kim e Andy tinham herdado da mãe o senso de humor.
Àquela hora, os gêmeos estavam em segurança dentro do ônibus que os levava diariamente à escola. Hermione ainda tinha tempo para terminar alguns pequenos afazeres, aprontar-se e em seguida correr para o trabalho. Passou um pouco de sombra nos olhos, brilho nos lábios e uma leve camada de blush. Soltou o elástico que lhe prendia os cabelos e, deixando cair à magnífica cascata dourada que descia até as costas, admirou-se no espelho. Não, não os deixaria soltos; fez um coque no alto da cabeça, sabendo que dessa forma conseguiria ver-se como uma mulher de vinte e quatro anos.
Vinte e quatro anos! Teria mesmo essa idade? Algumas vezes sentia-se com o dobro disso, e, às vezes, se perguntava o que havia feito nesse tempo todo. O tempo parecera voar desde o nascimento dos gêmeos. Casara-se aos dezoito anos, era mãe aos dezenove e divorciada aos vinte e dois. Quanta coisa já havia acontecido durante esses poucos anos! Se não fossem os gêmeos, não teria conseguido sobreviver à metade de tudo o que tinha acontecido. Era até irônico, pois os dois bebês, as criaturinhas que amava mais que tudo no mundo, foram, em parte, responsáveis pelo divórcio.
Hermione deixou o pequeno carro na garagem e caminhou alguns quarteirões. Gostava de andar e preferia deixar a gasolina para o fim de semana, quando levava os gêmeos para passear. E, afinal, em dias bonitos como aquele, caminhar até o trabalho era um hábito muito saudável.
Na parte da manhã trabalhava num ritmo intenso, como secretária do coronel. Todo dia uma pilha de papéis a aguardava sobre a mesa, para ser colocada em ordem até a hora do almoço. Pela tarde, transformava-se em guia, levando turistas a recantos pitorescos da cidade. Gostava mais dessa atividade, porque sentia prazer em conversar com pessoas e em lhe mostrar os pontos que fizeram à história daquele lugar; em especial a antiga mansão, onde agora só moravam o coronel e sua filha Gina.
O coronel Wesley casara-se há vinte e cinco anos com a filha única do maior proprietário da região, e estava viúvo a quase oito. Com o tempo, foi ficando cada vez mais difícil e dispendioso manter a propriedade, então ele resolveu abrir as portas da mansão ao público durante o verão. Isso certamente não o tornou milionário, mas ajudou-o a mantê-lo e à filha com todo o conforto.
Mimada e mal acostumada, Gina olhava com desprezo para quem não tivesse o seu status. Tratava os empregados do pai como seres inferiores e, no que se referia a Hermione, fazia questão de humilhá-la, considerando-a uma estúpida por ter se casado com um homem como Draco, incapaz de lhe dar melhores condições de vida.
No instante em que Hermione abriu a porta, Gina caminhava de um lado para outro pelo escritório, usando um modelo exclusivo feito em Londres, e cujo delicado tom de azul lhe realçava a pele clara. Como a maioria das mulheres na Inglaterra, Gina fazia questão de usar roupas confeccionadas pelos costureiros da princesa de Gales. Infelizmente, não percebia que, sendo mais baixa e mais cheia, jamais conseguiria ter a elegância da famosa lady, não importando qual a roupa que usasse.
— Papai quer que você fique até mais tarde hoje — Gina falou com voz afetada.
Hermione suspirou, preparando-se para mais um debate desagradável.
Ela sempre encerrava o expediente as cinco em ponto, a tempo de chegar em casa e encontrar o ônibus que trazia os gêmeos da escola.
— O coronel sabe que não posso fazer isso.
— Por causa daqueles dois pirralhos? Eles não podem ficar sozinhos pelo menos uma vez?
— Não.
— E você não pode pedir para alguém ficar com eles?
Hermione encarou-a, irritada. Com que direito aquela moça ousava interferir em sua vida?
— Por que seu pai quer que eu fique até mais tarde?
Gina deu de ombros.
— Papai vai oferecer uma recepção às quatro horas e, como deve saber, hoje é folga de Luna.
Hermione sabia que, nas raras ocasiões em que isso acontecia, o coronel arranjava uma maneira de não requisitar seus serviços após o expediente. Ele podia não ser uma pessoa fácil para se conviver, mas entendia sua situação.
— Seu pai me avisou que você iria cuidar da recepção — contestou.
— Lamento muito, Hermione, mas tenho que ir ao cabeleireiro esta tarde.
O rosto bonito da ruiva mostrou descontentamento. Hermione olhou para os cabelos vermelhos, que não apresentavam um só fio fora do lugar, e disse:
— Não acho que você precise ir ao cabeleireiro.
