Lembranças.



Tinha que ter coragem. Suspirou e levantou-se do sofá, andando em direção ao jardim. Parou à porta para localiza-lo e atravessou o gramado, girando a caixinha em suas mãos nervosa. Parou atrás do moreno, mas não tinha coragem de falar. Queria dizer mais que um simples ‘parabéns’, mas não podia. Tomou coragem e o chamou:

- Harry.

Ele virou-se e abriu um enorme sorriso. O sorriso que a deixava entorpecida, que fazia o chão sumir sob seus pés.

- Gina. Ainda bem que veio, essa festa não teria graça sem você. Pensei que Winny não deixaria você vir.

A ruiva estava passando o mês na casa da amiga, que havia insistido que fosse para lá. Aquelas palavras causaram grande efeito na ruiva. E como! “Essa festa não teria graça sem você.” Ouvir aquilo de Harry foi o melhor presente de toda a sua vida.

- Tinha que vir. Não é todo dia que se faz dezoito anos. – disse ela sorrindo nervosa. – Parabéns.

E estendeu a caixinha de veludo negro que carregava. Harry pegou e abriu cuidadoso. Dentro havia um lindo cordão de ouro branco com um pingente em forma de H.

- Obrigado Gina. É lindo. – disse o moreno a puxando para um abraço e lhe beijando a face.

- Harry! – alguém chamou o garoto do outro lado do gramado. Ele acenou e saiu, deixando Gina ali, sem reação.

A ruiva levou sua mão ao rosto, como se quisesse guardar aquele beijo. Fechou os olhos, gravando na mente aquele momento.

Andou para outro lado do gramado, e sentou-se à sombra de uma árvore frondosa, o mais longe dos convidados que pôde sem se importar se iria sujar seu vertido alvo. Como queria que Harry sentisse a mesma coisa que ela sentia por ele! Hermione dizia que sentia. Mas por algum motivo não admitia. Será? Poderia conversar com ele... Não, seria loucura demais. Mas porque ficar se atormentando com essa pergunta, se poderia ter a resposta naquele mesmo dia? Sim, iria falar com ele. Mesmo tendo medo da resposta.

Ficou mais um tempo sentada, observando a moeda dourada desaparecer no horizonte. Queria acabar logo com aquela tortura, mas suas pernas pareciam não querer lhe obedecer.

Finalmente criou coragem e levantou-se limpando a terra do vestido branco. Encarou o chão e suspirou. “Vai dar tudo certo” pensou e sorriu. Andou uma pequena distância e ouviu gritos e risadas.

A ruiva ergueu a cabeça. A uma pouca distância de onde se encontrava, havia um círculo formado por convidados e no centro estavam Harry e Cho... De mãos dadas, se aproximando mais e mais...

Parecia que o mundo tinha sumido ao seu redor. Sentiu um nó formar-se na garganta e os olhos queimarem. Mas não deixou uma lágrima cair; ele não merecia. Ele não merecia nada, seu amor, sua atenção, seu carinho. Arrancou com raiva o colar do pescoço que ganhara dele em seu aniversário de dezessete anos, no qual havia um pingente em forma de G. Correu pelo gramado em direção a casa, sem se importar se estavam olhando ou não. Ouviu alguém chamar por seu nome, mas não queria ouvir, não queria... Subiu as escadas o mais rápido que pôde e foi para seu quarto, batendo a porta com força ao passar. Escorou-se nela e deslizou, sentando no chão, já não conseguindo mais conter as lágrimas.

Abriu os olhos de repente, sentindo um enorme nó em sua garganta, o rosto banhado de lágrimas. A claridade invadia seu quarto e as cortinas balançavam levemente à brisa que entrava pela fresta na janela.

Tudo não passara de uma lembrança, que resolvera retornar através de um sonho, ou melhor, de um pesadelo. Enxugou o rosto com as costas das mãos e olhou para o lado. Hilde, sua gata, ainda dormia. Suspirou aliviada e levantou-se da cama. Um banho quente seria bem-vindo.

Gina passou a mão pelos cabelos ruivos, ainda acalmando-se. Apoiou-se no parapeito da janela, e ficou ali durante um tempo, sentindo a brisa leve bater nos seus cabelos suavemente, ainda pensando naquele sonho. Conseguira expulsar aquela lembrança de sua mente com tanto esforço, agora voltara facilmente como um simples sonho. Enxugou uma lágrima que teimava em cair em seu rosto. Não era mulher de chorar. Definitivamente precisava de um banho quente.

