Amanhã, praça do relógio
Está bem assim?
Durante todo o resto do dia a pergunta de Nissenson fixara na mente de Mary e não a deixava fazer mais nada. E mesmo a noite, trancada em seu quarto, ela atormentava os seus pensamentos, tanto que a fazia esquecer do incidente que tivera com Hainault no almoço.
Sentada na cama com as pernas cruzadas, ela segurava nas mãos a caixa com os biscoitos de chocolate que deveriam ter sido o presente de aniversário de Doumajyd. E várias lembranças insistiam em vir a sua mente:
Doumajyd dando duas voltas, parando no mesmo lugar onde estava e dizendo em tom de ordem: Amanhã, uma hora, Hogsmeade, praça do relógio! E então saindo sem se explicar.
Doumajyd a abraçando de repente e sussurrando perto da sua orelha: frio, enquanto tremia inteiro por ter ficado esperando por ela na praça em baixo de neve.
Doumajyd ardendo em febre deitado em seus joelhos, nem de perto parecendo o ditador do D4, lhe dizendo para ela que aboliria as Tarjas Vermelhas.
Doumajyd lhe ordenando “Me dê a sua mão.”, e ela perguntando desconfiada o que era. “Apenas me dê a sua mão, droga!”, ele exigiu e ela lhe estendeu a mão desconfiada. Então ele lhe entregou a esfera de cristal do tamanho de um pomo de ouro, para ser o contato particular deles... Ou para ele poder lhe dar ordens onde que quer que ela estivesse, como ela havia pensado no começo.
Doumajyd lhe chamando para ir para a Torre de Astronomia, como se toda a confusão que havia acontecido com a volta de Hainault da França e com o desastroso encontro duplo nunca tivesse acontecido.
Doumajyd marcando um encontro depois do Totalmente Bruxa. Mesmo depois de ele ter sumido e não ter falado com ela no final do concurso, ficara imensamente feliz ao ver a imagem dele na esfera.
Doumajyd falando que iria para Nova York para se tornar um bruxo melhor, para que ninguém pudesse impedi-los de ficar juntos.
Está bem assim?
Mary respirou fundo e se levantou decidida da cama, pulando no chão e agarrando a sua mochila. Revirou o seu interior até encontrar a sua esfera, e então voltou para a cama.
Por alguns instantes, ela encarou a esfera com medo do que pretendia fazer, mas reuniu toda a sua coragem e a apertou, pensando na pessoa com que queria falar. No mesmo instante a fumaça azulada começou a girar dentro do cristal, e Mary prendeu a respiração. Ela tinha plena consciência que seu coração batia descompassado com o que estava fazendo e com a perspectiva da imagem que iria aparecer. Porém, a fumaça continuou a ser fumaça.
Ela soltou o ar e deixou a mão com a esfera cair pesadamente na cama. Deveria ter imaginado que ele não atenderia um chamado dela. Ele não atendera durante meses, por que atenderia agora?
- Oh.
Mary não acreditou no que ouvira e pensou estar ficando louca com tudo o que estava passando na sua cabeça. Porém, ao olhar para a mão com a esfera se deparou com a miniatura de Doumajyd olhando para ela.
- Ah! – ela deu um pulo na cama e tentou ficar de pé, mas o máximo que conseguiu foi ficar de joelhos – É que... é que... eu... e-eu queria falar com você. – disse ela por fim.
- Hum. – disse ele em resposta.
Apesar de os dois poderem se ver, ambos procurava ao máximo evitar se olhar diretamente.
- Pode falar agora? – perguntou ela pensando que ele poderia dizer que estava ocupado como das outras vezes.
- Hum... tudo bem. – ele concordou em um murmuro quase inaudível.
- Faz... faz muito tempo que não nos falamos pela esfera. – comentou ela com uma tentativa fracassada de um sorriso descontraído.
- Hum. – ele concordou.
Mary desistiu do sorriso. Não havia como sorrir. Ver Doumajyd ali, como ela queria ter visto tantas vezes antes de ter ido para Nova York, chegava a doer. E, mesmo lutando contra isso, seus olhos se encheram de lágrimas.
- Es-está chorando?! – perguntou ele surpreso, esquecendo da sua convicção de não olhar diretamente para ela.
- Não! – respondeu ela firmemente esfregando os olhos com as mangas das vestes, mas não conseguindo conter um soluço – Não estou chorando!