Gina lançou-lhe um olhar gelado.
— E quem é você para julgar? — ironizou ela. Era evidente que considerava fora de moda as roupas, a maquilagem e os cabelos compridos que Hermione usava.
Talvez o fossem mesmo, mas Hermione tinha um estilo próprio, adequado a seu tipo, e essa devia ser a maior distinção física entre as duas. Enquanto Gina era o cabide dos grandes costureiros, Hermione era a musa que os fazia delirar. Havia somente quatro anos de diferença entre as duas, mas a jovem mãe sentia-se bem mais amadurecida, mais experiente. Talvez por que achasse que na vida havia coisas bem mais importantes do que a moda.
— Você precisa escolher: prefere ficar na recepção ou cuidar dos gêmeos? — sugeriu Hermione e fez um ar inocente diante da expressão horrorizada de Gina.
— Tomar conta daqueles dois demônios? Da última vez que estive com eles, Andy derramou suco de laranja em minha roupa nova.
— Ora, Gina, ele não fez de propósito, e foi apenas um pingo facilmente removível.
— Sorte sua! O que você ganha não dá para pagar nem meu tintureiro, quanto mais para comprar outra roupa igual. Duvido que Draco se lembre de lhe mandar algum dinheiro, mesmo que seja de vez em quando.
Numa pequena comunidade como aquela, era muito difícil manter sigilo sobre certos assuntos, mas Hermione teve que controlar-se para não responder à altura o comentário maldoso. Gina sorriu com prazer ao ver que finalmente conseguira irritá-la.
— O meu querido primo Draco nunca foi uma pessoa confiável — continuou ela, referindo-se ao fato de ele ser filho da irmã do coronel.
Sendo parentes próximos, era fácil entender por que os dois se pareciam tanto. Ambos eram extremamente egoístas, embora Draco ainda conseguisse disfarçar a excessiva preocupação para consigo mesmo. Logo após saber da separação, o coronel oferecera o chalé para Hermione e os gêmeos morarem, na esperança de uma possível reconciliação. Durante algum tempo, Draco visitou os três regularmente, até que sumiu sem deixar vestígios. Mesmo assim, o Sr. Wesley insistira para que ela e os gêmeos permanecessem no chalé e ainda a admitiu como sua secretária. O emprego e o chalé apareceram em boa hora, pois, como Gina fizera questão de salientar, Draco costumava se esquecer de enviar dinheiro para o sustento dos gêmeos.
— Ele nos manda o dinheiro que pode e quando pode — Hermione retrucou com frieza.
— Está brincando! Ele pode até ficar rico, mas você jamais verá a cor do dinheiro dele.
— Gina...
— Eu nunca deixaria um homem fazer isso comigo. Jamais consegui entender por que vocês se casaram.
Depois do divórcio, Hermione fizera a si mesma essa pergunta. Estava muito apaixonada para perceber que nada tinham em comum; com apenas dezoito anos, não foi difícil envolver-se com Draco, um jornalista dez anos mais velho. Quando se casaram era completamente inexperiente, prova disso fora a gravidez, dois meses após a cerimônia. Em vez de flores, recebera a ira de um marido furioso diante de sua ingenuidade.
— Não creio que isso seja de sua conta, Gina! — falou, voltando ao presente.
— Pode ser, e por isso não tenho a mínima intenção de cuidar daqueles "anjinhos". Estão sempre fazendo travessuras.
— Isso é porque são muito inteligentes.
— E o que é ser inteligente para você? Derrubar a árvore de Natal, como fizeram no último ano?
— Kim não fez de propósito. Ela tropeçou em uma dos tapetes do hall — e, ao relembrar o fato, Hermione ainda podia sentir o pavor de ver a enorme árvore cair em cima da garotinha.
— Foi uma desgraça — Gina lembrou com desgosto.
— Quando você se casar e der netos a seu pai, ele talvez volte a nos convidar para as festas na mansão.
— Não pretendo estragar meu corpo tendo filhos.
— Isso é bobagem, a gravidez dá novas curvas, suaviza as linhas; meu corpo ficou mais bonito, depois que tive os gêmeos — Hermione continuou, fingindo não notar a provocação.
— Aparentemente, mas deve ter deformado você de alguma maneira.
Hermione não se defendeu. Após dar à luz os gêmeos, ficara com uma leve cicatriz no abdômen, mas se arriscaria a ter marcas muito maiores por Kim e Andy.
— Então, ficará para a recepção, Gina? — perguntou friamente.
Gina fuzilou-a com o olhar.
