Vinte e Quatro de Dezembro



Era Natal. A neve caía lá fora, fazendo montinhos pelo jardim e nos peitoris das janelas. O Natal era particularmente frio naquele ano, com temperaturas muito baixas e rajadas de vento de gelar até os ossos. Dentro de casa, a lareira acesa trazia algum conforto, enquanto uma garota de cabelos castanhos e volumosos tomava, sozinha, a última taça do resto de seu vinho branco francês.


“É, Hermione, parece que dessa vez vamos ser só você e eu.”, disse para a sua imagem refletida no espelho.


Hermione Jane Granger. Dezenove anos, filha de pais trouxas e dentistas, formada na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts há pouco mais de um ano, com notas excelentes. Obtivera NIEMs cobiçados por qualquer aluno em sã consciência e, atualmente, recebia orientação no curso de Medibruxos do Ministério da Magia em Londres, com um salário relativamente alto pelo estágio no Departamento de Catástrofes e Acidentes Mágicos do St. Mungus. Por último, mas não menos importante, era melhor amiga de ninguém menos que Harry Thiago Potter.


É, tinha a vida que qualquer pessoa pediu à Deus.


Contudo, no dia 24 de Dezembro, noite de Natal, não tinha ninguém que lhe fizesse companhia.


Seus pais estavam viajando (como se arrependia agora de não ter ido com eles...), Rony, seu outro melhor amigo, provavelmente estava em algum hotel luxuoso na Escócia, na companhia do time de quadribol Chudley Cannons, comemorando a vitória no Campeonato Europeu. Gina Weasley, sua melhor amiga, devia estar celebrando o Natal com o resto de sua família na Romênia, junto ao irmão Carlinhos. E Harry Potter, seu melhor amigo...


Uma pontada de dor encheu Hermione então, sempre despertada quando aquelas duas palavras – melhor amigo – se associavam ao nome “Harry Potter”. Amigo coisa nenhuma. Quer dizer, aquilo podia se aplicar até mais ou menos o seu quarto ano em Hogwarts, ou, bem, o início do quarto ano, porque depois disso o “amigo” começou a se tornar, para Hermione, um pouco além de amigo. Uma pena que isso era só para Hermione. Sim, ela o amava, mas ele nunca tinha tido olhos para ela. No quinto ano foi Cho Chang, depois, no sexto, Gina, namoro que não durou muito tempo. Mesmo depois de terminar com a ruiva e derrotar Voldemort, e apesar de ter todas as garotas do mundo aos seus pés quando quisesse, Harry ainda assim continuava sozinho e Hermione não entendia porquê. Por que não fazia nada para mostrar o que sentia? Também não sabia. Vergonha, talvez, ou medo do que aquilo podia fazer com a amizade dos dois. Simplesmente não sabia.


Olhou no relógio. Eram onze horas. A garota então sentiu raiva. Onde estava ele? Era a pergunta que se fazia desde o meio dia. Já perdera a conta de quantas corujas mandara para Harry, quantos telefonemas. O garoto simplesmente evaporara e, pior, a deixara sozinha. Não tinha ido acompanhar os pais na viagem por causa dele, que prometera passar com ela a noite de Natal.


Foi quando escutou pancadinhas vindas da cozinha. Levantou-se do sofá, abandonando a taça de vinho na mesa de centro e encaminhou-se ao cômodo. Vasculhou a cozinha escura com os olhos, até notar uma coruja, alva como a neve, parada do lado de fora da janela com um embrulho amarrado na pata direita. Rapidamente, ela abriu a janela.


- Edwiges! – exclamou enquanto a coruja pousava na mesa – Como Harry tem coragem de te mandar até aqui com um tempo desses?


A coruja estalou o bico, como quem concordasse com a surpresa de Hermione, e estendeu a perna para a garota. Hermione desamarrou a entrega, e antes que pudesse oferecer água ou escrever uma resposta, Edwiges saiu voando pelo lugar de onde entrara, sem qualquer demora.