Ele continuou a encarando, e era claro para Mary que, se fosse como antigamente, agora ele estaria falando algo como ‘É claro que você está chorando, idiota!’
- Sabe... – ela continuou diante do silêncio dele – Falar com você, depois de tanto tempo, com essa esfera... é... inacreditável... Eu cheguei a pensar que... nunca mais o veria por esse cristal... Durante todo esse tempo, eu pensei nisso...
Doumajyd continuava em silêncio como se, ver ela naquele estado, se segurando para não chorar por estar falando com ele, o tivesse deixado sem saber o que fazer.
Então, respirando profundamente, e encarando a esfera com a mesma determinação de quando decidira pegá-la, Mary repetiu em tom de ordem:
- Amanhã, uma hora, Hogsmeade, praça do relógio! – e fez com que a imagem de Doumajyd voltasse a ser fumaça, para que ele não tivesse chance alguma de responder.
***
- Eu sou uma completa idiota, Vicky! – quase chorava Mary batendo a cabeça na mesa da estufa na manhã seguinte.
- Eu achei genial. – comentou a amiga enquanto colocava com cuidado os potes de doces prontos da professora em uma caixa para ser entregue.
- Ele não vai aparecer.
- Como você sabe?
- Ele não vai aparecer! – lamentou-se.
- E se ele aparecer?
- E se ele aparecer?! – repetiu ela com uma voz esganiçada, como se somente agora houvesse pensado nisso – O que eu vou fazer?!
- Fale com ele, Mary. Você vai saber o que falar, exatamente como marcou esse encontro: por instinto.
Mary pensou por um tempo na sua situação e então disse:
- Desculpe por deixar todo o trabalho dos pedidos com você, Vicky.
- Tudo bem, desde que você se esforce em resolver de uma vez esse problema entre vocês.
- ...Mas eu não dei chance para ele responder. E se ele não vier?
- Mary, – Vicky parou o que estava fazendo e se sentou na frente da amiga – nem que ele se atrase quatro horas, nem que comece a nevar e que você esteja morrendo de frio... espere por ele!
Ela pestanejou diante do que a amiga falara e concordou sorrindo:
- Acho que eu não vou poder continuar vivendo se eu não fizer isso, não é mesmo?
- Isso! Agora coloque uma daquelas vestes bonitas que você ganhou em Nova York e vá para Hogsmeade!
- Ok. – Mary bateu continência e se levantou para sair da estufa, imensamente agradecida a Vicky por ter conseguido lhe dar ânimo para enfrentar o que quer que fosse acontecer naquela tarde.
***
Mary correu todo o caminho até chegar a Hogsmeade, segurando firmemente o pingente de saturno no colar que ganhara de Doumajyd antes dele ir embora.
- Ele vai estar lá. Ele vai estar lá. Ele vai estar lá. – ela repetia para si mesma enquanto corria, como se cada pensamento positivo lhe desse força para dar o próximo passo na sua corrida.
Assim que avistou a esquina que dava para e entrada da praça, ela diminuiu a velocidade e chegou até ela devagar. Haviam várias pessoas aproveitando o tempo firme para passear, então ela avistou a estátua na frente do relógio por cima de vários chapéus pontudos.
Ela fechou os olhos, dando um último aperto no pingente e repetindo mais uma vez que ele estaria lá. Então abriu os olhos e procurou enxergar pelas pessoas que passavam o lugar do encontro... mas não havia ninguém lá.
Porém, antes que a decepção tomasse todo o seu pensamento, seu coração deu um pulo. Doumajyd havia surgido de trás da estátua, consultando o seu relógio e olhando em volta.
Mary não pôde conter uma risada de alegria com o alívio que sentiu, mas logo tratou de se controlar. Ele ter vindo era só um obstáculo superado, e não seria o mais difícil a se enfrentar.
Se enchendo de coragem, ela deu um passo a frente, já formulando o que diria ao dragão.
- CHRIIIIS!!!
O chamado vindo de algum lugar perto da torre do relógio fez Mary congelar.
- O quê? – ela perguntou baixinho para si mesma quando viu a bruxa de cabelos roxos se aproximar saltitante e praticamente pular em cima de Doumajyd – Por que ela está aqui?
Então, mais inesperadamente quanto ela havia aparecido, a metamorfomaga lançou os braços em volta do pescoço de Doumajyd e o beijou.
Chocada com o que viu, Mary sentia que tudo a sua volta silenciara de repente.
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