— Se não fosse por causa dos gêmeos, garanto que não estaria segura.
Hermione não agüentaria tanta provocação, se não tivesse aquele motivo, mas, no fundo, receava perder a casa e o emprego; pois, como filha única, a mimada ruiva tinha grande influência sobre o pai. Se se irritasse, na certa ela pediria ao coronel que dispensasse Hermione do emprego e que lhe tomasse o chalé. Mas, mesmo correndo um certo risco, Hermione não permitiria que ela a tratasse, e nem aos filhos, como inferiores. Sua paciência também tinha limites.
— Se não tivesse os gêmeos, pode estar certa de que eu não estaria aqui. E você não pode deixar o cabeleireiro para amanhã, Gina?
— Ah, não! Quero estar bonita quando Harry Potter chegar.
— Ele já chegou.
Os olhos azuis de Gina soltaram faíscas.
— O que disse?
— Exatamente o que você ouviu. Ele já chegou — informou Hermione.
— Quando?
— Esta manhã.
— E você o viu?
Hermione assentiu com um gesto de cabeça.
— Antes de vir para o trabalho. Seu pai não comentou com você?
— Não. Como ele é? — indagou Gina, os olhos brilhando de interesse.
— Quem? Harry Potter?
— É óbvio, não? Claro que não estou falando de papai!
Hermione sabia exatamente a quem a outra se referia, mas a vontade de irritá-la persistia. As duas nunca haviam se dado bem. Já aos quatorze anos, Gina tinha mais pose e sofisticação do que a jovem de dezoito que entrara para família. E não demorou muito para ela achar Hermione boba e sem graça.
— O Sr. Potter me pareceu... muito simpático.
— Ele é tão bonito como nas fotografias? — insistiu Gina, que não conseguia disfarçar a ansiedade. Por um momento, o ar afetado deu lugar a uma expressão de curiosidade quase infantil.
O fascínio e o charme daquele homem não podiam ser negados, mas, mesmo assim, Hermione duvidava que ele fosse o tipo preferido da outra. Normalmente, Gina sentia-se atraída por homens sofisticados e bem vestidos e se o jeans que o escritor jornalista usava naquela manhã não tivesse uma etiqueta famosa, seria desaprovado por Gina. Mas, quem sabe se sua simpatia e seu charme natural não a conquistariam.
— Nunca vi uma foto dele, mas pessoalmente o achei charmoso.
A ruiva mordeu os lábios, pensativa, sem perceber que manchara o batom, o que não a deixaria nada satisfeita mais tarde.
— Será que ele gostaria que eu fosse até o chalé dele para me apresentar? — perguntou Gina, baixinho, como que falando consigo mesma.
A julgar pelas maneiras simpáticas e amigáveis do escritor, era bastante provável que ele gostasse de ver uma moça bonita chegando em sua casa. Por isso Hermione afirmou:
— É claro que ele gostará!
Gina semicerrou os olhos azuis.
— Você, por acaso, já foi lá insinuar-se?
Hermione precisou fazer força para se controlar, tal foi a intensidade de sua raiva.
— Nunca faria isso! — limitou-se a responder. — Ele foi em casa me pedir uma vassoura emprestada, Gina!
— Ótimo pretexto!
— Você acha?
— Estou certa de que não era bem isso o que ele estava querendo — disse Gina, com sarcasmo.
— Também acho. Um escritor deve achar interessante fazer novas amizades.
— Claro! Vou até em casa trocar de roupa e em seguida irei convidá-lo para jantar comigo hoje à noite.
Hermione hesitou.
— Eu já o convidei para jantar no chalé esta noite.
— No chalé? Quer dizer, com você e os gêmeos?
— Sim, moramos lá, não?
Sem conseguir disfarçar seu desapontamento, Gina perguntou, irritada:
— De onde você tirou a estúpida idéia de convidar um homem como Harry Potter para jantar?
— De nenhum lugar. Foi apenas um gesto de cortesia.
Gina ficou ainda mais furiosa.
— Não me diga que está interessada nele? — e olhou para Hermione como se isso fosse uma idéia totalmente absurda.
Hermione nunca encontrara ninguém tão atraente como Harry, mas isso não mudava o fato de ele ser o último homem pelo qual se interessaria. De qualquer maneira, tampouco dava a Gina o direito de humilhá-la.
— Eu quis apenas ser educada e não me sentirei ofendida se, por acaso, ele resolver aceitar seu convite — declarou Hermione. Mas o prazer que sentira com a presença de Harry naquela manhã evaporou-se como que por encanto.
Gina pareceu mais calma.
— Espero que não. Afinal, ele está aqui por causa de papai — acrescentou, sorrindo por antecipação.