Atônita, fechou a janela da cozinha. Além de não dar notícias e enviar um bilhete somente às onze horas do dia 24, Harry ainda orienta sua coruja para ir embora assim que tivesse feito sua entrega?


“Harry Thiago Potter, eu vou acabar com você!”, pensou Hermione enquanto dirigia-se ao embrulho que deixara na mesa.


O objeto era pequeno, cabia na palma de uma mão. Era envolvido por papel de presente vermelho e dourado, bonito até, mas Harry precisaria de muito se estivesse tentando compensar a mancada de abandonar Hermione na noite de natal. De nariz torto, a garota desembrulhou o presente: um saca-rolhas.


- Mas que diabos...? – indagou a garota, irritada.


O pequeno objeto prateado refulgia à luz amarelada da sala de estar. Hermione o encarava com tamanha perplexidade que nem ela reconheceria seu rosto se o encarasse no espelho. Recolocou o objeto sobre a mesa e apanhou o bilhete que o acompanhava no fundo do embrulho recém recebido. Na letra oblíqua de Harry, poucas palavras:


Meia noite. Não se atrase.


- Perfeito sentido. – resmungou, irônica.


Aquilo já era demais. Além de tudo ainda tinha que suportar um amigo metido a enigmático? Não mesmo. Hermione simplesmente ignorou o que recebera, e resolveu passar o Natal sozinha mesmo. Foi até o seu quarto e colocou sua melhor roupa, ajeitando o seu cabelo em um bonito coque atrás da cabeça, apenas com uma mecha de cabelo solto por cima da orelha direita. Cobriu-se de jóias e passou sua maquiagem, sem se preocupar com exageros.


“Já que é pra fazer, vamos fazer direito.”, pensou encarando sua imagem no espelho. “Hermione Jane Granger, você está linda!”


Foi até a cozinha, então, e resolveu preparar uma ceia de Natal. No relógio, quinze para a meia noite. Em dez minutos, vários acenos de varinha tinham feito sua ceia. Arrumou a mesa da sala de jantar, colocou música ambiente. Onze e cinquenta e nove. Foi até sua pequena adega e escolheu seu vinho favorito, afinal, a ocasião pedia uma bajulação ao seu ego. Dirigiu-se à cozinha e, pousando o vinho na mesa, deixou seu olhar recair sobre o saca-rolhas. Esperou até o relógio bater meia-noite.


“Pronto, Harry. Sem atrasos, seja lá o que aquele bilhete quer dizer. Vamos ver se pelo menos para abrir meu vinho você vai servir.”, atacou Hermione, em pensamentos.


Tomando a garrafa em uma mão, apanhou o saca-rolhas. Porém no instante em que seus dedos tocaram a superfície metálica do objeto, os pés de Hermione foram arrancados do chão, a cozinha de sua casa começou a girar e a garota sentiu como se um gancho puxasse o fundo de seu umbigo, conduzindo-a para longe de onde estava. Logo a sensação cessou, e os saltos de seus sapatos bateram em assoalho de madeira.


Uma voz masculina soou as suas costas:


- Feliz Natal, Mione!


Antes que pudesse reorganizar suas idéias, sentiu dois braços fortes envolverem seu tronco em um abraço apertado, automaticamente retribuído por ela. Separaram-se, e, então, ela pôde ver um Harry Potter sorridente parado bem na sua frente. Ele vestia um suéter de lã, azul marinho e de gola alta, que ressaltava seus músculos, com jeans preto e sapatos de camurça escuros. O contraste daquela roupa com a pele alva do garoto tirou Hermione do chão por alguns instantes, contudo ela logo retomou a pose. Estava enfurecida com Harry.


- Não precisava ter trazido o vinho, só o saca-rolhas. – disse o garoto, observando as mãos de Hermione, que carregava o vinho e o saca-rolhas – De qualquer forma, ainda bem que chegou, estava mesmo querendo abrir logo meu tinto italiano.