Suspirou e foi tomar seu tão esperado banho. Despiu-se e abriu o chuveiro, deixando a água morna deslizar pelo seu corpo. Por que aquelas lembranças tinham que voltar, justo agora que conseguira supera-la? Ou pelo menos achava.

Aquele fora o momento que definira toda a sua vida. Depois que se trancara em seu quarto, decidira seu destino. Depois que terminasse Hogwarts, não voltaria à Toca, não voltaria à cidade onde morava. Seguiria seu caminho, sozinha, sem família para lhe dizer o que fazer, sem Harry Potter para atrapalhar sua vida.

E assim fez. Rumou para uma cidade longe de Londres, havia quatro anos. Decidira aposentar de vez a varinha, ela não lhe trazia boas lembranças. Procurara um emprego, mas tudo que conseguira foram bicos aqui e ali, que nunca lhe garantiram um salário decente. Aos poucos foi ficando sem dinheiro, nem ao menos podia alimentar-se direito. Certo dia, fora a um bar no subúrbio da cidade, e conhecera ali uma jovem como ela: sozinha, desempregada, perdida.

- Mas agora vou sair do buraco. – disse a jovem.

Gina arregalou os olhos. Não dissera a ela agora a pouco que estava desempregada?

- Você não disse que estava desempregada?

- E estou. Quer dizer, mais ou menos. – disse ela abrindo um sorriso. – Consegui um bico, na verdade não é bem um bico, vai rolar uma grana preta.

Gina franziu o cenho. Do que ela estava falando? E se conseguisse um emprego desses? Poderia manter-se por mais um tempo, pelo menos até achar um emprego decente. Ao ver a expressão intrigada da ruiva, a estranha perguntou:

- Seu nome?

- Virginia Weasley.

- Lia O’Conel. – disse ela apertando a mão da ruiva. – Vi a sua cara quando disse que finalmente arranjei um emprego. Se quiser posso te colocar na jogada. Como eu disse, rola uma grana preta. – disse ela levando o copo de uísque à boca.

- Que jogada é essa? – perguntou inocentemente a ruiva.

- Não seja tola. Não posso simplesmente sair espalhando o serviço. Você primeiro tem que responder: está dentro ou fora?

Gina refletiu um pouco. Não estava preocupada se fosse um serviço pesado ou algo desse tipo. Estava desesperada, mal conseguia se alimentar. Não tinha nada a perder.

- Estou dentro.

Fora um erro? Talvez sim, talvez não. Nunca imaginara quando aceitara que seria algo ilegal. Fora seu primeiro roubo. E mal-sucedido. Os tiras a pegaram, e por isso fora jogada na prisão por um ano. Perdera um ano de sua vida jogada naquele lugar fétido e imundo, comendo alguma coisa que eles achavam que era comida e apanhando das outras prisioneiras.

Cerrou o punho com força e bateu contra a parede do banheiro, apertando os olhos para tirar aquelas lembranças da cabeça. Mas uma lágrima teimou em cair, se perdendo em meio às gotas que caíam do chuveiro. Por causa daquela mulher entrara em cana, e ela? Saiu ilesa, aquela maldita. Além de ter ficado com todo o lucro do roubo, não adiantou nada Gina denunciá-la. Mas também aprendera naquela prisão. Depois de alguns meses não era mais alvo das valentonas. Tornara-se respeitada lá dentro, tornara-se uma mulher fria e esperta. Sempre sabia contornar qualquer situação. E agora? Agora estava no topo. Era respeitada por todos. Nunca mais deixou alguém lhe passar a perna.

Fechou o chuveiro e enxugou-se, vestindo o roupão em seguida. Pegou uma toalha pequena para enxugar as mechas ruivas e saiu do banheiro. Hilde quando viu a dona espreguiçou-se e miou.

- Finalmente acordou garota. – disse Gina sorrindo para a gata. – Você sabia que nossas fotos chegaram? E dessa vez você não pode dizer que as fotos ficaram feias, porque ficaram ótimas. Você é fotogênica Hilde. – disse Gina pegando em envelope em cima da cômoda e tirando algumas fotos.

Hilde miou e pulou da cama em direção à dona.

- Olha só garota... – Gina pegou a gata no braço e sentou-se na cama, passando as fotos. – Nem pense em rasgar essas como você fez com as outras. – Hilde miou baixinho.

A ruiva colocou o bichano e as fotos sobre a cama e levantou-se abrindo o grande guarda-roupa que havia no outro lado do quarto.

- Sinto muito garota, mas hoje tenho assuntos importantes para resolver.

A gata miou desapontada. Gina sorriu.

- Você mais do que ninguém sabe, vida de mafiosa não é fácil.

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