— Ei, Gina! E como fica a recepção? — Hermione chamou-a quando ela já ia saindo.
— Estarei aqui, não se preocupe. Papai é muito indulgente com você.
Embora não respondesse a essa última cutucada, Hermione teve que fazer força para se controlar. Quando se viu sozinha, respirou fundo. A implicância da outra diante de seu suposto interesse no forasteiro era ridícula! Há muito tempo não se julgava capaz de conquistar o amor de alguém. Os gêmeos seriam uma grande responsabilidade para o homem que se apaixonasse por ela, e talvez por isso Hermione preferisse deixar as coisas como estavam. Kim e Andy ainda eram muito pequenos para entender o afastamento do pai e perceber melhor as coisas. Quando esse dia chegasse, ela estaria pronta para amar outra vez.
Naquela tarde, os gêmeos estavam particularmente travessos quando chegaram em casa. Hermione deu-lhes um longo banho morno para que estivessem mais calmos durante o jantar. Não que se preocupasse com suas travessuras. Esperava que Gina tivesse convencido Potter a jantar com ela, embora ela não aparecesse para se vangloriar por isso. No entanto, se por alguma possibilidade remota ele aparecesse para jantar, havia comida suficiente para todos.
— Papai virá nos ver esse fim de semana? — Andy perguntou, enquanto se vestia após o banho. Os dois irmãos tinham os cabelos loiros do pai e os olhos castanhos da mãe.
— Não — respondeu Hermione, escovando os cabelos de Kim.
— Faz tempo que ele não vem — Andy reclamou.
— Papai é muito ocupado — respondeu Kim. Era cinco minutos mais nova que o irmão e a mais introvertida dos dois; costumava segui-lo aonde quer que ele a conduzisse.
— Kim tem razão, Andy. Papai trabalha muito, e faz só algumas semanas que ele telefonou a vocês.
Hermione ficou em silêncio. Já havia pensado em falar seriamente com Draco, pedir-lhe que viesse ver os filhos mais freqüentemente. Sabia que Kim se ressentia mais com isso do que Andy, apesar de ela sempre defender o pai. Em alguns momentos, quando percebia a mágoa da filha, desejava que Draco sumisse da vida deles até que o esquecessem de vez. Talvez seu desejo fosse egoísta, pois os gêmeos amavam o pai, apesar de o verem tão pouco. E, à sua maneira, Draco devia amá-los também.
Hermione ia comentar qualquer coisa, quando ouviu a campainha tocar: Enquanto Andy corria para olhar pela janela, deu uma rápida olhada no relógio. Eram exatamente seis horas!
— Tem um homem lá fora, mamãe — comunicou Andy.
Provavelmente Harry Potter viera desculpar-se por ter de jantar com os Wesley. Sim, devia ser isso. Não havia motivo para ela agitar-se tanto.
— Terminem de se vestir, crianças, vou ver quem é.
Ela não cogitara na possibilidade de terem alguém para jantar. Os gêmeos já estavam desapontados com o pai, e provavelmente ficariam decepcionados se um estranho também desprezasse sua companhia.
Examinou-se rapidamente no espelho do corredor antes de abrir a porta. Havia soltado os cabelos, mas ainda gostaria de ter tido tempo para trocar de roupa.
Como calculara, era o novo vizinho, o escritor, com uma braçada de tulipas em uma das mãos, os olhos brilhantes e travessos fixos nela por cima das flores. Ele estava elegantemente vestido, e ainda mais atraente naquelas roupas formais. — Estou muito adiantado? — perguntou, vendo que ela não fizera nenhum gesto para convidá-lo a entrar.
— Não — Hermione procurou disfarçar sua surpresa. — É que Gina... digo, a srta. Wesley disse que iria convidá-lo para jantar em sua casa hoje.
— Ela me convidou, mas recusei o convite. Já tinha aceitado o seu.
— Mas... — Hermione fez uma pausa ao ouvir o barulho de pequenos pés descendo a escada, e voltou-se justamente quando os gêmeos, junto à porta, usando jeans e camisetas idênticas, olhavam com adorável inocência a cena que se desenrolava.
Ao voltar-se para Harry, querendo se desculpar por mantê-lo de pé à porta, Hermione viu os olhos verdes se arregalarem, incrédulos. Qualquer que fosse o assunto discutido entre ele e Gina, após ter recusado o convite, certamente a existência dos gêmeos não fora mencionada.
Eu simplesmente amo essa história... Achei que um homem atrevido e ousado escorregava tão bem em um Harry adulto... E uma Mione com dois gemeos, não é lindo?
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