Hermione parecia estuporada. Ficou parada no lugar enquanto o amigo tirava delicadamente o vinho e o saca-rolhas de suas mãos e os depositava sobre a mesa. Ela deixou os braços caírem dos lados do corpo, enquanto ouvia o amigo arrancar a rolha de uma garrafa de vinho. Logo Harry voltou, com duas taças cheias nas mãos, oferecendo uma à amiga, que ficou encarando a sua mão estendida com uma expressão confusa no rosto.


- O que foi? – perguntou Harry, intrigado – Aconteceu alguma coisa?


Hermione parecia que ia explodir.


- O que foi? Eu vou te dizer o que foi! Você me convida para passarmos o natal juntos e me deixa plantada em casa esperando desde a hora do almoço sem dar sinal de vida, depois me manda a sua coruja com as instruções de me entregar um saca-rolhas embrulhado e um bilhete sem sentido e sair voando na primeira oportunidade. Então o seu presente maluco me traz até a sua casa e você sinceramente ainda espera que eu beba vinho com você como se nada tivesse acontecido? – disparou Hermione, com o rosto tornando-se mais vermelho a cada palavra proferida, sem espaço para respiração.


Harry ergueu as sobrancelhas em sinal de espanto, enquanto Hermione estava a ponto de soltar fogo pelas ventas. Lentamente abaixou-se e depositou as duas taças de volta na mesa. Logo em seguida ergueu o corpo e, sorrindo descontraído, chegou perto da amiga.


- Mione, eu só queria fazer uma surpresa! – disse, enquanto passava os braços ao redor do corpo da garota, na tentativa de um abraço.


- Surpresa de muito mau gosto, Potter. – ela devolveu asperamente, encarando-o nos olhos e fugindo de seus braços.


- "Potter"? Ah, onde está o seu espírito natalino? Eu não disse que seria diferente quando te convidei para passarmos juntos o natal? – perguntou Harry, enquanto Hermione lhe dava as costas sem responder. – Vai me deixar falando sozinho agora?


A garota permaneceu em silêncio. Ouviu os passos de Harry no assoalho enquanto ele se aproximava. Ela virou-se de volta e percebeu que a distância entre eles era assustadoramente pequena. Ele tomou o rosto da garota nas mãos e seus olhos se encontraram de maneira perturbadora.


- Juro que eu não queria te magoar, as minhas intenções eram as melhores, me perdoe. – defendeu-se o garoto, sério.


- Ah... tudo bem. – Hermione respondeu meio sem jeito. Estava estática, hipnotizada pelo olhar do amigo.


- Sabia que você fica linda quando fica brava? – tornou Harry, cortando o silêncio que reinara por alguns segundos.


Hermione ficou mais perturbada ainda, era incrível o efeito que ele produzia nela... Harry em seguida soltou uma gargalhada alta, que descontraiu o ambiente. Hermione sorriu e deu um tapinha de leve no ombro do amigo enquanto este a puxava para um abraço carinhoso.


Depois disso, tomaram vinho e comeram a deliciosa ceia que Harry havia preparado. Conversaram muito também, sobre vários assuntos, desde a campanha de Rony nos Chudley Cannons até a eleição para novo Ministro da Magia. Essa era a parte da amizade dos dois que Hermione mais gostava, podia conversar com o amigo o quanto quisesse sobre o que quer que fosse. Sempre se sentia à vontade na presença de Harry, e, já isso, era o que mais gostava nele.


- Harry, com essa brincadeira toda eu acabei não trazendo seu presente. Acho que vou ter que entregá-lo outro dia. – disse Hermione. Ambos estavam sentados no sofá, e ela havia acabado de contar ao amigo sobre o seu ótimo orientador de anatomia bruxa do curso do ministério, enquanto o garoto a colocara a par de seu estágio de Inominável.


- Tudo bem, Mione. – respondeu o garoto, enquanto servia-se de mais vinho. – Mas... a minha “brincadeira” ainda não terminou.

Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.